Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Ousadias

chocas

Não me sais do peito.
Apetecem-me ousadias
Sem jeito.
E ternuras desmesuradas.
Apetece-me o teu olhar
Encantado
E as tuas mãos
Em meu corpo saciadas.
Apetece-me beijar-te
A pele
E a alma.
Menos que isso
É estar morto.

jpv

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Anseio

Continua a fazer sentido…

Mails para a minha Irmã

iago filhoAnseio

Anseio já esse abraço.
Esse toque puro.
Anseio a tua voz
Para cá do muro.
Essa distância que me mata
É a medida imprecisa
E exata
Deste peso no peito,
Desta mão incerta,
Deste amor que te tenho,
Sem o qual
A minha vida é deserta
De tudo.
Até de mim.

Meu olhar vagueia
À procura de ti
Enquanto percorro
Mundo e meio
E finjo outras razões,
Outros motivos e sensações.
E tudo é simples e cristalino,
Sou só um pai perdido
À procura do seu menino.

Andaste lá longe.
Cá longe andei,
Mas já gira a roda
Das palavras que te direi.
Essas palavras de desassossego…
Palavras de ter-te,
De reter-te…
E o medo
De ver-te partir outra vez.

Errante pelo mundo,
Procuras o sentido profundo de ti,
Esse mesmo que tenho em mim
E posso contar-te baixinho
Para ninguém ouvir.
Ser pai é olhar
Um filho partir.

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A Bíblia do Ateu

beijo

Foi bom, esse beijo,
De fugida,
Mais roubado que dado.
Nasceu em meus lábios
E morreu nos teus.
Foi simples e improvisado,
Tentação do Diabo,
Milagre de Deus.
Corpo ausente,
Junto a mim,
Desejo de beijo,
Sem princípio,
Sem fim.
Abraço de Platão
E o teu corpo sobre o meu,
A roupa que abandonaste pelo chão,
Bíblia sagrada deste pobre ateu.
E outro beijo, talvez,
Oferecido com o mesmo vigor.
Ainda bem que não me amas
Porque, se isto é assim sem amor,
Que seria deste pobre coração
Se o calor dos teus lábios
Trouxesse volúpia e paixão?

Não me beijes mais,
Peço-te, por favor,
Que o calor da tua língua
Traz-me o prazer
E mergulha-me na dor.
Ritual sem sacerdote
Nem altar,
Que tem por Salmo
Sinuoso decote
Oferecido ao olhar.

Foi bom, esse beijo.


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O Verbo Embalar

sol

O silêncio.
E era isso, a vida.
Muda.
Iludida.
Ecoou, então,
Em tom sereno
E pausado,
O som de um coração
Batendo apaixonado.
Correu em mim
Um arrepio
E uma urgência veloz
No momento exato
em que escutei
A tua voz.
Eram coisas simples
E era a vida toda.
Numa frase.

A síntese precisa
Do que não dizias
Espelhada
Nas palavras que proferias.

Houve um silêncio.
Sim.
E ruídos.
De fundo.
E houve, depois,
Esse timbre
Que me ensinou
O mundo.
E o amor.
Não calo mais
Meus ouvidos.
Não tenho
Como não escutar.

Ainda que fosse
Surdo profundo
Seria na tua voz
Que me havia
D’embalar.

O silêncio.
De novo.
E a vida que se retoma…

jpv


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Limiar

No limiar das palavras,
A transgressão.
No limiar do desejo,
A tentação.
No limiar do possível,
O impossível.
Para lá do horizonte do meu corpo,
O teu corpo desenhado.
É solitário este caminho
E, ao mesmo tempo, tem tanta gente.
É um andar sozinho
À procura do que se sente.
É um ter de pensar o impensável.
É aprender a aceitar
O inaceitável.
E, sendo tanto,
É tão pouco.
Mente sã,
Coração louco.
É um renovar constante
Da doçura.
É um salto livre
Na loucura.
E é uma ave pousada,
E uma menina a brincar.
Uma mulher inesperada
Num peito a pulsar.
É tudo.
E nunca foi nada.
Amor mudo.
Paixão silenciada.
Um livro aberto,
E outro por ler.
Uma página em branco, 
Uma história a nascer
No limiar das palavras,
À beira da transgressão.

jpv


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Maputo

É uma praia
Onde as ondas
Se vêm estender.
São milhares de luzes
Bordejando o mar
Ao adormecer.
São vendedeiras de caju e amendoim,
Avenidas longas em constante frenesim.
São meninos de roupas largas
E pé descalço,
Envolvendo num sorriso genuíno
O seu destino falso.
São mulheres exibindo
O colorido justo das capulanas.
É um tchova oferecendo
Ananases, mangas e bananas.
Busca o imenso céu
Um prédio esguio e alto.
Cá em baixo,
Dorme um corpo ébrio
No calor do asfalto.
Fecha-se o firmamento
E escurece.
E num breve momento
Acontece
Violenta trovoada.
Chove chuva copiosa,
Lavando a estrada,
Arrasta consigo
Fugaz vida ceifada.
Com a mesma violência
E o mesmo repente
Ressurge o sol ausente
E renasce, de novo,
O dia.

