Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Poeta sem Palavras

Falta contar
A história do poeta
Que perdeu as palavras
Quando a forma
Do teu corpo
Abandonou o desenho
Das minhas mãos.

Falta contar
A história do ateu
Que saiu de casa
Numa noite de breu
E foi esconder-se
No templo sagrado
Desse corpo abandonado
Ao desejo e à distância.

Não é errância,
Isto,
É um Destino misto
De Fé e indiferença.
É acreditar, violentamente,
E essa crença
Estar dilacerada
E dividida
Entre o abraço
Na chegada
E o adeus
Na partida.
E as únicas palavras dizíveis,
Na medida justa e certa,
Serem as que perdeu
O poeta.

jpv

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Sangue

Eram de sangue,
As lágrimas
Que secaram
Na face.
Talvez um dia
Passe
Essa dor
Da distância,
Fruto da errância
Dos homens.
E quando os homens
regressarem
E fecharem o abraço
Que os espera…
Hão de chorar de novo
Lágrimas…
De sangue.

jpv


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Elegia da Partida

Tinhas os olhos
Raiados de lágrimas
Quando o teu corpo
Se despediu de mim.
Era o fim
De nada.
De nenhuma coisa
A não ser a ilusão.
Não era,
Nunca foi,
Um Não.
Foi sempre um Sim
Impossível,
Um grito inaudível
Na eternidade.
Um abraço no vazio,
Uma noite à chuva
E ao frio.
E a dor de ver-te partir
E continuares aqui
É como morrer em mim
O esplendor de ti.

jpv


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A Barca


É uma embarcação formosa.
Leva no cesto da gávea
Uma mulher quase real,
Quase divina,
Com uma mão sobre a vista
Prescrutando o horizonte.
É cega.
Na bruma da hora
Da partida,
A embarcação desliza
Comprometida
Com o Destino.
E quem lá vai dentro
Olha a costa
E chora.
Já não há portos seguros.
Neste preciso momento,
Intensifica-se o olhar da deusa
Quase mulher
Que acena
Um longo
E arrependido adeus.
Já mal se vê,
A embarcação,
Já nem se percebe
Que é formosa
Ou mesmo embarcação.
Nunca se soube
Quem ia dentro
Da barca misteriosa.
Eram saudades…
Nostalgia.
Dissipou-se a neblina,
Abriu-se o dia.
O astro brilhou
E uma bátega de água,
Violenta e impiedosa,
Jorrou dos céus.
Era salgada, a água.
E agora,
As ondas vêm de mansinho
Beijar a praia
E trazer rumores
Daquele olhar.
Um momento de contemplação
E outra barca a naufragar.

jpv


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Presas Brancas

Estas mãos
Foram desenhadas
Para te segurar.
E estes lábios
Foram recortados
Para te beijar.
Estes olhos
Foram concebidos
Para te olhar.
E este peito
Foi aberto
Para tu entrares.
E é por isso
Que não entendo
Essa questão
Séria e profunda,
Para mim,
Sem qualquer importância,
De um amor
Vivido à distância.
Se as minhas mãos
Cingem teu corpo
Ao meu,
Se o meu beijo
Se encontra com o teu,
Se os meus olhos
Mergulham nos teus,
Se o teu peito
habita o meu,
Se nada de meu
Deixa de ser teu…
Porque sinto
Este desespero
E esta inquietação?
Esta completude
E esta imperfeição?
Porque respiro
Quando teu
Corpo não está
Em mim?
E porque sinto
O começo
Como se fora o fim?

jpv


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Plantas Aromáticas

Tens nos lábios um Jardim de flores,
De fragrâncias e odores
A cravos e a Jasmim.
E tens no olhar
Histórias e segredos
Que nascem e morrem em mim.
Tens a verdade nas palavras
E a certeza no gesto.
Teu corpo é um manifesto
De tentações
E homens perdidos.
E tens o calor do desejo
Semeado em cada promessa de beijo
Que nunca se fecha em minha boca.
Em ti,
A lua do olhar
É galáxia pequena e pouca
Para tão vasta conversa.
Tua mente
É maré cheia e adversa
Em meu peito disperso.
És a ida e a volta,
A ave livre e solta
Pairando em meu
Circunscrito universo.

jpv


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Nunca

Não foram
As palavras que me disseste.
Foram as que ficaram por dizer.
Não foram os beijos
que me deste.
Foram os que preferiste esconder.
Não foi o abraço longo e seguro.
Foi teres erguido o muro.
Não foi a tua voz cristalina
Contando histórias de menina.
Foi a hesitação…
Foi ter faltado
A letra na canção.
Um corpo voltado
E uma mão estendida e vazia
No frio da noite.

