Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXXIII)

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Noite Fria (XXXIII)

A casa de José António continua desarrumada. Não porque ele não a arrume. Só porque já lá não vai. Anda desarrumando em conjunto e uníssono outros espaços. José António e esta mulher que ama andam acertando os corações e as almas e vivem a harmonia desarrumada da vida que acontece. E onde havia cuecas de homem pelo chão, peúgas penduradas das costas de uma cadeira, sapatos de luva abandonados debaixo de uma cama e calças de ganga atiradas à espera infinita, há agora cuecas de homem e cuecas de mulher, peúgas e collants, sapatos de luva e sapatos de salto alto, calças de ganga e saias plissadas. Mas é uma desarrumação diferente. Onde estava o definhar de um homem entregue ao deserto da solidão e de uma mulher perdida na desesperança, está um casal partilhando alegrias e alegrias e alegrias e tristezas que partilhadas ficam mais alegres umas e menos tristes as outras. E há pequeno-almoço a dois, e põe ele um avental e cozinha mimos e carinhos que traz para a mesa, e dividem-se tarefas e por vezes surpreendemo-la na mesa da cozinha com um lápis atrás da orelha, uma calculadora e os impressos do IRS a dois. Ou a um mais um que vai dar ao mesmo sendo ela que os preenche a ambos.

Ela está grávida. De resto fomos nós testemunhas do momento em que José António perdia outras virgindades e por via disso se esqueceu da protecção. E curiosamente foi esta criança muito desejada. Vem isto ao caso das humanas particularidades que vimos assinalando. Uma delas é a facilidade com que confundimos projectar com desejar. É bem verdade que ela não quis dizer-lhe, por temer assustá-lo com a ideia, por julgar prematuro, as frases que lhe andaram queimando a boca, Vem ser meu, vem amar-me com a ternura que só tu tens e deixa-me essa ternura no ventre para que a devolva eu ao mundo em forma de vida e gente, vem amar-me e ser pai comigo sendo mãe que estou pronta. E este homem que teme a solidão e ama a vida andava com a mente em caminhos próximos e pensou mas não quis dizer-lhe Sim vou ser teu e a ti me entregarei e farei contigo o único amor que conheço e de que sou capaz e serás tu mãe enquanto eu pai porque pronta te sinto. Nem tão pouco em uníssono disseram Vamos fazer um milagre e ter uma criança e, contudo, esta criança não foi menos desejada do que uma outra qualquer que antes de ser concebida já tinha ido ao médico perguntar se podia ser vida. A luz vem a ser luz e as trevas vêm a ser trevas quando a Natureza entende e como o entende sem precisar de explicar-nos nada nem de prestar-nos quaisquer contas. A Natureza acontece quando tem de acontecer e faz quando tem de fazer e em sendo preciso enfeitiça-nos de desejo e ensina-nos o calor da entrega e esquece-nos a protecção e finta-nos a racionalidade dos planos e a prudência dos gestos.

O Povo, na sua sabedoria de provérbios e aforismos atirados ao vento, formulados em conselhos, jogados à cara de incautos infractores, também se engana. E anda dizendo e espalhando aos sete sóis de Portugal que Não há luar como o de Janeiro, nem amor como o primeiro e para José António não há luar mais precioso que esta barriga enorme e redonda como uma lua cheia que ela anda carregando com as mãos nos lombos das costas como que empurrando o mundo todo que traz consigo, nem tão pouco é este o seu amor primeiro como já aqui foi amplamente explicado. E, mesmo não sendo o primeiro, não é menor que não há milagre maior que é uma pessoa querer amar e encontrar quem queira por si ser amado. A felicidade é como a infelicidade, diferentes na essência, semelhantes nos efeitos, ambas roubam a clarividência das gentes afectadas. José António está hoje regressando a casa com sorriso largo que quase lhe apaga o traço melancólico do rosto. E assobia, dá pequenos saltinhos enquanto caminha depressa para o seu ninho ditoso, e agora faz uma festa na cabeça de um pequenote que vai de mão dada com a mãe e entra em casa, beija-a nos lábios, um beijo fresco e jovial e mesmo antes dela lhe poder dizer Boa tarde meu amor, que bom que chegaste, vens feliz, amo-te muito e mesmo antes de ele lhe responder Vim depressa porque vinha para ti, porque vinha para vós porque o nosso filho não se vê ainda mas já cá está, já nos altera os ritmos, ajoelhou-se de frente para a barriga dela, levantou a blusa e beijou-lhe a lua cheia, cumprimentou o filho e falou com ele como se lhe estivesse respondendo e uma altura houve em que fez um silêncio para encostar o ouvido à barriga como quem escuta algo profundo, a vida a crescer, talvez, e olhou para cima com os olhos a brilhar das lágrimas da alegria e olhou-a nos olhos e aos olhos dela veio o mesmo brilho líquido e fez uma festa na cabeça de José António deixando ficar a mão na sua nuca como quem lhe segura a posição e grava o olhar e o momento para nunca mais esquecer-se do que é o amor e ouve as primeiras palavras que ele diz:
– Vamos casar?
– Oh, meu amor! Meu querido José António! Não estamos casados já? Não é o casamento uma união sagrada por isso chamada sacramento? E não é esta nossa vida um milagre sagrado? Meu amor, quando eu estou doente és tu quem me traz o chá quente e reconfortante e estando doente tu sou eu quem te leva a canja retemperadora, tomamos banho na mesma banheira e limpamo-nos às mesmas toalhas, e em perdendo eu a escova de dentes que depois encontro junto ao micro-ondas é a tua que uso porque comigo a partilhas, e à noite quando vamos dormir e eu digo Boa noite meu querido, é a ti que o digo e quando tu me respondes Boa noite meu amor é a mim que amor chamas, e quando o desejo nos inflama as vontades e os gestos é a ti que me dou e és tu quem entra em mim e em mim entrega o seu ser, e és tu quem maravilhosamente me ensina a fazer amor-amor e sou eu quem te ensina a fazer amor-sexo. E há neste viver uma verdade. Tens tu uma confiança inteira que é a minha e tenho eu uma inteira confiança que é a tua. E o mais certo é que este nosso casamento existe porque assim o fazemos e não há nenhum papel por ti assinado e assinado por mim que nos garanta mais ou melhor do que temos.
– Tens razão!
José António trazia consigo uma felicidade tal que não permitiria que, o que quer que fosse, com ela interferisse. Muito menos uma qualquer discussão ou divergência em torno de nada. De resto, nunca fora homem de grandes argumentações. Era, isso sim, de grandes confianças. Confiaria, portanto.

