Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Estórias ao Acaso: Noite Fria (XI)

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Noite Fria (XI)

Ela tem o corpo delgado desnudado das roupas e dos preconceitos. Está deitada olhando o seu amante reclinado sobre si. Ele está deitado de lado com uma perna encolhida fazendo um triângulo. Essa perna assenta no ventre dela. Ele tem uma mão suportando a cabeça e o cotovelo fincado no colchão. Olha-a nos olhos. A mão que tem livre acaricia-lhe, despudorada, a seda do sexo. Vai-lhe beijando as faces e os seios e o corpo todo. E está nesta dedicação de gestos e ternuras que os amantes trocam, contemplando o inimitável sorriso dela quando ouve ao fundo uma voz da outra vida:
– Vais acordar ou não? Olha que te atrasas!
Abre os olhos, sobressaltado, e exclama entre dentes ensonados: “estava a sonhar com ela!”
– Estavas o quê? A sonhar com quem?
– Nada, nada. Estava a sonhar e acordei sobressaltado. Acho que era com a minha mãe.
Mentiu. De novo, como já lhe acontecera antes, se apercebeu da proximidade daquelas vidas, da impossibilidade de ambas serem vividas num mesmo momento por um mesmo homem.

Não queria deixar arrefecer aquele milagre de amor. Ela trabalhava longe, é certo, mas este amor que lhe invade o peito e a mente não conhece essas barreiras que atropelam os outros humanos. Pôs-se ao caminho, articulou uma desculpa para não regressar cedo. Algo relacionado com o trabalho. Está de frente para o local de trabalho dela. Um imponente edifício público. Agarra no telemóvel e liga.

– Estou?
– Sim, sou eu…
– Que surpresa agradável. Tudo bem contigo?
– Tudo. desde que esteja a falar contigo, está tudo bem. Olha, vais almoçar onde?
– Sei lá, aqui perto do meu trabalho. Estou muito cansada hoje. Tem sido um dia terrível. E tu, onde estás?
– Aqui!
– Aqui? Aqui, onde?
– À porta do teu trabalho. Hoje pensei fazer-te uma surpresa… E as flores? Devias ver as flores que aqui tenho… Enfim, pensei que podíamos almoçar num local tranquilo, só os dois…
Fez-se um pequeno silêncio enquanto ela se beliscava a ver se acreditava. Foi um pouco longo, daí que ele tenha retomado:
– Sim? Ainda aí estás? Abusei? Não podes?
– Calma, calma… Estou aqui. Não abusaste. Posso e amei a tua surpresa. Acho que nem acredito que estás aí fora…


À saida do local de trabalho dela há uma escadaria imensa que tem uma vista ampla sobre a paisagem urbana circundante. Normalmente, quando acaba um turno e conquista o direito de respirar a rua, costuma ficar uns minutinhos parada, contemplando as gentes que passam lá em baixo, na rua, imaginando-lhes as vidas. Ali vai um pai de três filhos, aquela é professora e o dia correu-lhe bem, aquela vem de visitar uma tia distante, aquele acabou de fazer amor com uma senhora viúva que gosta de dizer às vizinhas, entre dentes, que ele é seu amante. E fica desfiando este rosário de vidas até que encontra coragem para ser mais uma vida entre as outras e desce a escada. Hoje, é diferente. Hoje a sua vida não é uma vida. É a vida. Hoje sabe ao que vai. Pára no alto das escadas a agradecer o banho de luz, olha o horizonte e fica vendo o homem lá em baixo que tem os crisântemos na mão. Parece um adolescente sorrindo ao futuro, crédulo de si, incrédulo da fortuna, esperando que ela surja para a confirmar.

Hoje demorou-se menos tempo no cimo da escadaria. Desceu-a correndo e saltitando até se enroscar nos braços dele. Beijaram-se longamente. Ela entregando-se totalmente ao homem que a recebe. Ele recebendo-a toda nos seus braços como um prémio de vida! Não quis saber, naquele momento, da outra vida. Não temeu ser visto. Quase o desejou, até! Tinham terminado o beijo, sentiam ainda nos lábios, os lábios um do outro quando começaram de novo a amar-se com as palavras.

– Toma, são para ti. Entrei numa florista e comprei as mais bonitas que lá havia.
– Sabes que flores são essas?
– Como assim? São flores, são coloridas, são as mais bonitas que encontrei… Porquê? As flores definem-se? Isto são mais do que flores? São mais do que o amor que te tenho?
– Não, tens razão! Não interessam para nada os rótulos que as pessoas colocam à vida desde que seja vivida no amor e na entrega que nos temos. Nem sabes como estou feliz. É uma surpresa formidável. Desejei tanto ver-te hoje e quis Deus ou o destino que isso acontecesse… Tu adivinhas-me!
– Eu completo-me contigo. E sendo tu a minha completude, eu terei de ser a tua. É natural, por isso, que conversemos para além das palavras. Que a sintonia emane do amor, mais do que das palavras!
– É tão bom ouvir-te! Poucas vezes na vida me senti tão feliz, tão mulher, tão amada…
– Sim…
– E desejada. Eu sei que me desejas. Sinto-o. Quero mergulhar-te nos olhos e dizer-te, olhando-te, que também te desejo. Anseio esse momento… combinemo-lo.

Combinaram-no. Jantariam juntos na semana seguinte e nenhum voltaria à casa onde normalmente fica e a que chama sua… Dos pormenores encarregou-se ele. Quando o dia combinado acordou, julgaram ambos que tinham renascido para a vida e declararam-se viver aquele dia como se fosse o primeiro…

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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