Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

Parabéns a Você 

Nesta data querida
Se ganhou um menino,
Se perdeu uma vida.
Nesta data querida
Se ergueu uma esperança,
Se perdeu uma vida.
Nesta data querida
Se estendeu uma mão,
Se perdeu uma vida.
Nesta data querida,
Tantos sonhos,
Tantos desejos
E tantos amores,
Mas a vida
Estava já perdida.
Muitas felicidades
Passaram,
Como um rio,
Aos pés do menino
Em correria desabrida,
Mas a vida
Estava já perdida.
Muitos anos,
Muitos danos,
Fiada infinda
De desenganos.
Nesta data querida
Ilude-se a mente,
E a mente iludida
Deambula triste e só
Ao som do eco
Da cantiga.
Nada, já, será como foi
No tempo em que a melodia
Encantava o menino.
Estrada longa sem trilho,
Tarde quente sem sol,
Pai solitário sem filho,
Corpo quente frio,
Abandono,
Melodia surda e triste,
Longe do sopro da voz
E de tudo quanto existe.
Má sorte.
Doce morte.
Nesta data querida…

jpv

Anúncios


Deixe um comentário

Nado-Morto

azul-infinito

Nasceu comigo
Minha morte,
Nem esperou o primeiro brado.
Ainda mal respirava
E era já um morto-nado.
E vim ver ver o mundo
E maravilhar-me com o Universo.
Ter ganas de agarrar e unir
O que é por natureza disperso.
E vim seduzir as mulheres
E ser seduzido por elas.
Vim admirar as paisagens
Como nítidas aguarelas.
E vim saborear o mar
E segurar a terra com as mãos.
Vim sentir a brisa na face
E contemplar o tempo todo da existência.
E nunca cá estive.
Nunca dei um passo.
Nunca respirei mais que o primeiro sopro.
Desde o início,
Inconsciente e morto.

Não vivi.
Nunca vivi.
Nunca soube como.
A vida passou por mim
E quase não se apercebeu
Da minha presença.
Homem vagueando pelo tempo,
Morto à nascença.

jpv


Deixe um comentário

Corpo de Pecado

Já ouvi chamar
Corpo de pecado
Às linhas curvas
Com que me endoideces,
Mas não vejo que haja crime
Na imagem de teu corpo deitado
Sob minhas súplicas
E minhas preces.
Já ouvi chamar
Dança da tentação
Ao movimento de tuas nádegas
Enquanto teus pés evoluem no chão,
Mas eu não me sinto tentado,
É de livre vontade,
Passada firme e ritmo certo,
Que meu corpo segue o teu para todo o lado.
Já ouvi descrever-te
Com palavras de luxúria
Vindas de homens desenganados
Com a mente em desespero
E a libido em fúria,
Mas não tenho por ti
Qualquer desejo carnal,
Deitar-te na minha cama
E inaugurar-te o corpo inteiro
É ímpio e sagrado ritual.
E há nesta inversão
Alguma coisa de enganoso
Que é confundir o milagre do teu sexo
Com algo vil e pecaminoso.
Eu sou o fiel seguidor,
E tu, a sensualidade perseguida,
Não pode haver falta de pudor
Em tão singela forma de vida.

jpv


1 Comentário

Entre-Ser

wp-image-284978859

Não é um amor proibido.
Não é um sentimento fingido, também.
É um desencontro
Que nasceu, quem sabe,
No útero de minha mãe.
Não é o que nunca foi,
E não é, também,
O que nunca será.
É um sentir,
Aqui e já,
O desejo
E a impossibilidade.
É uma coisa nova
Mais antiga que a idade.
Não é um pecado,
E não é lícito também.
É uma transgressão imaculada
Que nasceu, quem sabe,
No útero de tua mãe.
Não é um romance anónimo,
E não é, tão pouco,
Um romance nomeado.
Tu não pronuncias meu nome,
E teu nome, em meus lábios,
Isso, sim, seria pecado.

E vivemos neste entre-ser
Que a vida nos trouxe,
Sem saber como teria sido,
Mas vivendo como se fosse.

jpv


Deixe um comentário

Lamento

20180901_185304.jpg

Não te reconheço, já,
No olhar desviado
E altivo.
Não percebo, sequer,
Qual seja o ímpio
Motivo
De teu fingimento
E de tua distância.
Vivo o desespero
E sofro a ânsia
De ver-te regressar
Ao menino que eras,
Repleto de sonhos
E quimeras,
Sorriso largo,
Palavra cristalina.
Não sei…
Não tenho como saber
Quem te desviou o olhar e o ser,
Quem destroçou teu coração.
Eu sou o amparo,
O peito aberto,
A mão que se estende
E fica estendida
À espera de preencher-se.

Mas a espera, meu amor,
Tem seu tempo.
Meu coração chora
Até deixar de acreditar
Que hás-de vir segurar
A minha mão aberta
Depois disso,
Sobra só uma alma magoada
E deserta
Que se fecha e esconde
E quer morrer sozinha
E devagarinho
Na segurança da solidão.

