Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Curtas do Metro – Perdida

6 comentários

Perdida

Esta “Curta” esteve para chamar-se “Capuchinho Vermelho”. Acontece que a pessoa sobre quem vou escrever, sendo absolutamente igual e invocativa do Capuchinho Vermelho, não tem nada de Capuchinho Vermelho. Eu sei, parece confuso. Mas não é. O Capuchinho Vermelho era uma jovem com um vestidinho, um capuchinho vermelho, um andar saltitante, uma cestinha na mão e um ar inocente e perdido.

A pessoa que encontrei, de Capuchinho Vermelho, só tinha o ar inocente e perdido que, a avaliar pela invocação que logo se formou na minha cabeça, devem ser os aspectos mais importantes daquela personagem. Vejamos. Tinha os olhos azuis e cintilantes, uma tez muito alva, vestia um vestidinho cor-de-rosa com folhos pelo joelho e os mesmo folhos por cima do peito onde o vestido terminava pois era, como dizem as senhoras, um “cai-cai”. Não tinha uma capa com capuz, mas um casaquinho branco de malha. Usava umas pérolas singelas nas orelhas. O seu andar saltitante não era porque fosse aos saltinhos, mas porque tinha umas sandálias muito altas que lhe davam um caminhar desequilibrado. E transportava, de facto, algo na mão, mas não era uma cestinha para levar à avozinha. Era uma mala preta com rodinhas dessas que se arrojam pelo chão. Ou seja, o meu Capuchinho Vermelho tinha tudo para o ser e tudo lhe faltava para que o fosse. Contudo, tinha o essencial. Um olhar admirado e perdido e um ar cândido e inocente.

Claro que, assim que a vi na estação de Baixa/Chiado, quis escrever sobre ela, mas, durante toda a viagem até Santa Apolónia, ela não me deu nenhuma razão para que o fizesse e, como os leitores sabem, as “Curtas do Metro” são histórias, não são meras descrições. E foi então que toda a minha sorte, o meu positivismo e a minha protecção divina funcionaram. Aconteceu algo de absolutamente extraordinário. O Metro parou em Santa Apolónia e como se trata de uma estação terminal toda a gente sai. Sai porque não há mais e sai porque é obrigatório sair do comboio nas estações terminais. Mas ela ficou sentada como que a tentar perceber porque é que todos saíam, depois ficou olhando o desenho das linhas como que à procura de uma resposta. E não saía. Eu percebi que ia haver coisa e atrasei um bocadinho o passo. Ela lá se resolveu a sair. Foi a última. E cá fora continuou a olhar para cima e para as paredes com ar inocente e perdido. Quase não andava. Eu esperei e perguntei:
– Precisa de ajuda?
– Sim, por favor. Estamos onde?
– Em Santa Apolónia.
– Mas isto não é a linha azul?
– É.
E a frase que disse a seguir justificou este texto. Foi fantasticamente reveladora. Ela era mesmo o Capuchinho Vermelho! Sabem o que disse? Disse-me para onde queria ir:
– Ah! Eu queria ir para o Jardim Zoológico.
Eu ainda lhe respondi:
– Pois. É na linha azul, mas na outra ponta da linha!
Saquei do mapa do Metro e mostrei-lhe que ela tinha de andar sete paragens na direcção oposta.

Ela agradeceu e desapareceu dentro da carruagem com a cestinha, o andar incerto, o ar cândido e inocente e o olhar perdido a caminho do Lobo Mau! Ou não!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

6 thoughts on “Curtas do Metro – Perdida

  1. Emoções ao rubro em “Mails para a minha Irmã”. Ter o Capuchinho Vermelho já era bom, mas os amigos e a MÃE!!! Fantástico!! Não tem de quê, Mãe do Capuchinho, foi com muito prazer que ajudei o que de resto num país civilizado e solidário é normalíssimo. Acontece que o Capuchinho, a sua Estrelinha tem mesmo de ser espcial… ela parecia saída de um conto de fadas!!! Voltem sempre. João Paulo.

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  2. Estou a ler o texto e as lágrimas correm-me pela cara…o capuchinho vermelho é meu, a minha filha, mais conhecida pela Estrelinha:-) Doce como o mel, sonhadora, e motivo de todo o orgulho que uma Mãe pode ter ! Obrigada João Paulo pela sensibilidade de perceber que o meu capuchinho estava perdido!!
    Já agora, visite o blog dela: ” Mel vinho e um charuto”
    ***

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  3. Augusta, eu não conheço o carácter dela, mas não me custa nada acreditar em si. Ela parece mesmo um docinho de pessoa. Voltem sempre. João Paulo Videira.

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  4. Capuchinho, ainda bem que veio. Seja bem-vinda. Vê-la foi, de facto, inspirador. Desejo-lhe tudo de bom na vida, inclusive que encontre o seu lobo mau. E não se preocupe que seja mau. Primeiro os lobos bons são mais enfadonhos, segundo, as mulheres, mesmo os Capuchinhos Vermelhos, sabem converter qualquer lobo em bom!!! Uma saudação amiga. João Paulo Videira

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  5. Realmente, a menina de quem acabou de falar é um amor de menina. Sou uma felizarda em a ter como minha amiga e a conhecer desde pequena.
    Obrigada pelas sua palavras
    Augusta Fernandes

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  6. Adorei o texto!
    Logo que pude vim espreitar, com a curiosidade em saber se realmente tinha escrito algo.
    Obrigada

    Capuchinho vermelho (Mónica)

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