Está José António aprendendo outros limites para os seus gestos, para as suas palavras e anda libertando a alma e o corpo e dá, dá e entrega-se, total, inteiro, primeiro com pudor e agora também sem ele. E está esta mulher recebendo e dando de volta, e tem certezas e seguranças e sabe que pisa chão firme ao lado deste homem que a ama e por si é amado. Há na vida deles a linha ténue do equilíbrio, sempre tão difícil de achar, tão arredada das gentes, e há a harmonia das vontades, dos gestos e dos gostos. E há prazer nas cedências. José António já trabalha de novo num escritório e mais do que nunca é um homem dedicado e diligente. Sabe ajudá-la no que ela precisa, sabe rir com ela e com ela partilhar tristezas e apreensões. Continuou sempre a puxar-lhe a cadeira para que se sentasse e a abrir-lhe a porta para que passasse. Lembra-se das horas dos comprimidos quando ela precisa de os tomar, vagueia pelas prateleiras dos supermercados, opina sobre roupas e ajuda-a a comprar sapatos e adora fazer-lhe uma salada à noite. E conversa. Fala-lhe e ouve-a de facto como se estivesse mostrando-lhe que sabe o segredo de amar uma mulher: ouvi-la e fazer eco do que ouviu nas suas acções. E há nos dias que passam um tom de tranquilidade a pintar as manhãs e um ar de comunhão salpicando as noites. Ela sente essa entrega e dá-se a vida o quanto pode e como pode como se quisesse compensá-lo por aquele milagre de dar recebendo que é uma honra receber genuinamente de quem genuinamente dá. Os seus dias têm rotinas e sabe o que pode esperar deles. Não há na sua vida novidade nem paixão nem arrebatamento mas não os trocaria por este fluir ditoso dos sóis e das luas. Duvida. Duvida muitas vezes. É assaltada pelo se. Se lhe tivesse telefonado. Se tivesse aceitado o jantar sem que este homem que a ama também soubesse. Se fosse jantar com o outro e visse e ouvisse o que dele viria. E sempre que duvida sacode a cabeleira farta, faz um som esquisito com a boca, como quem afasta um presságio, e lembra-se de José António fazendo amor consigo. E volta às suas certezas. Certa, sempre, de que nunca se arrependerá de ter entrado na pastelaria naquela manhã, nunca se arrependerá de ter-lhe oferecido a cadeira para sentar-se e de tê-lo deixado entrar na sua vida.

Um destes dias fluía e aconteceu o que tanta vez acontece, como até já nas páginas desta estória aconteceu, que é as personagens serem interrompidas nos seus afazeres e nos seus pensamentos por telefones que tocam. Tocou o dela e ela afastou-se um bocadinho. Voltou triste. Uma tristeza funda e cava a marcar-lhe a face. Não trazia lágrimas. Só uma humidade contida no olhar.
– Morreu um amigo meu.

