Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

O Clã do Comboio – Scalabis Impromptu

6 comentários

Scalabis Impromptu

A manhã estava perfeita. suficientemente fria para sugerir a necessidade de nos acolhermos estando juntos, esfregando as mãos à frente do bafo soprado e, ao mesmo tempo, de um sol cristalino a iluminar a paisagem ampla da lezíria.

No último jantar do Clã, a Rapariga com Brinco de Pérola mostrou vontade de conhecer Santarém e isso foi o que bastou para se combinar o passeio. Incluiria almoço, claro está e está claro seria organizado pelos escalabitanos do Clã.

Encontrámo-nos no Mirador do Liceu com a esplendorosa lezíria atravessada pela prata do Tejo serpenteando a paisagem. Aí se juntaram o VM que fora buscar à estação de caminho-de-ferro a Rapariga do Riso Fácil, O Rapaz do Fato Cinzento e a Rapariga com Brinco de Pérola que trouxe seu gentil e meigo filhote. A Senhora da Revista de Culinária e sua belíssima filhota, o Escritor e sua mulher. Olhares esperançosos num dia feliz, palavras a acordar a manhã, as primeiras fotos, folhas secas jogadas ao ar a arriscar uma fotografia diferente, algumas graçolas, sobretudo o VM contando suas aventuras da juventude, tempos saudosos de quando as traquinices e a irreverência faziam parte do nosso quotidiano.

Visitámos depois a Igreja de Santa Clara onde o VM chamou poço a uma cisterna com correcção imediata e limpa da Mulher do Escritor e onde o nosso anfitrião queria, por força, que a rosácea estivesse do lado oposto àquele em que efetivamente estava. Risos e mais fotos, algumas de fino recorte artístico… E marchámos para o Convento de São Francisco e seus claustros onde discutimos doutamente a proveniência da pedra… muita ciência! E rumámos ao Mercado Municipal onde apreciámos os azulejos e cujo característico interior visitámos. Seguiu-se a Igreja da Piedade e depois a Igreja do Seminário onde a Senhora da Revista de Culinária tirou fotos a uma senhora pequenina e rechonchuda, de saia curta, que andava empoleirada no altar! Para o limpar, bem entendido! As conversas sucediam-se e o clima começava a animar até que chegou o momento de visitar o monumento escalabitano preferido do nosso amigo VM: a Pastelaria Bijou. Cafés, chás, águas, sumos e os famosos pampilhos. De facto, dos melhores que já provei, macios e fresquíssimos. Quisemos partilhar a despesa mas o VM insistiu pelo menos UMA vez que fazia questão e nós agradecemos o gesto. Pequeno-almoço à pato, portanto.

Pudemos ainda visitar a Igreja da São João do Alporão e subir à Torre das Cabaças onde, para além do esplêndido mecanismo do relógio, se pode observar toda a cidade e uma ampla paisagem ribatejana.

Nas Portas do Sol, as crianças correram, o sol voltou a banhar-nos a vista e a alma e a provocar-nos a imaginação. A Rapariga do Riso Fácil subiu às ameias onde a fotografei com a Senhora da Revista de Culinária numa pose cúmplice e feliz e, finalmente, juntou-se a nós o JJ que nos surpreendeu com todo o conhecimento que tem da cidade. Ele conhece cada recanto, sabe a sua história e conta-a com raro entusiasmo. A cidade de Santarém fica mais bonita pela mão do JJ. Foi ele que nos levou à Porta da Cidade, a única que pode observar-se nos dias de hoje.

