Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Curtas do Metro – O Balde

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O Balde

Ao longo da plataforma que dá acesso às carruagens e já à beira dela, há uma enorme linha amarela que marca a distância de segurança. Enquanto esperam, as pessoas não devem ultrapassar essa linha.

Normalmente, as pessoas esperam em aglomerados distanciados uns dos outros por alguns metros. Colocam-se onde prevêem que vai parar a porta que lhes interessa. O interesse, no caso do Metro, é diferente do do comboio. Não tem a ver com caras familiares nem rotinas, tem a ver com a proximidade dessa porta em relação à saída na estação de destino. Por exemplo, na estação de Baixa-Chiado, quem entrar e viajar nas últimas carruagens, ao sair no Cais do Sodré, fica mais próximo das escadas e dos controladores de saída, logo, não leva com filas.

Um dia destes, precisamente em Baixa-Chiado, estava um enorme balde branco opaco com uma tampa verde em cima da linha amarela. Aparentemente só, sem ninguém próximo ou a reclamar a sua pertença. As pessoas desviavam-se dele passavam de largo e olhavam umas para as outras a ver se pertencia a alguém mas todas pareciam negar a posse. E foi-se gerando um ambiente de desconfiança. Nas nossas cabeças, entre outras, iam algumas perguntas. De quem era o balde? O que tinha lá dentro? O que estava ali a fazer?
Gerou-se um círculo de gente à volta do balde mas à distância porque toda a gente se foi afastando. E ali estava, sozinho, no vazio, aquilo que fora em tempos um balde de tinta, agora com suspeitoso conteúdo e suspeitosa função.

Quando o Metro chegou, nem de propósito, uma porta parou de frente para o balde. Quem saiu, olhou desconfiado, desviou-se e foi à sua vida. Alguns olharam para trás. Nesse momento, surge do longo banco de pedra ao correr da plataforma uma senhora anafada que trazia na pele as cores e os calores de África, aproximou-se do balde junto à porta deserta, pegou-lhe, olhou para trás, encarou a multidão curiosa e desconfiada e, antes de mergulhar na carruagem, disse em sotaque tropical com ar de gozo, à laia de “já enganei mais um”:
– É peixe!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

Este é um blogue de fruição do texto. De partilha. De crítica construtiva. Nessa linha tudo será aceite. A má disposição e a predisposição para destruir, por favor, deixe do lado de fora da porta.

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