Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXXI)

2 comentários

 

Noite Fria (XXXI)

E fizeram-se as apresentações que foram rápidas por poucas serem. E uma nota houve de registo neste encontro, sólida pedra que marcará os tempos que se seguirão. Sem uma qualquer pré-determinação, sem aviso, sem combinação porque nem se conheciam até hoje e não é numa conversa de pastelaria que ficam a conhecer-se as pessoas, outros acontecimentos têm de suceder-se, foram verdadeiros um com o outro. Disseram o que pensavam, o que sentiam, expressaram opiniões sem barreiras nem receios dos juízos mútuos. Se a esta conversa quiséssemos acrescentar um adjectivo, diríamos que foi franca.

Uma outra particularidade, dessas que vimos assinalando aos humanos, nos ajudará a perceber o que desta mulher vamos saber de seguida. Não são as pessoas o que são nem o que se mostram, mas antes a ideia, imagem chamada, que delas construímos. E construímos tal imagem recolhendo pormenores de aspecto e comportamento. E quando chegamos a dizer, do alto das nossas certezas, Fulano é fulano e é assim e é assado, e é simpático e é honesto e é desonesto e é boa pessoa, não estamos falando do que ele é mas da imagem que dele construímos. Problema nenhum daqui emergia não fosse a imagem, por força da humana condição, ser parcelar, incompleta e, por isso mesmo, tantas vezes errada. E, contudo, estamos sempre construindo as imagens e reformulando-as e acrescentando camadas de cor a um quadro nunca terminado. E, por entre as palavras da conversa franca e aberta, ajudadas pela presença do interlocutor, com suas feições, seu tom de voz, sua posição na cadeira, suas roupas, seus sapatos, está ela criando o seu José António. Vê-lhe o olhar conformado e imagina-o um homem acomodado. Vê-lhe o pescoço tombado para frente, curvando as costas, e imagina-o submisso e derrotado. Vê-lhe a camisa mal passada e a gola encavalitada no casaco de sebo e imagina-o desleixado, ou, pelo menos, pouco aprumado. Vê-lhe os sapatos gastos e por engraxar e imagina-o pouco cuidadoso. Ouve-lhe o timbre pesado da voz e imagina-o pouco dinâmico e assertivo. E, contudo, ao contrário do que poderia induzir a imagem que vai construindo dele, gosta da sua companhia, sente-se confortável nesta jovem conversa e, não obstante a juventude, já tão rica e recheada. E imagina agora, não o que ele é, mas o que poderia ser. Se este homem que diz chamar-se José António, não fosse acomodado, submisso e derrotado, se não fosse desleixado e pouco cuidadoso, bem que poderia ser só uma gentil e doce figura, cortês e dedicado, simpático e atencioso. E sorriu por dentro. Para quê colocar a questão? A vida estava a ensinar-lhe que dos homens não devemos esperar nada, tinha acabado de passar um tempo de solidão e sofrimento precisamente por causa de um homem que não era o que parecia. Mas, mesmo com esta ressalva de desconfiança, continuou a conversa. Sem saber de onde vinha, sentiu-se invadir pela esperança.
Era de facto ineteressante, o cavaleiro da fraca figura.

A ideia que dele foi construindo não podia estar mais certa. Nem mais errada!
Certa, sim, pois andava José António lutando contra pilhas de loiça por lavar à espera de vontades empreendedoras que não chegavam. Andava arrastando os passos, tentando acertar-se com a reaalidade de estar só, sem família, nem guia. Andava combatendo a desarrumação de uma casa abandonada ao passar do tempo e da indiferença por não ser um lar. Vivia acomodado o seu respirar, o seu dormir e o seu acordar que a essas coisas se não pode chamar vida enquanto não têm a chama da vontade e do entusiasmo. Desprendia-se de si e despedia-se da vida a cada minuto que passava. E, este mesmo homem, fora já outro e outro poderia vir a ser ainda. Por isso anda a imagem dela errada ao mesmo tempo que certa. Errada porque a José António só lhe falta um sopro, um carinho, um amparo, uma criatura que o guie pelos passos da vida partilhada que é a única que sabe viver. E saberá ser o homem que lhe abre a porta, que lhe puxa a cadeira, que a conforta, que conversa com ela, que se interessa pelos problemas dela como se fossem seus, que lhe prepara um jantar, que lhe acende as velas, que lhe apaga a luz e que com ela faz amor, beijando-a suave antes de adormecer. Saberá… sendo para isso preciso o muito e o pouco que é ela perceber que José António não é quem ela vê mas quem ela imagina que ele pode ser, o muito e o pouco de sentir a esperança no peito e confiar nela, o muito e o pouco de soprar-lhe vida ao ouvido, de encher-lhe o peito e a alma de companhia. A esperança já ela tem, como já este autor aqui disse. Precisa só decidir-se. Estava medindo-o e medindo-se e medindo a vida que tinha e a que poderia ter e estava ouvindo este homem, conversando com ele, e estendendo-lhe a mão e estava a vida realizando-se e crescendo e estava entrando alguém na vida dela que parecia ter as portas fechadas mas abertas estavam gritando por gente. E os dias sucederam-se e com eles as conversas e anda esta mulher pasma que vai morrendo a cada novo pequeno-almoço, almoço, jantar, chá, cinema, conversa, gesto, olhar, a imagem que construíra e à medida que ela morre, nasce e cresce a imagem que imaginara, que esperara mas cuja possibilidade negara a si mesma. Agora andam de mãos dadas pelas ruas e falam de música, de livros, de teatro, das suas profissões e um dia houve em que falaram das suas vidas e dos seus passados, e das feridas, das solidões. Quem são e como vieram a sê-lo. Sempre com verdade. Sempre com simplicidade que a vida é como é e não precisa ser enfeitada de complexidades e avessos que roubam a beleza dos direitos.

E um dia houve em que não tendo falando muito o pouco que disseram bastou para se reconhecerem cúmplices. Estavam na mesma pastelaria de sempre, na mesinha mais distante da porta junto ao vidro imenso e o telefone dela tocou. Reconheceu o número. Decidiu atender ali mesmo, à frente de José António, e fizeram-lhe um convite para jantar já nesta estória narrado como narrada foi a resposta que ela deu, a forma como o recusou. E, no fim, antes que José António pudesse articular qualquer palavra, ela atalhou:
– Era um amigo da minha vida antes de ti.
José António não respondeu com palavras. Acenou afirmativamente com a cabeça, tinha um tom sério no olhar e os lábios ligeiramente contraídos. Percebeu que as palavras dela eram mais do que uma informação. Eram uma pedra tumular. E isso bastou-lhe como lhe bastou a ela tê-lo dito. Saíram de mão dada e foram para casa fazer amor pela primeira vez. Como quem sela um pacto. No caminho, enquanto olhavam em frente, e diziam banalidades dispersas e carinhosas, ela deixou escapar uma lágrima e ele fingiu que não viu e respeitou o luto dela.

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXXI)

  1. Olá companheira de armas,
    um grande abraço e um obrigado grande pela simpatia das tuas palavras. O próximo está quase pronto e já não tardará muito… talvez ainda hoje.
    João Paulo.

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  2. Meu querido amigo

    Sei que te sobra trabalho e escasseia o tempo.
    Mas como continuas a entusiasmer-me com a tua escrita…fico a aguardar, comm expectativa, o próximo capítulo.

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