Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Estórias ao Acaso: Noite Fria (XX)

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Noite Fria (XX)

A noite aproxima-se rápida e fria e embora a luz do dia esteja ainda vencendo o braço de ferro com a noite, em breve sucumbirá e restará só o breu. E, para sermos mais correctos, a artificilidade luminosa da cidade com que nos vamos iludindo e fingindo que a noite não cairá jamais. Mas cai e absorve a vida e transforma-a em noite que é vida a da noite, também, mas roupada de outros gestos, de outros ritmos e rituais com outros actantes mesmo que as pessoas sejam as mesmas. Já o narrador desta estória e até um seu personagem se referiram à injustiça de termos tantas vidas passíveis de ser vividas e só podermos optar por uma. Parece-nos que o Divino poder e a criação Divina estiveram fazendo a noite para que nos outrássemos e vivessemos outros caminhos noutras personagens licitadas pela ausência de luz que mais não é que outra forma de luminosidade. Por prudência e porque consigo e à sua responsabilidade transporta valiosa e insubstitível carga, José António rodou o manípulo à direita do volante e acendeu os faróis projectando o espectro amarelecido no alcatrão. O carro não é luxuoso mas é digno. E, sobretudo, está muito bem conservado. Já não cheira a novo mas tem odores de pinhais artificiais pendurados no espelho retrovisor. O tecido dos bancos está impecável. Foi escovado meticulosamente no passado Domingo e sê-lo-á de novo amanhã pela manhãzinha. A seu lado, Maria de Fátima exibe uma saia curta por cima das meias de lã negra e espessa e veste uma camisola com uma enorme e empolada gola. Negra a Saia. Branca a camisola. Cobre tudo com um casaco comprido branco com golas fofas a exibir uma penugem dançante. Traz salto alto e uma bolsa de mão de lantejoulas a imitar o negrume da saia. Hoje é Sábado e Maria de Fátima vai sair com as amigas.

José António fez questão de a acompanhar. Não demonstrou qualquer desconfiança. Pelo contrário, foi pressuroso na forma como se ofereceu, para que estivesse ela à vontade para tomar uma bebida. Ele iria levá-la e buscá-la quando e onde entendesse. Um toque no telemóvel seria o sinal.

– Não é preciso. Nem dormes descansado. A Teresa traz-me a casa. Posso vir tarde…
– Não faz mal. Qualquer hora é uma boa hora para ver-te.

Ela está agora saindo do carro no local combinado e José António verifica aliviado que algumas amigas a esperam. Esticam-se e trocam um beijo rápido nos lábios. Ela pensa que pode estragar o baton, ele pensa que outros lábios a beijarão antes que volte a fazê-lo. Acena às amigas de Maria de Fátima e elas retribuem sorrindo e gritando alto “não te preocupes, nós tomamos conta dela!” como se houvesse alguém capaz de tal cometimento.

– Calculas a que horas te poderei vir buscar?
– Ó Zé Tó, tu e as horas. Hoje é girls night, sem horas. Sei lá, antes das duas não. Eu bem te disse que isto era desnecessário.
– Não faz mal. Desculpa-me a pergunta. Dá-me um toque quando quiseres e eu venho buscar-te.

José António deu o jantar aos miúdos, brincou com eles, viram televisão juntos, deu-lhes um leite quente e despediu-se deles com um beijo na testa quando os foi deitar. Passaram os programas de entertenimento, depois a longa metragem e adormeceu pouco depois de Antonio Banderas e Angelina Jolie terem feito amor tropical em pecado. Quando despertou eram já três e quinze. Precipitou-se para o telemóvel. Nem chamadas por atender, nem sms. Calçou-se, enfiou um casaco por cima do fato de treino e meteu-se no carro. Os despojos da noite e seus excessos marcavam presença nas ruas. Garrafas na beira do passeio. Um grupo de jovens falando alto e um deles abrindo os braços e correndo errante de olhos postos no céu negro enquanto gritava “Ó lua que vais tão alta…”. A cidade não estava desperta nem adormecida, estava regorgitando vida em copos semi-vazios e beatas pisadas com a ponta do sapato. Chegado ao local, José António não viu Maria de Fátima. Esperou um pouco e descobriu uma das amigas num grupo de gente conversando à porta de um pub. Conduziu devagar até lá. Parou. Baixou o vidro eléctrico e perguntou:
– Olá desde há bocado, viste a…
– Sim, foi com a Teresa, acho que a foi levar a tua casa. ‘Tás giro, tu…
– Obrigado! Pela informação, quero dizer…
Agora estava preocupado. Seguiu para casa. Ligou-lhe.
-“O número para o qual ligou encontra-se desligado”.

São quase cinco horas. José António está acordado na cama, enrolado nos lençóis e nos cobertores e ouve o som metálico da chave a encontrar a posição certa na fechadura. Os passos dela entram na casa e guiam-na para a cozinha primeiro, depois para o quarto onde se precipita para a casa-de-banho privada e quando se enfia na cama ouve a voz do marido:
– Não ligaste.
– Não foi preciso.
– A Teresa trouxe-te?
– Não. trouxe-me o Eduardo.
– E quem é o Eduardo?
– Um amigo. Mais um conhecido, de facto. Estive com elas primeiro e depois passei o resto da noite com ele.
– A fazer o quê?
– Com elas, a dançar.
– Não, com ele.
– Com ele, sexo!

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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