E este lamento
Que choro como uma prece
É um grito violento
Que expõe e oferece
Minha mão à tua,
Um olhar,
Uma alma nua.

jpv


Deixe um comentário

Teologia do Humano

Eu sou do universo perecível
Das pessoas que caminham,
Que suam,
Que têm dores
E imperfeições.
E tu deslizas
Uma elegância
Diáfana
E imperturbável.
O mais real em ti,
Não vale a pena duvidar,
É esse aroma adocicado
Que denuncia a tua presença,
Ao passar.
Não tenho como desejar-te,
Nem como satisfazer
Meu atormentado coração de menino.
Pode ser fatal, a um humano,
A contemplação do divino.

jpv


Deixe um comentário

Príncipe

tree

Ainda agora
Se não via,
Em teu rosto,
O mais insuspeito
Traço de alegria.
Ainda agora,
Há uns momentos atrás,
Diria que te faltava toda a paz.
Negro e dorido,
Teu coração,
Sem horizonte
Nem solução.
Ainda agora,
Há poucochinho,
Diria que choravas
Por dentro,
Vítima de violento
E incontrolado sentimento.

Mas ele chegou.
Talvez fosse um príncipe,
Mas não parecia um príncipe.
E teu rosto se iluminou.
Passo desacertado,
Chinelo no dedo,
Mal segurado.
A barba desalinhada,
A camisa branca aberta
E desengomada,
A alma deserta
De tudo,
Menos de ti,
Como querias.

Pensei que sabias,
Eu desejei, em tempos,
Ser ele.
E outra, que não conheces,
Eras tu.
Já não tenho
Esse desejo cru
E genuíno.
Hoje, contento-me
Com a tua luz,
Como o menino
Que vê brincar os outros
E fica feliz.

Não és ela.
Mas és a prova
De que havia,
Para o príncipe em mim,
Uma donzela.

E agora resta-me
Ver-te a face
Em leve rubor
De excitação.
Restam-me estes sentimentos
Confusos e dispersos,
Estas linhas sinuosas,
Estes atormentados versos.

jpv


Deixe um comentário

O Amor

amor

A causa de todas as coisas é o Amor.
Todo o Amor.

Não só o desejo
De percorrer a linha
Do horizonte do teu corpo,
Mas também o amor,
Que me deixa comovido
E absorto,
De uma criança sorrindo ao Destino
Sem ter Destino algum.
O amor, vulgar e comum,
Do velho agricultor,
De face sulcada,
Pelo cheiro da terra arada
E uma semente a espreitar.

Não só o amor
De percorrer a linha fina
De teus lábios
Com a minha língua molhada,
Mas também esse amor
Que têm os homens sábios
Por quase tudo
E por quase nada:
O voo irregular da borboleta,
O mendigo dormindo na valeta
Envolto em cartões,
E o olhar húmido
E repleto de emoções
De uma mãe que vê
A imagem do filho que regressa,
Amor de décadas de espera,
Sem excitação nem pressa.

Não só o amor
Pelo timbre da tua voz
Incendiando fogos em nós
E semeando um desejo antigo
E profundo,
Mas também esse amor
Pelos crentes
E pelos céticos do mundo,
Criaturas finitas
E infinitas
E iguais
Na diferença e na Fé.
Um amor obsessivo
Pelos que caem de pé
E não vendem a dignidade.
A causa de um gesto nobre
Não tem idade,
Nem cultura,
Nem carimbo,
Nem face.

O amor não se pede,
Dá-se.

É uma mão estendida,
Um sorrir a um sorriso,
Uma mão noutra mão,
Um amparo
Em vez de um empurrão.
Um abraço,
Divino laço
Entre humanos.

Com o Amor,
Não há enganos
Nem justificações.
Há só isso,
e a Paz que fica.
E essa Paz
É a coisa mais bonita.

jpv


Deixe um comentário

Essa ave pousada…

ave

Essa ave… pousada,
Celebrando a manhã.
Essa brisa… sossegada,
Acariciando a alma.
Essa luz… azul e infinita,
Sobre a paisagem recortada.
Tudo isso interessa pouco,
Nada disso vale mais que nada,
Quando a palavra proferida
Vem violenta e envenenada.

A tua dor
Não é a minha dor.
E dói-me que não vejas,
Estejas onde estejas,
Ela me dói também.
Tuas lágrimas correm em meu rosto,
Teu coração pulsa em meu peito,
Tua desilusão é meu desgosto,
Teu desespero me traz desfeito.

Essa ave pousada…

jpv


Deixe um comentário

Passeio Matinal

passeio-matinal.jpg

Basta a luz
Cristalina do sol firme.
Basta o azul
Intenso do céu a cegar.
Basta a areia
Desfazendo-se sob os pés.
Basta o mar
Conversando emoções inexplicáveis.
Basta um samba doce
Embalando a alma
E provocando a anca.
Basta o cão
Deitado a meus pés
Aguardando o destino de ambos.
Basta ser intensamente
Igual a mim.
Basta erguer a vontade
E deixar passar a vida.
Basta não indefinir
A coisa clara e definida.
Basta deixar morrer
O que mata a contemplação.
Basta não lutar
Todas as lutas alheias.
Basta não responder
Às motivações fictícias e feias
Que esgotam e desgastam.

Basta…
A simplicidade…
Basta…

jpv