Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

A Janela

1 Comentário

[A razão principal da guerra no Iraque não foi a questão das armas de destruição maciça, mas o afastamento de Saddam, a fim de permitir a Washington “retirar as suas tropas da Arábia Saudita e abrir caminho ao controlo global do conflito no Próximo Oriente”. A afirmação é de Paul Wolfowitz, braço direito de Donald Rumsfeld e número dois do Pentágono. Herman José é constituído arguido no caso da pedofilia. Paulo Pedroso é detido no âmbito da investigação do mesmo caso. O F.C. Porto vence a Taça Uefa na final contra o Celtic de Glasgow treinado pelo incontornável José Mourinho.

Data da primeira publicação: 16 de Maio de 2003]

A Janela
Olá manita,
Estava aqui a pensar como a Língua, mais do que uma forma de apropriação e reflexo do mundo que nos circunda, é, acima de tudo, a expressão das nossas vivências, das nossas presenças, das ausências, do que fazemos e do que deixamos por fazer. Se vires bem, os tempos verbais e até os seus modos não são mais do que ilusões, passes de magia, uma vez que o importante para cada um de nós são as realizações. É a vida. Quantas vezes o verbo deveria estar no pretérito perfeito e fica no presente, quantas estaria correcto no presente e o colocamos no futuro? Quantas vezes um substantivo não assume a força e o vigor de uma acção? Estava assim entretido nestas complexas tramas do pensamento porque me lembrei que eu tenho casa, tu tens casa, mas quando dizemos “nossa casa” não nos referimos a nenhuma delas senão àquela que nos viu a infância, que nos aturou os excessos da adolescência, aquela que nos abriu uma porta para o mundo. Na realidade, não foi bem uma porta, foi mais uma janela. Aí assomei sozinho, pensativo, vezes sem conta. Vezes sem conta alegre e exuberante. Outras, triste e acabrunhado. Aí assomaste tu sozinha com o mundo às costas, aí esteve o pai fumando o mais delicioso dos seus cigarros, aí ficou a mãe a conversar com a tia do outro lado da rua. Aí estivemos aos pares e aos trios a ver sempre quem ficava no meio no jogo divertido do empurra-empurra e aí chegou a estar a família toda, toda a vida que havia para viver à janela de uma águas-furtadas na rua Figueira da Foz em Coimbra. Dali se disse adeus aos que lá em baixo, na rua, acenavam e partiam. Dali se saudaram os que chegavam da turba para o ninho. Ver partir, ver chegar, conversar, rir, chorar, nas mais diversas combinações mas sempre com a mesma base comum: a família. Nessa janela sentimos o calor do sol de Verão pela manhã e abrimo-la de par em par. Nessa janela desenhámos corações no bafo enquanto a chuva invernia tamborilava na vidraça. Foi aí que tive a primeira negativa, foi nessa janela que concluí o meu curso, foi nela que conversei com o pai as coisas sérias de ser homem, foi nessa janela que me casei. Foi nessa janela que te contei das minhas namoradas e ouvi das tuas aventuras e rimos ambos. E lembro-me muito bem de regressar a casa no que restava da longa e fugosa noite de uma Coimbra sedutora e ver luz na janela. Enchia-se-me o peito de conforto e calor, sentia-me seguro e acelerava o passo, agora mais firme. Mais do que uma janela, era um farol de emoções, uma orientação de aportar com segurança no carinho de quem nos espera. Era chegar para quem nos esperava.
Nessa janela-porta-para-o-mundo nos empurrávamos a ver quem ficava com mais espaço e vinha sempre o aviso: “cuidado com essa janela, uma queda daí é a desgraça!” Mas caímos. Tombámos dali abaixo como quem tomba da adolescência para a vida adulta, como quem tomba do sonho ser menino para a responsabilidade de ser homem. E não há como lá voltar! Não adianta tentar trepar a parede das memórias, esgadanhar pelo passado acima. É demasiado íngreme! A janela está lá, nós é que lá não podemos voltar. A família, mana, funciona assim. Parece cruel mas não é, trata-se apenas de um ritual de preparação para a criação de novas famílias, trata-se apenas de ensinar a sofrer porque sofrer é preciso, é o melhor que podemos ter, é sentirmo-nos vivos, sempre. A família ensina-nos a amar, ensina-nos a não conseguir abandoná-la para a podermos abandonar! Esta é mãe de todas as forças, o primeiro dos ensinamentos, o amor mais genuíno porque imanente do mais genuíno sacrifício. Abandonar uma família para criar outra. O Homem no seu melhor!
Com saudade,
Mano.
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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

One thought on “A Janela

  1. Tenho muito para dizer relativamente à janela, mas como ultimamente a minha janela tem estado completamente fechada para que os mosquitos não entrem e o tempo não fuja, a única coisa que de momento posso dizer é que tenho saudades de ter a janela aberta para entrar o pó, os rostos, o barulho, a conversa com o vizinho, os carros, o sol,,,,,.

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