Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Motorcycle Chronicles – Harley’s Yard

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Harley’s Yard

Esta história é sobre a democracia. Não o conceito. Nem será uma história acerca dos sistemas de governação. Será, só, sobre a democracia em exercício que mais não é do que a humanidade que nos atravessa a todos.

James Major Philips, também conhecido por Jimmy Philips e, ainda, em circunstâncias que apreciaremos mais adiante, por Snake, é um homem que está para além de rico. É poderoso. Quer isto dizer que a sua fortuna já não se mede pela quantia de dinheiro que conseguiu juntar, mas pela quantidade que consegue fazer circular com um telefonema, uma reunião, um negócio, uma fusão. Acorda cedo, veste um fato de seda, faz o nó da gravata, toma um pequeno-almoço frugal, beija a mulher nos lábios e sai para o trabalho. O senhor Philips não tem filhos. Precisa, mas não tem. Um dia tratará desse assunto. Ainda na limusina, atende telefonemas, faz telefonemas, consulta sites na Internet sobre finança e alguns jornais, vende uma fábrica, coloca não se sabe quantas famílias na miséria, mas abre outra e dá emprego a uns milhares de almas perdidas na geografia das nossas passadas. Na sala oval do grupo de empresas, reúne o Conselho de Administração e quando abre o período de votações, após aceso debate, o senhor Philips já sabe o que vai acontecer. Já sabe quem vai votar o quê e como. Sabe, mesmo, quem vai reclamar e deixar-se convencer.

Dois domingos em cada mês, Jimmy Philips transfigura-se. Deixa cair as roupas de seda, veste gangas e cabedais, calça botas da tropa, coloca uns anéis largos, um brinco numa orelha, um lenço, um capacete e sai, sozinho, numa das motos mais caras e rápidas que o dinheiro pode comprar. Vai para a autoestrada e dá tudo o que tem para dar, a velocidade de cruzeiro são os 200km/h. Daí em diante começa a verdadeira aventura. A que envolve risco. Mas faz mais do que isso. Sai da autoestrada e na nacional aproxima-se dos camiões a 150 km/h., faz duas reduções, retoma a aceleração e ultrapassa-os com o cabedal do blusão a rasar a estrutura do camião. Por vezes, faz a ultrapassagem com um carro ou outro camião de frente, sente a adrenalina a subir e passa entre os dois. Completada a manobra olha para trás como que a ver onde poderia ter ficado a sua vida. Quando chega a um bar sombrio chamado Harley’s Yard, tira o blusão e fica com uma camisola preta colada ao corpo, pede uma caneca de cerveja e ao arregaçar as mangas para beber mais à vontade, exibe uma tatuagem fabulosa de uma serpente cuspindo fogo no seu braço. É por essa razão que, nesse meio, o conhecem por Snake. Ninguém desconfia, sequer, que há um Jimmy Philips. Snake fala alto, não é contido, dá palmadas nas costas dos outros motards, joga snooker e três vezes por ano participa em concentrações motards dormindo no chão de tendas mal fechadas ouvindo heavy metal, e assistindo aos tão famosos quanto desejados concursos de Miss T-Shirt Molhada. Nem Jimmy pertence ao mundo de Snake, nem Snake sobreviveria a uma reunião com o Conselho de Administração. Acontece que vida nenhuma, porque essa é a condição da própria vida, é completamente estanque. Não podemos calcular a amplitude das nossas ações e não podemos saber sempre com quem nos vamos cruzar. Snake é discreto, mas não se esconde. Limita-se a evitar que o relacionem com o senhor Philips.

Há vários anos, contudo, que entre Jimmy Philips e Snake existe um ponto de ligação. Chama-se Edward e limpa as janelas do edifício onde o senhor Philips preside ao Conselho de Administração. Edward é um rapaz de pele escura, esguio e trabalhador. Vive para a moto. Tem uma boa moto. Fruto de anos de poupanças e costuma rolar ao fim-de-semana na zona do Harley’s Yard. Já mais do que uma vez identificara o patrão em aventuras arriscadas de alta velocidade. Tem um fascínio de morte pela moto dele. Numa segunda-feira, quando o senhor Philips entrou no seu gabinete no 33º andar, Edward ainda estava por ali. Ia a sair. Olhou-o nos olhos e disse, Olá! O senhor Philips não lhe respondeu, deixou-o o sair e depois mandou-o chamar, fechou-se com ele no escritório e, considerando-o um perigo para o seu anonimato de riscos, decidiu mantê-lo por perto para melhor o controlar:
– Tu não me diriges a palavra, percebeste? Nunca! Tu não me conheces e não sabes nada de mim. A pessoa que eu sou lá fora não tem nada a ver com o homem cá dentro. Sabes o que me custa pôr-te na rua? Nada! Um telefonema e já eras. Se queres manter o teu miserável emprego, não me conheces!
Edward não respondeu. Não havia nada a fazer. Só acatar. Quando o encontrava na estrada, mantinha-se ao lado dele. A sua forma de mostrar-lhe lealdade, de retribuir-lhe o emprego, era estar atento aos seus movimentos. Quem sabe o que poderia acontecer?

