Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

De Negro Vestida – XX

5 comentários

 

Solidão – I

Há neste centro comercial um barulho de luzes que atrai e cansa. Há um bailado de cores que seduz, enreda e chama. Passam pessoas em trajes apressados de trabalho e passeiam pessoas em trajes exibicionistas de passerelle. Umas levam a chave do carro na mão ou a carteira com o passe dos transportes públicos. Outras levam sacos marcados com o timbre dos vendedores. E desliza no ar luminoso do espaço amplo um cheiro adocicado a crepes com gelado de baunilha, a pipocas de cinema, a batatas fritas em pacotinhos de papel a acompanhar hambúrgueres que são os mesmos aqui, em Madrid, em Paris, ou em Moscovo. E há uma música de fundo que ninguém ouve mas de que todos sentem falta quando se cala. E há escadas rolantes que levam e trazem os viajantes de sonhar que param juntos às montras olhando o que não podem comprar ou entram nas lojas comprando o que não podem comprar deixando para mais tarde as preocupações de tais excessos. E correm crianças em aventuras de visitar lojas de brinquedos e vêm, depois, agarrar-se às pernas dos pais olhando como quem pede ou simplesmente pedindo. E divertem-se em carrosséis de interior a troco de uma moeda em máquinas pintadas com cavalos ou carros ou motos que dão três voltas, acendem luzes e no fim dizem obrigado em espanhol.

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O Romance “De Negro Vestida” foi publicado, capítulo a capítulo, neste blogue, entre 26 de janeiro de 2010 e 22 de abril de 2011.

Agora que conhecerá outros voos, nomeadamente, a publicação em livro, deixamos aqui um excerto de cada capítulo e convidamos todos os amigos e leitores a adquirirem o livro.

Obrigado pela vossa dedicação.

Setembro de 2013

João Paulo Videira

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

5 thoughts on “De Negro Vestida – XX

  1. Muito Obrigado pela simpatia das suas palavras, Fernanda. Efectivamente foi minha aluna muitos anos mais tarde do que o Paulo mas é mais velha do que ele embora a palavra velha não se lhe possa aplicar. Nunca os relacionei até agora porque não têm nada a ver um com o outro excepto isto que agora despertaram na minha mente: têm ambos uma extraordinária sensibilidade. E escrevem muito bem.

    Quanto ao narrador que entra na estória e conversa com a personagem: foi uma tentação a que não resisti…

    Um abraço,
    João Paulo Videira

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  2. Encontrei, no final deste capítulo, duas situações bem interessantes…
    Começando pela ultima,é muito agradável constatar que existem pessoas que, embora tenham conhecido o professor João Paulo em fases da vida bem diferentes da minha, partilham comigo a mesma admiração por ele e pela sua maneira de se exprimir.

    Outra situação que me despertou particular atenção foi o momento em que o narrador entra na estória, cruzando-se com Mª de Lurdes e se assume como contador de estórias. Não as cria, não as inventa… apenas as conta! Porque afinal estas estórias existem dentro ou fora das nossas vidas… mas existem de facto!
    Nos nossos medos, nos nossos sonhos ou anseios… basta que exista a sensibilidade para as constatar.
    No olhar, ou não fossem os olhos o espelho da alma, nas palavras ou na ausência delas, no que se diz ou se quer dizer… tudo são pistas para alguém que observa as pessoas mais por dentro do que por fora.

    Gostei particularmente deste capítulo! Parece que veio mudar o rumo da Mª de Lurdes.

    Um grande beijo.
    Fernanda

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  3. Amigo professor João Paulo,

    Obrigado pelas suas palavras.
    Fico a aguardar com expectativa a possibilidade de ler o seu texto. Entretanto vou deixando-me envolver pelas palavras “De Negro Vestida”

    Grande abraço
    Paulo Henriques

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  4. Paulo, como sabes, lembro-me muito bem de ti. A vida já nos cruzou depois de termos sido aluno e professor. E, como sabes também, existiu sempre entre nós a sintonia de nos maravilharmos ambos pelas estórias escritas, contadas, enfim, pelo maravilhoso mundo da imaginação e dos princípios que ela pode veicular.

    Isto tudo para dizer que tenho uma grata e simpática memória de um rapaz de 16 anos que agora tem 29… nem quero acreditar que o tempo passa assim. O Paulo Henriques franzino e de olhar faminto de vida e aventura tem quase 30 anos!!!

    Meu amigo, lembro-me das duas estórias mas tiveram caminhos diferentes. A primeira a que te referes foi escrita muito antes de conhecer-te, foi dactilografada e impressa e encadernada pelo que resistiu ao passar do tempo. Tenho-a comigo e terei todo o prazer em colocá-la neste blogue.
    A outra, das meninas Célia e Ailec, foi escrita de propósito para a tua turma e nunca passou de manuscrito a texto dactilografado pelo que temo se tenha perdido para sempre. A menos que eu encontrasse o manuscrito no meio dos milhares de papéis que guardo em casa comigo para aqui passarem o tempo…

    Assim, de repente, vou conseguir satisfazer-te metade da vontade!

    Foi um prazer e uma alegria ter-te por aqui. Um abraço eterno. Teu “stôr” e sempre amigo, João Paulo Videira.

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  5. Olá professor.
    Descobri agora o seu blog através do facebook. E descobri também que o poder da escrita pode ser brutal…
    Este pequeno texto que acabo de ler proporcionou-me uma viagem no tempo. Recuei aproximadamente 13 anos. Tenho agora 16 anos e estou na aula de português.
    O “stor” partilha com os seus alunos dois textos de sua autoria. Um deles fala sobre um menino que nasceu à dois mil anos em Jerusalém e de outro menino que tem uma madeixa no cabelo. Apesar de boa pessoa, este último vai perder-se nas vicissitudes da vida, mas ficará tal como o primeiro menino, para sempre na história. Morre na cruz ao lado de Jesus Cristo, mas não sem antes, saber que o seu lugar no céu está guardado.
    O outro texto é sobre duas meninas que, apesar de morarem em países diferentes, tem algo em comum. Os seus nomes são Célia e Ailec.
    Novamente de regresso ao presente, sinto o grande poder da escrita e o efeito que ela pode ter nas nossa memórias. O seu texto abanou a minha mente e despertou nela recordações adormecidas à mais de uma década! Fiquei realmente impressionado.
    Foi o seu estilo de escrita, a associação inconsciente, a admiração que guardei por si? Não sei. Apenas sei que foi muito bom. Obrigado.
    Virei aqui mais vezes.

    Nota: Gostaria muito de alimentar a recordação que agora despertou. Ainda guarda as histórias? Estão publicadas em algum sítio?

    Até à próxima
    Paulo Henriques

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Este é um blogue de fruição do texto. De partilha. De crítica construtiva. Nessa linha tudo será aceite. A má disposição e a predisposição para destruir, por favor, deixe do lado de fora da porta.

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