As almas estavam entusiasmadas e os corpos cansados quando chegámos à Taberna do Quinzena para almoçar. Começámos por volta das 13h e estivemos almoçando durante quase quatro horas. O importante não foi o que se comeu, foi o clima divertido e jocoso de quem aprecia estar à volta de uma mesa partilhando uma refeição e, mais do que isso, a companhia e a conversa. Juntaram-se a nós a Mulher do VM, o RB e a Mulher do RB e também a Mulher do JJ. Espetada de lulas, naco de novilho, lombinhos de porco e outras iguarias regadas com vinho da pipa num fantástico e típico ambiente no coração do Ribatejo. O senhor que nos serviu percebeu o clima e também ele contribuiu para o bom ambiente que ali se viveu. A determinada altura, ele o Rapaz do Fato Cinzento deram uma palmada na mão um do outro, umfive, para comemorar uma qualquer sintonia. O Escritor atacou, Ó chefe, isso é um bocado abichanado. E ele respondeu sem papas na língua, Sim, irmão! Gargalhada geral. Um dos momentos altos da tarde foi quando o Rapaz do Fato Cinzento nos falou de certos sabonetes com odor a amêndoa, a chocolate, a morango, que têm a particularidade de se derreterem em contacto com a pele por efeito do calor desta. Estava ele a dizer que também os havia com odor a chocolate de leite quando o VM o interrompeu, Para que é preciso o lei… e já não disse mais nada porque a Mulher do VM virou-se para ele e com o olhar muito vivo disse, Cala-te que isto interessa-me! E eu acrescento, Já sabes VM, estamos a chegar ao Natal… É então que a Rapariga do Riso Fácil saca de uma latinha de vaselina com cheiro a baunilha e diz, Não sei para que é preciso tanta coisa, a vaselina também serve. O VM quis tirar o assunto a limpo e besuntou os lábios com a vaselina da Rapariga do Riso Fácil. Ficou escorregadio. Depois queria comer as lulas e elas escapavam-lhe… Não sei a que propósito (!!!), ouvimos aqui uma bizarra narrativa que envolvia preservativos fluorescentes em forma de Asterix! Delicioso! Iniciou-se, por fim, uma épica sessão de brindes. Trouxeram um cesto com garrafinhas de bebidas espirituosas, aguardente, licor de poejo, licor de café e ginginha. Que eu tivesse reparado, mas não é de fiar, esgotou-se o poejo e o licor de café sendo que as outras ficaram muito arrombadas. Juntamente com as garrafas vieram uns copinhos pequeninos que se bebiam de uma vez só. Brindámos ao Clã e a cada um dos elementos do Clã e aos familiares dos elementos do Clã e à Taberna do Quinzena e quando já não havia mais ninguém, começámos a brindar às pessoas das outras mesas que se levantavam e vinham brindar connosco. Ainda me lembro do VM ter perguntado à sua mulher, De qual é que queres? E ela respondeu prontamente, Tanto faz, já me sabem todos ao mesmo! Vi a Rapariga com Brinco de Pérola rir desalmadamente e vi a Senhora da Revista de Culinária ir às lágrimas. O JJ tentou manter a compostura, mas foi do lado dele que morreu a primeira garrafinha. Paz à sua alma!

O RB estava muito sossegado. E nós a estranhar. Vai daí, a Mulher do RB teve de sair. Acho que foi para um workshop. Foi então que, vá-se lá saber porquê, ele se libertou e nos explicou tudo acerca dabiga dominicanae docialis. Em espanhol da Argentina! Ele até sabe a posologia!

Enfim, quando Clã saiu da Taberna do Quinzena, o ar frio da tarde foi bem recebido, as almas iam lavadas pelo riso, a companhia fora fantástica e haviam-se vivido momentos de memorável partilha e boa disposição. Como sempre.

Ainda houve tempo para se visitar a Igreja de São Nicolau, a Igreja do Milagre e a fantástica Igreja da Graça onde conhecemos a dona Antónia Lança que recitou um poema que ela própria escreveu entre as paredes da igreja e nos contou histórias do seu avô alentejano. O Rapaz do Fato Cinzento arriscou, Nós temos um blogue, mas se calhar não tem Internet. E a dona Antónia Lança arrumou a questão do alto da sua juventude de sessenta e muitos, Não tenho? Claro que tenho. E eu podia lá viver sem o e-mail e o Facebook?! Fui verificar e tem mesmo página no FB. Bem interessante, de resto. Mora aqui.

Fizemos várias fotos de grupo e uma delas, em homenagem ao JJ, foi tirada à porta da loja da Bimby!

Todos ficámos a conhecer melhor Santarém, a Capital do Gótico, que tem pouca coisa de estilo Manuelino. É só rua sim, rua sim!

O Clã é assim como umimpromptu: improvisado, mas harmonioso. Construímos a nossa própria sinfonia de estar. Cada um dá só aquilo que é e assim é aceite pelos outros. Sempre em inclusão, sempre em acréscimo ao todo que somos, improvisado e harmonioso. E a amizade vicia. Provoca habituação. Nos dias que se seguiram à nossa aventura, claro que a recordámos com prazer, mas começámos de imediato a planear a próxima…

jpv

Anúncios

Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

6 thoughts on “O Clã do Comboio – Scalabis Impromptu

  1. Ao jovem do fato cinzento

    É espantoso que apesar de nos vermos gregos com a vida, conseguimos mesmo assim verdadeiros milagres. Os Clãs do Comboio difícilmente passam despercebidos senti à distância a sua alegria não dispensam um bom almoço, um bom copo de vinho e boa disposição. Para ser franca não cheguei a saber qual deles era o JJ, RB, a Senhora da revista de culinária, a senhora do riso fácil fixei apenas o Clã number 1 e o senhor de Fato Cinzento que diga-se de passagem é um borrachinho mas descansado que não lhe vou dar música não tenho jeito para cantorias. Vou terminar desejo-lhes tudo de bom e matenham a luz do vosso comboio bem acesa para escuridão basta a crise. Um abraço
    Antónia Lança

    Gostar

  2. Caro Américo, aceita desde já toda a minha solidariedade. Por acaso eu acho que chegaste a viajar connosco num dos dias em que se estava a combinar o almoço, mas isso não serve de desculpa. A culpa, como sabes, é do VM, esse desleixado, porque foi ele o organizador do evento. Ele, o JJ e a Senhora da Revista de Culinária porque, como sabes, são escalabitanos. Vai daí, tens de lhes dar nas orelhas. A finalizar duas notas. Primeira: és e sempre serás um muito querido membro do Clã do Comboio. Segunda: estás oficialmente convidado para o próximo passeio/almoço do Clã que será em Tomar a 11 de Fevereiro de 2012. Encontramo-nos às 9:30h junto à estação. Como vês, a malta do norte do dostrito é mais organizada… hahaha… Abraço grande. escritor.

