Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Luz

20170412_062528

É tão pouco
E tão ténue
O que nos divide.
E é tão clara
E tão forte a divisão.
A minha vida
Não é Bíblia
Nem Corão.
É só o ar que respiro,
O vôo da ave
Que vejo e admiro.
A minha vida
Não é Norte
Nem Sul.
É só o morrer das ondas
Na areia,
Sob o céu azul.
A minha vida
Não é Grande
Nem Pequena.
É só o sentir
Da brisa serena
Acariciando-me
Os pelos nos braços.
E é ter-te junto a mim
Num longo
E emocionado abraço
E acreditar
Que isso é todo o Universo.

Entre o aroma
Da tua pele macia
E o madeiro que desliza
Sob a ponte
Não há diferença alguma.
E, se a houver,
É só uma.
Tu és a fonte
De todos os rios,
O raio que provoca
Todos os arrepios,
A luz que rasga os céus
Antes da explosão
Que derruba
A árvore ao chão
De onde se desprende
O madeiro
Que desliza na corrente.
Tu és alma
E és gente,
Fogo incessante
De dúvida e esperança.

Por ti,
Meu mundo balança.
Por ti,
Rasgo a Bíblia e o Corão.
Por ti,
Abjuro o Norte e o Sul.
Por ti,
Não quero senão
A imensidão
De uma vida pequena.

Abraço.
Aroma.
Madeiro.
Ponte.
Alma.
E Luz.

Que seduz.

jpv

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Retrato em Quatro Quadras

Quando me estendeste a mão, 

Tinhas os olhos humedecidos

E havia uma aura de ilusão

Que nos trazia envolvidos.

 

O brilho desse olhar,

Adocicado pela tua voz,

Quase me fez acreditar

Que nascera algo entre nós.

 

E antes que chegasse a ternura

E a voracidade da paixão,

Soubemos acordar da loucura

Que entreteve nosso coraçào.

 

Um suave adeus,

Teus olhos nos meus

E um breve abraço

Dão sentido aos versos que faço.

jpv


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Tenho Poemas

palavras

Tenho poemas inteiros
Escritos a sangue
No peito.
E tenho poemas inacabados
No peito rasgados
A sangue.
Tenho palavras soltas
Sem destino nem jeito.
Restos de vida,
Gotejar impreciso
De um ideário morto.
Tenho linhas a direito
Com sentimentos a torto.
E tenho este grito
Que não sai.
Este mudo vociferar
Contra mim
E contra o fim
Que tarda em chegar.
Tenho palavras salgadas
E doces mentiras.
Tenho musas inspriradoras
E suaves liras.
E tenho este muro de impotência,
Esta coisa que não é Deus
E também não é Ciência.
Um sacrifício absurdo,
Um caminho doloroso.
Um querer tanto,
E tanto brilho,
Que torna mais penoso
O trajeto na escuridão.
Tenho tanto Sim
E vivo tanto Não.

jpv


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calendário

nessa manhã cinzenta de março
em que o silêncio se fez sentir,
morri de muda morte
e da fraqueza
renasci mais forte
ao ver-te partir.

veio um abril incerto.
o meu peito
era um campo aberto
e pressentia as tuas passadas.
caíram chuvas
e as gotas de água
abriram linhas molhadas
na minha face.

em maio pressenti o desfecho.
um arrepio de incerteza.
vi o medo e o fim.
naveguei ondas de fraqueza
e procurei um horizonte.
estava escuro.
não tinha brecha
esse muro
que ergueras entre nós
com a ausência da voz.

em junho,
cravei de raiva
lâminas de dor
no meu peito.
desesperei à procura
de desfazer
o que estava feito,
e não encontrei palavras
nas palavras que te escrevi.

acreditei e vi,
em meados de julho quente,
que era eu o ausente
do novo mundo
e da ordem nova
que desenharas.
sem saber onde foras,
sabia que por lá ficaras.

rebentaram em profusão
Nesse agosto de estio
cearas de solidão
colhidas em noites de frio.
fui ao engano,
à procura da luz.
ficou um poema por escrever
no meu grito calado.
jazia em meu peito
um homem tombado
e o homem era eu.
nada em mim reconhecia de teu.

ainda me lembro
da chegada de setembro
e as mãos a sangrarem súplicas.
linhas tortas de palavras inúteis
e o olhar perdido no nada.
Estava consumada
a negação.
a viagem era tua.
para mim não sobrou, sequer, o chão.

outubro.
mês do meu aniversário.
tempo ideal para uma revolução
no calendário.
a revolta foi só a minha,
e a desilusão.
não houve
estender de mão
nem ventos de mudança.
não houve palavras de anunciação
nem gestos de esperança.

o calor chegou
no mês dos santos
e tu ofereceste-me outros tantos
silêncios
e umas quantas mágoas.
choveram abundantes águas
e silvaram ventos destruidores.
Na sozinhês de mim
nasceram novas dores
e algumas certezas.

finalmente,
como em todos os calendários,
chegou o mês do menino jesus,
das promessas novas,
dos presentes vários
e coloridos
da esperança e do natal.
nada ficou igual.
e tudo ficou na mesma.
a tua face, sim, e o teu corpo cingindo o meu.
a mesma solidão,
o mesmo desespero,
o mesmo breu…

o tempo passou.
nada do que foi ficou,
a não ser
este informe e nefasto sumário,
de vida negada e silêncios profundos,
marcado nos quadradrinhos do meu calendário.

jpv


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Homem sem Tempo

Tempo

Já nada virá a tempo.
Perdi a vida,
Perdi o momento.
Perdi o sonho
Em nome do sustento.