José António ofereceu-se para a levar ao funeral quando fosse a altura. Temeu por ela. Pelo seu estado e quis ajudar. No percurso, por entre as ruas e pelos caminhos a percorrer, não se pronunciou um som. Ela porque não quis e ele porque não quis querer. Respeitou-lhe o silêncio que era luto. Quando chegaram ela não lhe pediu que fosse e José António não se ofereceu. Intuiu que era assunto de antes de si. Agora, assim, drasticamente encerrado. E ficou a vê-la ir de preto e barriga protuberante. Fosse quem fosse aquele amigo que agora partia do mundo dos vivos que vão morrendo para o mundo dos vivos que já morreram, tinha sido importante para ela. E viu que ela ficou até depois do fim. Só saiu do cemitério já todos os outros haviam saído do horizonte esquadrinhado das ruas. Vinha acompanhada por uma mulher chorosa, vestida de preto, também. Despediram-se sem se falar. Fingiram beijos encostando a cara e viraram-se costas. Quando ela chegou ao carro, José António esticou-se do banco do condutor, onde estava, atravessou todo o carro com o braço estendido e abriu-lhe a porta por dentro. Ela entrou. Não falou. Ficou olhando o regaço onde tinha as mãos. José António não quis perguntar-lhe nada mas abriu-lhe uma oportunidade para que falasse se quisesse e sem perguntar deixou suspenso no ar um comentário pronunciado com respeito e interesse:
– Gostavas muito deste teu amigo…
– Muito! Mesmo muito. Posso mesmo dizer que foi mais do que um amigo.

E, num instante, num momento breve e fugaz, ela arrependeu-se de tudo o que não vivera, das perguntas que não fizera, dos telefonemas que evitara, das palavras que silenciara. E percebeu que nunca saberia. Nunca viveria. O assunto estava definitivamente encerrado por drástica decisão dele. E conformou-se. Resignou-se. E chorou. E encontrou naquelas lágrimas o seu luto. E fez de novo silêncio. José António percebeu que o silêncio voltara e respeitou-o de novo. Sentiu que ela estava chorando uma perda e deixou-a chorar. Seriam aquelas lágrimas a pedra tumular que faltava àquele assunto. E por aqui se percebe a importância dos silêncios, tão necessários a uma vida partilhada como as palavras ditas. As palavras rasgam os espaços, mostram, evidenciam, gritam. O silêncio apodera-se dos espaços, comunica pela ausência do que se não diz por não ser necessário. Quando chegaram a casa, olharam em volta para a desarrumação sem tristeza e viram que, afinal, já tinham um lar.

A vida é uma imensa trama de estórias ao acaso que vivemos julgando controlar. O que fazemos, quando fazemos, como fazemos, com quem fazemos. Planeamos, executamos, ansiamos, desejamos, trazemos, levamos, decidimos e no desenrolar das narrativas que vivemos e vemos viver experimentamos a ilusão de controlo. Mas, como as personagens de uma estória ao acaso, basta que o Autor altere uma vírgula, acrescente um ponto, inclua um episódio, adicione um evento, provoque um encontro ou um desencontro, mate uma personagem ou faça nascer outra e toda a trama se altera e todas as relações e interacções ganham novas perspectivas e dimensões. E quando uma personagem numa estória ao acaso, como na vida, se cruza com outra não é com ela que se está cruzando mas com todo o universo de experiências, vivências, relações e circunstâncias que a outra transporta consigo. E as consequências tornam-se incomensuráveis e inimagináveis pois infinitas são as tramas possíveis que nos esperam a cada esquina da existência. E é a vida como uma noite fria que vivemos encolhendo os ombros, soprando o bafo nas mãos e estendendo o olhar à nossa volta à procura de uma alma que com a nossa se cruze e com ela se aqueça. E se essa alma trouxer uma vontade e um corpo que ao nosso se junte, um milagre completo se estará fazendo na noite fria que é a vida.

Não se apresse a tirar conclusões, leitor atento. Não feche já a janela das possibilidades porque esta estória ainda não acabou. Falta conhecer Margarida!

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

4 thoughts on “Estórias ao Acaso: Noite Fria (XXXIII)

  1. Obrigado António. Apesar das minhas “mágoas”, as palavras dos leitores, sobretudo via mail, têm sido animadoras e acho que já estou a esquecer o incidente… Um abraço. Videira.

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  2. Gosto desta escrita sóbria. Ao teu texto perdido aconteceu o que na vida acontece: o que interessa é o que existe e não o que poderia ter existido. E o que existe é um bom texto. Se o “outro” era melhor ou pior é questão sem semtido.
    A. Avelãs

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  3. Como vês uma estória perdeu-se neste mundo da blogosfera, mas outra surgiu com a vida renovada. Ainda bem que a tua persistência deu à luz um novo texto acompanhado de uma vida nova. A Margarida fruto do amor das e pelas palavras está aí para nos acompanhar em mais uma estória.

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  4. Este capítulo foi reescrito entre as 24h. do dia 13 de Janeiro e as 4:47h do dia 14. Foi uma tentativa de recuperar, a partir dos apontamentos e da memória, a sua primeira versão que um acidente e a informática me fizeram perder. Espero ter estado à altura do primeiro. Nunca saberei. E espero, sobretudo, ter estado à altura de todos os leitores e de todos aqueles que me ajudaram a tentar recuperar o texto perdido. Também agradeço aos que, entretanto, me incentivaram a escrever de novo esquecendo o desaire, superando o desespero. Por fim, espero ter estado à altura da estória que só termina no próximo capítulo. É muito bom ter amigos. É maravilhoso escrever para eles. Um abraço profundamente grato. João Paulo Videira.

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