Esta cidade real
Parece fantasia.

Explodem odores
Exóticos e inusitados,
Pintam-se de mil cores
Os concorridos mercados.
Há nesta cidade
Uma coisa urgente e séria,
Reergue-se a Humanidade
E isso não é miséria.

Vagueia por aqui
Certo saudosismo português,
Teve o seu tempo,
Teve a sua vez.
Pinta-se de branco
E de negro também,
Fala changana… 
É palavra de Camões,
Traço de Malangatana.
E desvanece-se.
Chegou outra hora…
É tempo
De o mandar embora.

E sonhar
Com o homem justo,
Com a terra prometida.
É preciso pagar o custo
Da liberdade perdida…
E reconquistada.

Maputo
É hoje
Uma alvorada.
É um polícia
Vestido de branco
E outro de cinzento.
E é um povo
Perdido no tempo.

À procura do caminho.

É um sorriso largo,
Um olhar inaugural,
É um ritmo de marrabenta
Numa cintura sensual.
É o sol sobre o mar
Logo pela manhãzinha,
Um pescador lançando
A esperança numa linha.
E passa um chapa ruidoso
Que quase me atropela,
Atrás dele,
Desenha esses na estrada
Uma frenética chopela.
Passam carros com fulgor,
Estacionam num restaurante,
E, nesse mesmo instante,
Surge, solicito, o arrumador.

Vivem aqui
Sólidos e evitáveis
Desequilíbrios.
Uns pedem,
Outros dão.
E há nesta dança
Uma bruma de esperança.

Maputo é olhar em frente,
É uma terra
Semeada de gente.
É uma nação,
Um pátrio solo,
Um chão!
É a diferença
E a semelhança.
Maputo é mãe
De uma criança
Que ri e chora.
Maputo é todo
O tempo do mundo
E o tempo
É agora.

jpv(Maio de 2013)


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Bíblia

casal2

As tuas palavras
Anunciam desejos.
Os teus lábios
Prometem beijos.
As tuas mãos
Semeiam carícias.
As tuas ancas
Conjuram delícias.

Se não for o anúncio falso
E a promessa vã,
Se não for a sementeira estéril
E a conjuração improcedente,
Nascerá uma nova manhã
De odores citrinos e inaugurais.
Manhã ímpar e fresca
De gestos simples e fundamentais.

Um mundo renovado
E uma nova religião,
O credo do pastor amado
E a prece da paixão.
Reescrevo versículos
Com a cabeça abandonada
Em tuas nádegas desnudas.
Se soubesses
O quanto mudas
Só por estar aqui.
Tenho uma nova Bíblia,
Repleta de orações,
Que nasceu em ti.
E esse livro,
Sagrado e controverso,
Desenha um ato de amor
Em cada singelo verso.

jpv


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Se me deixasses

semedeixasses

O toque suave
Da tua face
Poderia resolver
Este doloroso impasse
Que é desejar-te
E não te ter.
Bastava que me deixasses morrer
Em teus braços,
Após os longos e exalados cansaços,
Que vêm depois
Do que foi antes.

O odor adocicado
Do teu pescoço,
Quando encosto nele
Meus lábios sedentos,
Deveria ser rastilho
Para inusitados momentos
De luxúria ofegante.
Bastava que me deixasses viver
Em teus seios generosos,
Me desses de beber em tuas fontes,
Subir teus montes
E descer a teus vales frondosos.

E, quando me seguras a mão,
Dá-se um milagre,
Faz-se uma conexão
Entre a tua pele que me convida
E o meu desejo que te deseja.
E essa mão singela,
Inocente e dada,
Impele-me
A reação despudorada
E tentações a acontecer.
Se ao menos me deixasses ser,
Por um bocadinho que fosse,
O teu pecado de prazer…
Nasceria outro homem
Em mim.
E esse homem, sim,
Valeria a pena viver.

jpv


1 Comentário

Parabéns a Você 

Nesta data querida
Se ganhou um menino,
Se perdeu uma vida.
Nesta data querida
Se ergueu uma esperança,
Se perdeu uma vida.
Nesta data querida
Se estendeu uma mão,
Se perdeu uma vida.
Nesta data querida,
Tantos sonhos,
Tantos desejos
E tantos amores,
Mas a vida
Estava já perdida.
Muitas felicidades
Passaram,
Como um rio,
Aos pés do menino
Em correria desabrida,
Mas a vida
Estava já perdida.
Muitos anos,
Muitos danos,
Fiada infinda
De desenganos.
Nesta data querida
Ilude-se a mente,
E a mente iludida
Deambula triste e só
Ao som do eco
Da cantiga.
Nada, já, será como foi
No tempo em que a melodia
Encantava o menino.
Estrada longa sem trilho,
Tarde quente sem sol,
Pai solitário sem filho,
Corpo quente frio,
Abandono,
Melodia surda e triste,
Longe do sopro da voz
E de tudo quanto existe.
Má sorte.
Doce morte.
Nesta data querida…

jpv