E há essa pedra fria
Em que habitas.
Esse espinho cravado na alegria.
Essa manhã clara
Feita noite fugidia.
Essa porta fechada,
Destino sem rota,
Nem estrada.

O caminho que fizeste
Não tem trilho de regresso.
Só sangue negro e espesso,
Vitória sem sucesso,
O escuro à volta da luz.
Corpo de samba
Que não seduz,
Trevo de quatro folhas
Sem charme nem sorte,
Vida pujante
cheirando a morte.

E amanhã,
Quando me estenderes a mão,
E a sentires gelada como o chão
De inverno,
Não encontrarás, já,
O toque quente e terno
De um corpo com alma
E esperança.

O caminho que fizeste
Não tem trilho de regresso.
Pedra fria.
Porta fechada.
Homem sem tempo.

jpv


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Carrossel sem Anestesia

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Não faco balanços, nem arrumações de casa, nem limpeza de amizades e, menos a ainda, resoluções de ano novo. Cinjo-me a factos com a naturalidade de quem já não tem tempo a perder com rodeios.

Eu sou, sempre fui, um tipo positivo e otimista. Muito. Quase como uma doença incurável, uma espécie de segunda pele. Tenho uma tendência natural para acreditar que as pessoas e os acontecimentos são bons, ou têm algo de bom, e acredito nessa bondade antes de tudo o resto. Digo isto para que se perceba que não é com leviandade que me refiro a 2017 como tendo sido um mau ano. Um dos piores que vivi desde que me lembro de viver.

Demasiados fatores alheios a mim por controlar, demasiadas deferências, demasiadas esperas, alguma contemplação para com a ignorância e a estupidez inconsciente, alguma falta de determinação, algum evitar o inevitável e as soluções a saírem-me ineficazes e as situações a perderem-se no espaço e no tempo certos. Ficam a brilhar no escuro da insatisfação algumas amizades, a família e a saúde que, não obstante o avanço da idade, ainda me não trouxe preocupações de maior.

Naturalmente, isto terá de mudar. Isto vai mudar. Se não mudasse, teria de despedir-me de mim e isso não posso, não quero e não sei. Que é como quem diz, não farei senão o que tiver sentido para mim, sem cedências, nem contemplações… não haverá esperas nem brechas para a ignorância. Seja com quem for, há de ser sem anestesia.

Eu fui um menino sossegado, um adolescente rebelde e trabalhador e sou ou, pelo menos, tento ser, um bom homem. Erro, claro, mas tenho essa intrínseca humildade de reconhecer o erro e a força para melhorar a partir dele. Sou cordato, mas não sou, por imperativo de preservação dos princípios, anuente. E sou frontal o que, diga-se, me tem conquistado bastantes problemas e dissabores.

Os meus amigos serão sempre os meus amigos e não sentirão diferenças nem mudanças. Mas haverá quem o venha a sentir. Antes de mais, eu. Os outros poderão espantar ou nem sequer notar. Não quero saber. Quero saber que a terra dará mais uma voltinha à volta do sol, mas o carrossel será outro. Sem anestesia.

jpv


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Morrer

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A ausência da palavra.
A dor do silêncio.
O inequívoco rumo
Da flecha.
Uma alma vergada
Ao sofrimento
Num corpo só
E exilado de ti.
Um grito, primeiro.
Depois, um lamento,
Um debater-me com o inexplicável.
E por fim o choro.
Caminho cego
E prometo voltar a ver,
Mas nada já me resta
Na vida
Melhor que morrer.

jpv


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Partida

 

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Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo.
Ainda sinto em mim
O perfume da tua pele doce.
Ainda a tua voz
Me pergunta se vi os teus óculos.
Ainda não partiste
E já foi, há muito,
A hora da partida.
És a estrela
Na noite da minha vida.
A força
Do meu respirar.
Conjugação primeira
Do verbo amar.
A luz no breu,
O fogo de Prometeu
Sem castigo nem suplício.
Só o vício
De ter-te a mão
Na mão
E saber que isso
É o Universo que conheço e sei.
A única e verdadeira lei
De estar vivo e completo.
Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo
E já me falta o chão…
E o teto.

jpv


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Saudades

saudades

Tenho saudades
Dos beijos que não me deste.
Tenho saudades
Das carícias que não me fizeste.
E tenho saudades, enfim,
Da tua pele suave sobre mim
Prometendo que não voltava.
E quando voltaste,
Trazendo suplícios de ternura,
Insanidade dos sentidos,
Desvario de mente quase pura
E quase perdida,
Trouxeste ainda mais vida,
Mais transgressão
E absoluta liberdade.
E deixaste no meu corpo
A semente dessa saudade.

jpv


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E havia tanto mar…

Não houve…
Não poderia ter havido.
Foi sempre um mar incerto,
Uma embarcação sem rumo
Nem sentido.

Não tem mais
Cavalos selvagens nos teus cabelos.
Não tem mais
Borboletas coloridas nos teus lábios.
Sucumbiste
Aos conselhos sábios
Da razão e da prudência.
Presente…
Só a ausência.

E havia tanto mar.
Havia tanto marinheiro.
Havia um homem por inteiro
E um desejo a saciar.
E agora
Há só este chão queimado,
Este deserto desolado
De ter-te.

Nem me viste.
Nem chegaste a ignorar-me.
Poeta sem poesia.
Modelo sem charme.
Músico sem notas.
Coração vazio
De onde brotas
Sem nunca
Teres entrado.
Só este terreno inóspito,
Este chão queimado.

Não houve…

João Paulo Videira