Nunca se guarda
Uma palavra que se pode amar!
Nunca se suspende
O tempo de entregar
Uma mão noutra mão.
Nunca se recusa
A coragem
De quem se atravessa
Na solidão
E nos entrega
Um peito aberto,
Voo planado sobre o deserto
da existência.
Sem teoria,
Sem nenhuma sabedoria
Que não seja a dádiva
A um ser que ama antes das palavras,
Com as palavras
E depois delas.

Não se nega a existência
Quaisquer que sejam
Os contornos da Ciência.

jpv


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Pessoa Gramatical

“Tenho vivido uma dúvida razoável. Questão de contornos aparentemente simples, e, contudo, com reflexos intrincados e implicações diversas que me custam ponderar. Na verdade, não sei como a hei de tratar. Não quanto ao teor, bem entendido. Tratá-la-ei, sempre, da única forma que quero e sei: bem. Muito bem. Cuidadosamente bem. Carinhosamente bem. Sem discussão e, menos ainda, causa para qualquer reflexão. Refiro-me ao trato, propriamente dito. À pessoa. Não à sua pessoa. Essa, inscreve-se no bem. Muito bem. Cuidadosamente bem. Carinhosamente bem. A dificuldade prende-se, exatamente, com a pessoa gramatical que hei de usar. A segunda. Ou a terceira. Não é dúvida que se me coloque amiúde. Normalmente decido, de forma quase intuitiva, como quero tratar as pessoas. No seu caso é diferente. Comecei na terceira pessoa por respeito e formalidade institucional. Já na altura sonhava tratá-la de outras formas, mas aquela era a única possível. Entretanto, por razões que bem conhece, tão bem quanto eu, estreitaram-se os laços, enlaçaram-se os olhares, aproximaram-se as palavras e, com naturalidade, me nasceu a tentação de tratá-la por tu. Na segunda pessoa, portanto. Tentação ilusoriamente fácil… repare que a nossa harmonia, inegável, deliciosa harmonia, tem-se sempre expressado na terceira pessoa. Não é distância e, se era deferência, a deferência foi caindo… é uma proximidade respeitosa, uma linha que não é barreira… tem, até, traços de certa ternura e certo carinho. Como sabe, muitas das pessoas de que nos aproximamos e tratamos por tu acabam a magoar-nos ou a ser magoadas por nós. Dirá que antes das palavras está a intenção das pessoas, o seu caráter, a sua formação, o seu contexto e esses, sim, determinaram essas feridas sendo que as palavras foram somente a roupagem, o invólucro. Nada mais errado. De palavras percebo eu. As palavras nunca são só o invólucro. Elas são atos. Contundentes e determinados ou tímidos e hesitantes, mas são atos. Há palavras que acariciam, e há as que magoam, e as que protegem, e as que expõem, as que unem e as que dividem… as palavras são atos. Creio firmemente que a única coisa que pode magoar mais do que as palavras é a ausência delas quando são necessárias e urgentes. Ora, não há nada que eu queira menos do que magoá-la. Mas é certo que não quero também distanciar-me… e aqui reside o meu dilema… a minha dúvida razoável. Eu, que nem sou muito de hesitações, como já ficou expresso. Mantenha-se a terceira pessoa. Uma terceira pessoa que nos protegerá de evitáveis excessos e de proximidades agressivas, mas uma terceira pessoa que não seja distância. Toda feita de atenção, de ternura, de carinho e, porque não, de amor… se tiver de ser amor, amor seja… não li, nunca, em lado algum, que não pode amar-se na terceira pessoa.”

João Paulo Videira
In “Ponte Aérea”


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Renascimento

Gostava de saber
Que pensam
Teus olhos
Quando se fixam nos meus.
Queria saber
Se são
Tentações do diabo
Ou bênçãos de Deus.
Quando esse castanho
Me olha e me fita,
Não têm piedade, teus olhos,
Deste coração
Que se agita.
Os dias passam
E o sofrimento aumenta.
E esse olhar
Que se ausenta
Na distância
Faz vibrar meu corpo
Na inquietação e na ânsia
De sentir
O desenho da tua boca
Em meus lábios solitários.
Não, meu amor,
Não quero dar-te um beijo.
Quero cobrir-te de vários
E diversos suplícios
E carícias.
Quero desenhar
Nos teus olhos
Todas as possíveis malícias
Que uma paixão tem para dar.
E quero, por fim,
Renascer no teu olhar.

jpv