Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Essa ave pousada…

ave

Essa ave… pousada,
Celebrando a manhã.
Essa brisa… sossegada,
Acariciando a alma.
Essa luz… azul e infinita,
Sobre a paisagem recortada.
Tudo isso interessa pouco,
Nada disso vale mais que nada,
Quando a palavra proferida
Vem violenta e envenenada.

A tua dor
Não é a minha dor.
E dói-me que não vejas,
Estejas onde estejas,
Ela me dói também.
Tuas lágrimas correm em meu rosto,
Teu coração pulsa em meu peito,
Tua desilusão é meu desgosto,
Teu desespero me traz desfeito.

Essa ave pousada…

jpv

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Passeio Matinal

passeio-matinal.jpg

Basta a luz
Cristalina do sol firme.
Basta o azul
Intenso do céu a cegar.
Basta a areia
Desfazendo-se sob os pés.
Basta o mar
Conversando emoções inexplicáveis.
Basta um samba doce
Embalando a alma
E provocando a anca.
Basta o cão
Deitado a meus pés
Aguardando o destino de ambos.
Basta ser intensamente
Igual a mim.
Basta erguer a vontade
E deixar passar a vida.
Basta não indefinir
A coisa clara e definida.
Basta deixar morrer
O que mata a contemplação.
Basta não lutar
Todas as lutas alheias.
Basta não responder
Às motivações fictícias e feias
Que esgotam e desgastam.

Basta…
A simplicidade…
Basta…

jpv


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Impossibilidade

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Não posso atender a todas as guerras
E ficar refém de mim.
Não posso ouvir todos os chamamentos
E ignorar o meu apelo.
Não posso salvar todos os mundos
Assistindo ao meu fim.
Não posso tecer todos os destinos
E não fiar o meu novelo.
Não posso sair de mim,
Esse poço de mistério profundo,
Não posso sair de mim,
Sem mim não há mundo.

jpv


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Poesia

 

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Primeiro,
Pressente-se, ao longe,
Esfumada,
E não se percebe bem
O que lá vem.

Depois,
Cresce um pouco,
Um incómodo incerto,
Uma inquietação imprecisa.
Avança tímida e indecisa
E faz-se mais perto.

Agora,
É já uma visível preocupação,
Ou uma alegria exuberante,
Em todo o caso,
É inconfundível a excitação
E a inconstância constante.

Por fim,
Irrompe sob os dedos, em bailado,
A criação.
Um jogo de fúrias e medos em tornado.
E atropelam-se,
Galgam-se desejos e voracidades,
Procuram a frente e as verdades,
Anunciam batalhas, vitórias e perdições.

São só palavras
Desenhando emoções.
São só estas linhas imperfeitas.
São só esta coisa absurda
Que tenho no peito,
Este reduto último
De quem vive dilacerado e desfeito.

Cada palavra rasga-me a carne
E cada verso é escrito a sangue,
Cada estrofe é uma coisa que arde
E exala de meu cadáver exangue.

Palavras…
Arrancadas
À noite e ao dia.
Em minha mente
Torturadas…
Poesia.

jpv


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Só…

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Só,
No deserto árido das palavras.
Só,
No glaciar impenetrável das emoções.
Só e perdido,
Afogado no grito próprio
E na mudez da tua ausência.

Só e perdido,
Na memória antiga que se esvai
E no tempo que não volta.
Eu já não sou filho
E tu já não és pai.
E contudo, vives aqui,
No espaço de não ver-te,
Na ilusão de prender-te
Entre os braços,
De querer ser como tu
E não ter a sabedoria
De esperar.
Já vai longa a agonia
E não oiço
A voz desejada.
Seu peito
É uma amurada deserta
E traz a herança certa
De quem rasgou sulcos breves.
Têm de ser leves
As passadas do agricultor
Quando joga ao vento
Semeaduras de amor.
Mas têm de ser fundos, os rasgões.
Esse arado com que lavras
Meu peito
E semeias ausências
E silêncios sem palavras
Anda-me roubando a vida.
Causa inglória e perdida…

Só…
Já nem me negas…
É na ilusão do teu colo que me deito.
Filho abandonado,
Pai sem jeito.

Só…

jpv


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Neblina no Caminho

sta-carolina

Já eras
A diáfana imagem
Da perfeição
Quando te conheci.
Já eras o amor
E a sedução
Quando me apaixonei
Por ti.
Róseo seio,
Delicada pétala,
Flor sem fruto
Na inocência da idade.
És memória,
E és saudade.

Já eras
Um mar encapelado,
Um vento revoltado,
No olhar
E nos cabelos.
Eras a graça,
O beijo inaugural,
O primeiro corpo
Sob o meu.
Tinhas um perfume
Adocicado e experimental,
A tua nudez,
A minha pele arrepiada
E o corpo tremendo.
Tinha medo de estragar-te.
Queria amar-te
Para sempre
E não sabia
Quanto era isso.
Paixão,
Amor,
Feitiço…
O sal do mar
Sabia melhor
Na tua boca.

Já eras
O caminho
E a caminhada louca.
Já vivia em ti,
Sozinho,
A minha solidão.
Feitiço,
Amor,
Paixão…

jpv


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Quadras satírico-humorísticas de timbre antigo e desusado escritas enquanto não estavas a ver…

vamos-fazer-uma-coisa-gostosa

Hoje fiz amor contigo,
É pena que não estivesses presente.
Ficas a saber, para castigo,
Que posso amar teu corpo ausente.

Sei que dirás, com desdém,
Que são devaneios de um pobre coitado.
Pois fica a saber, também,
Que deixei teu corpo deliciado.

Não te dês ares de superioridade,
Superior é coisa que não és.
Aqui, do alto da minha humildade,
Ainda te hei de ver a meus pés.

És vaidosa e usas roupas finas,
Para te passeares pela rua,
Enquanto vês montras e cruzas esquinas,
Eu fico em casa a imaginar-te nua.

Já vai longo este fado incerto,
De rumo sinuoso e complexo,
Quem dera ter-te por perto
Para intenso e despudorado sexo.

Será teu corpo uma plantação
De envolventes e suaves carícias,
Onde hei de ir colher à mão
Uma sementeira de malícias.

Vá lá, diz que sim,
Ao menos uma vez.
Não queiras apressar o fim
Do coração que tão bem te fez.

Hei de ver-te, finalmente,
Em minha cama deitada,
Corpo esguio e presente
Desde a noite até à alvorada.

E do que ali se passar
Faremos inviolável segredo,
Até ao dia em que subas ao altar
Com uma aliança de oiro no dedo.

jpv


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Talvez Tourada

Quando a farpa
Entra na carne do touro,
Não é na carne
Que mais lhe dói.
É no êxtase da surpresa,
Na desilusão que corrói.
Quando investes
E te entregas
À volúpia da carícia
E da harmonia imaginada,
Não percebes
A origem da perícia,
Sentes, só,
O gume da espada.
Quando dás
Sem te pedirem,
O corpo à festa
E à multidão,
E sentes os pés fugirem
À gravidade
Que te prende ao chão,
Percebes, finalmente,
A verdade crua e ensanguentada:
Era para ti a mentira,
Era para ti a espada.
Eras tu, besta insana,
A vítima da tourada!

jpv