O que poderia acontecer, aconteceu. A adrenalina torna-se viciante e o risco, a sensação de desafiar a morte, cola-se a nós como uma segunda pele. Iam cinco, colados uns aos outros, revezando-se na frente. Snake é o segundo da fila neste momento, Edward o terceiro. Deslizam numa reta da nacional a 180km/h., pretendem passar os cinco por um carro pesado antes da curva à direita que acompanha a ravina, solta-se uma peça da moto da frente, atinge Snake no peito, este desequilibra-se quando já ia tombado para a direita a entrar na curva, com o camião há muito para trás de si, cai e desliza com o cabedal pelo chão por mais de 50 metros, sai da estrada e encaminha-se para o precipício. Edward conseguiu ficar na moto, equilibrou-se, reduziu bruscamente, travou, acelerou de novo e ultrapassou o corpo de Snake pela sua direita enquanto este deslizava. Edward atira a moto para a frente, projeta-se para o chão e desliza sobre a sua barriga. Junto ao precipício, estanca o próprio corpo com os pés numas rochas e quando o corpo inanimado de Snake se aproxima, ele impede a queda fatal e segura-o, as rochas cedem, Edward escorrega mas não chega a cair, está preso ao corpo de Snake. Ficou com um braço preso debaixo dele e sangra abundantemente. A fivela do cinto de Snake golpeou-o fundo. Outros motards vieram em socorro. Edward evitou que chamassem ajuda médica, alegou que estava tudo bem, tinha sido maior o susto, era apenas um arranhão. Quando Snake acordou, perguntou-lhe se queria ir ao hospital, ele disse que não. Foram para o Harley’s Yard e beberam uns Jack Daniels. Snake sentou-se num velho sofá de pele a um canto sombrio do bar enquanto lhe contavam o que tinha acontecido e faziam uma ligadura no braço de Edward, Isto devia ser cosido, pá. Nem penses! No meio dos relatos e das opiniões diversas sobre o sucedido, alguém disse uma frase que Snake não poderia esquecer nunca, vestisse a roupa que vestisse:
– Deves-lhe a vida, meu!

Os anos foram passando, os passeios de moto a cada dois domingos mantiveram-se regulares, a presença de Snake nas concentrações continuou a ser testemunhada pelos companheiros de risco. Do incidente ficou só uma leve memória por vezes invocada à volta de uma mesa cheia de canecas vazias. Edward cobriu a cicatriz no braço com roupas. Essa, seria a sua recordação íntima dos acontecimentos. Nunca mencionou o episódio, nem com os companheiros do Harley’s Yard, nem, muito menos, no local de trabalho.

A crise financeira assola o país, as manifestações, os protestos e as greves multiplicam-se. As falências são muitas em todos os setores. Os industriais e os comerciantes veem-se forçados a cortar nas despesas, há fusões, lay-off, despedimentos em massa e a razão invocada é quase sempre a mesma. Extinção do posto de trabalho. O senhor Philips enfrenta uma onda de protestos. Prepara-se para encerrar e vender a capital nipónico uma unidade de montagem de veículos automóveis que será desmantelada e reativada noutro país. Os jornais especulam acerca dos motivos e do processo uma vez que a unidade sempre apresentara lucros. O senhor Philips recebeu diversas propostas para que o negócio não se realizasse. Nunca aceitou. Exerceram-se pressões e influências políticas e financeiras para que travasse o processo. Nunca cedeu. Havia quem contasse, sem jurar, que ele dissera no final de uma reunião do Conselho de Administração que quando uma venda envolvia tantos zeros à direita, havia que ser pragmático.

O dia amanheceu chuvoso. Não uma chuva aberta e forte, mas aquela água pequenina e certeira que nos vai empapando com o tempo. Philips está na sala oval sozinho. Lá fora, milhares de trabalhadores perfilam-se à porta do edifício com cartazes na mão e palavras de ordem. Quase toda a família de Edward está ali. O pai, a mãe, o irmão mais velho. Só a irmã mais nova trabalha noutro local. Quis vir por solidariedade, mas resolveu não faltar. É muita, a pressão. Philips pediu mais uns momentos sozinho. Por vezes fazia isto, entregava-se aos seus pensamentos e à estratégia para a reunião. Era uma forma de encontrar-se consigo e com os seus objetivos. Nesse dia Edward entrou na sala, não disse uma palavra, foi limpando. O senhor Philips viu-o, esteve quase para o mandar sair, mas conteve-se. Quando estava já perto do senhor Philips, Edward levantou os braços para limpar mais alto, as mangas descaíram um pouco para trás deixando a cicatriz visível. Edward olhou-a. Depois olhou o senhor Philips. No seu olhar não havia um pedido de clemência, não havia um pedido de um favor, pelo contrário, emanava certa altivez, algo que parecia dizer-lhe, É a tua vez!

As negociações duraram três dias. Quando o quarto dia amanheceu, os jornais anunciavam que o grupo empresarial de Philips mantinha a linha de montagem automóvel em funcionamento. Falavam também de incentivos fiscais concedidos pelo Governo da Nação. Nem Snake, nem Edward chegaram a ver o jornal. Saíram para a rua antes dos primeiros raios de sol. Circulam lado a lado na autoestrada a 220km/h., uma patrulha da polícia aproxima-se de carro, liga as sirenes e as luzes intermitentes, os dois homens olham-se nos olhos através dos capacetes, sorriem, mantêm-se lado a lado, aceleram a fundo e desaparecem no horizonte.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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