Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXXII)

3 comentários

 

Noite Fria (XXXII)

Não raro temos visto, entre os humanos, causas diferentes terem resultado em consequências semelhantes. Um homem pode sentir tristeza e chorar e pode sentir alegria e chorar. Uma mulher pode estar solteira e sofrer de solidão e pode estar casada e sofrer de solidão. Um homem pode odiar e matar e pode amar e matar. Uma mulher pode estar insatisfeita com o seu casamento e envolver-se com outro homem e pode estar satisfeita com o seu casamento e envolver-se com outro homem. Vem esta ilustração justificar a desarrumação que se mantém em casa de José António. O mesmo caos. Bem, quase o mesmo. Andava ele perdido e solitário e desamparado e a morrer a vida e tinha a casa na mais caótica confusão como aqui foi bastamente mostrado. E agora que ama e é amado, que tem uma companheira e uma amiga, uma guia e uma orientação, mantém-se o caos e o abandono. Sendo este último termo o mais apropriado pois é o que à letra e mais ajustadamente se passa. A verdade é que as duas almas perdidas e abandonadas, desejosas de se encontrarem noutro, nem que fosse para apontar-lhe os defeitos, que é muitas vezes esse o segredo das relações que duram e perduram, o dizer-se o que se pensa, o comunicar-se, nem que seja o menos bom, decidiram abandonar as suas casas de habitação e ter um espaço comum. Não lhe chamam ainda lar porque seria precipitado, mas vivem a secreta esperança de que possa transformar-se nisso os sofás, a televisão, as cadeiras, as camas, os candeeiros, as mesas-de-cabeceira e todos os pequenos objectos que acompanham o recente casal.

Estão deitados, os corpos nus cobertos pela roupa de cama, olhando o tecto como se fosse o céu. Trocam carícias faladas e banalidades como se fossem as coisas mais importantes do mundo. E talvez sejam. E em meio deste deleite que é o prazer de ver passar o tempo depois da entrega dos corpos suados e das almas uníssonas, sentem a presença, o calor de outro corpo que chegou ali voluntariamente e generoso se entregou e humilde recebeu. Estiveram fazendo amor e agora conversam e cabe-lhe a ela a palavra que é uma observação mas bem podia ser uma pergunta.

– Fazes sempre amor, nunca sexo…
– Não sei fazer sexo. Quer dizer, nem sei bem se sei ou não. Sei que só conheço esta entrega e esta dádiva…
– Nunca te apeteceu pensar só em ti?
– Acho que não sei…
– Não sabes se te apeteceu?
– Não sei fazer sexo.
– Isso resolve-se!
Ditas as palavras, ela saltou para o ventre dele, baixou-se sobre ele, esticou o dedo indicador e fê-lo deslizar pela testa dele, sobre o nariz e, por fim, muito devagar sobre os lábios. Baixou-se um pouco mais e sussurrou-lhe ao ouvido:
– Não faças nada. Não quero que faças nada. Agora, vais só receber.
E revelou um repertório de carícias que o surpreendeu. Salpicou-lhe a face e o pescoço com beijos pequeninos. Incendiou-lhe o peito com a ponta húmida da língua e percorreu-lhe todo o tronco traçando uma linha contínua de prazer entre o peito e o ventre. Segurou-lhe o sexo erecto e acariciou-o com os lábios quentes e humedecidos de prazer. José António colou as costas à cama, abriu os braços e cerrou nas mãos o lençol arrepanhado. Ela faz, agora, o percurso inverso e vem beijá-lo nos lábios, encaixa-se nele, e balança-se nele, sentada no prazer que dá e recebe. Nestes momentos, nestes rituais, nestes gestos que toldam a vista e o discernimento, há coisas que se fazem e depois se não sabe como fizeram. Ela está de gatas e José António vê-se numa situação única, penetrando uma mulher por trás, voluntariamente dando o que voluntariamente é recebido. E trocam-se palavras impronunciáveis a não ser nestas horas e nestas acções. E olha-lhe as nádegas alvas e sente uma ordem e cumpre-a e as nádegas já não estão alvas que encarnadas ficaram dos castigos que ela lhe pedia e ele lhe dava, primeiro a medo, depois, deixando-se levar pela libertação da mente e do corpo. E quando acabaram, José António descobrira-se um homem diferente, nem sonhava que era possível trocar aqueles gestos, quanto mais fazê-los. Tinha no peito um sentimento ambíguo de transgressão e prazer e a mente rebentava-lhe de perguntas e coisas para dizer e o que disse fê-lo sorrir mais tarde, pareceu-lhe ridículo, engraçado, mas na altura foi o que lhe saiu:
– Sabes, acho que fui virgem até hoje!
Ela riu e fez-lhe cócegas e abraçaram-se rebolando na cama e rindo. Depois quis testá-lo e disse com um timbre de voz esperto e malandro a que adicionou um ar falsamente preocupado:
– Amor, lembrei-me de uma coisa…
– Sim…
– Não usámos protecção!
José António gelou. No entusiasmo do momento esquecera-se, de facto, desse detalhe. E perguntou:
– Achas que?…
– Naaa… ‘tava a brincar contigo. Era preciso muita pontaria!
E riram os dois e beijaram-se e entregaram-se de novo. Desta vez fizeram amor com protecção. O amor foi bom. A protecção tardia.

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

3 thoughts on “Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXXII)

  1. Olá prof…
    Quando fazemos amor ficamos envoltos numa névoa que nos tolda os sentidos, no entanto temos sempre de ter presente “a parte prática” do amor, ou seja a protecção. Temos de ser responsáveis e conscientes independentemente da situação que estamos a viver`, porque a vida é feita de momentos mas não é um só momento 🙂
    Pelo menos esta é a minha opnião:)
    Ainda não me esqueci que tenho os textos para mandar, desculpa esta minha falha…
    Beijokas para ti, para a Paula e para o “pequenino” Iago*

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  2. Olá Antónia… Gosto de ver-te por aqui. Explica lá essa da parte prática do amor… pleeeaaasee… João Paulo

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  3. Momentos inebriantes que nos fazem esquecer a parte prática do amor:)

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