    Gostar

  3. Não vou propriamente citar Fernando Pessoa, mas a pessoa que há em mim ficou muito triste, de não a terem convidado, ou pelo menos lembrado dessa tão animada confraternização, ainda mais na sua cidade, não natal, mas a sua cidade. Continuo a sentir-me um membro do clã, lembrem-se disso para a próxima.
    Américo

    Gostar

  4. Os membros do clã estreitaram os seus laços. A coesão é cada vez mais notória. A Igreja da Graça é única porque nela existe a Sra. D. Antónia Lança.
    Abraço,
    Rapaz Fato Cinzento

    «Os Amigos

    Os amigos amei
    despido de ternura
    fatigada;
    uns iam, outros vinham,
    a nenhum perguntava
    porque partia,
    porque ficava;
    era pouco o que tinha,
    pouco o que dava,
    mas também só queria
    partilhar
    a sede de alegria —
    por mais amarga.

    Eugénio de Andrade, in “Coração do Dia”»

    Gostar

  5. Parabéns Setor! Não há frio que resista ao calor da sua boa disposição. Tive o grato prazer de o conhecer nos meus 61 anos. Li o seu blog. Vou continuar a fazê-lo porque me cativou. Pude ver que escreve coisas que que lhe dão gozo o deliciam. Que o seu comboio apite por Portugal fora e que o seu clã se fortaleça cada vez mais . Um abraço. Maria Antónia Lança.

    Gostar

  6. “Um dia a maioria de nós irá separar-se.
    Sentiremos saudades de todas as conversas atiradas fora,
    das descobertas que fizemos, dos sonhos que tivemos,
    dos tantos risos e momentos que partilhámos.

    Saudades até dos momentos de lágrimas, da angústia, das
    vésperas dos fins-de-semana, dos finais de ano, enfim…
    do companheirismo vivido.

    Sempre pensei que as amizades continuassem para sempre.

    Hoje já não tenho tanta certeza disso.

    Em breve cada um vai para seu lado, seja
    pelo destino ou por algum
    desentendimento, segue a sua vida.

    Talvez continuemos a encontrar-nos, quem sabe… nas cartas
    que trocaremos.

    Podemos falar ao telefone e dizer algumas tolices…
    Aí, os dias vão passar, meses… anos… até este contacto
    se tornar cada vez mais raro.

    Vamo-nos perder no tempo…

    Um dia os nossos filhos verão as nossas fotografias e
    perguntarão:
    Quem são aquelas pessoas?

    Diremos… que eram nossos amigos e… isso vai doer tanto!

    – Foram meus amigos, foi com eles que vivi tantos bons
    anos da minha vida!

    A saudade vai apertar bem dentro do peito.
    Vai dar vontade de ligar, ouvir aquelas vozes novamente…

    Quando o nosso grupo estiver incompleto…
    reunir-nos-emos para um último adeus a um amigo.

    E, entre lágrimas, abraçar-nos-emos.
    Então, faremos promessas de nos encontrarmos mais vezes
    daquele dia em diante.

    Por fim, cada um vai para o seu lado para continuar a viver a
    sua vida isolada do passado.

    E perder-nos-emos no tempo…

    Por isso, fica aqui um pedido deste humilde amigo: não
    deixes que a vida
    passe em branco, e que pequenas adversidades sejam a causa de
    grandes tempestades…

    Eu poderia suportar, embora não sem dor, que tivessem
    morrido todos os meus amores, mas enlouqueceria se morressem
    todos os meus amigos!”

    “O valor das coisas não está no tempo em que elas duram, mas na intensidade com que acontecem.

    Por isso existem momentos inesquecíveis,

    coisas inexplicáveis e pessoas incomparáveis”

    Fernando Pessoa

    PS: Obrigada pelo dia!!!!!

    Gostar

Este é um blogue de fruição do texto. De partilha. De crítica construtiva. Nessa linha tudo será aceite. A má disposição e a predisposição para destruir, por favor, deixe do lado de fora da porta.

Preencha os seus detalhes abaixo ou clique num ícone para iniciar sessão:

Logótipo da WordPress.com

Está a comentar usando a sua conta WordPress.com Terminar Sessão / Alterar )

Imagem do Twitter

Está a comentar usando a sua conta Twitter Terminar Sessão / Alterar )

Facebook photo

Está a comentar usando a sua conta Facebook Terminar Sessão / Alterar )

Google+ photo

Está a comentar usando a sua conta Google+ Terminar Sessão / Alterar )

Connecting to %s