Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Motorcycle Chronicles – The Promise In Her Eyes

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The Promise In Her Eyes

Esta história tem poucos ingredientes. Uma estrada sombria, um homem de meia-idade, uma mulher de aspeto oriental e uma moto ronronante chamada Lucy, a única personagem que terá nome nesta narrativa. E também tem pouco que contar esta história. Acontece que é privilégio dos contadores de histórias contarem-nas grandes e pequenas, como aconteceram ou inventadas. Contá-la-emos breve e tal como aconteceu.

É um homem de meia-idade. Tem o cabelo encaracolado e grisalho, a barba semeada de negro por todo o rosto, uma serpente tatuada no pescoço e veste sempre de preto. Vive num barracão exíguo que outrora serviu para guardar dois cavalos e agora lhe emprestaram a troco de uns biscates de manutenção na herdade. É amplo. São 16m2 sem divisões, exceto um retângulo ao fundo separado do resto do espaço por um cortinado onde se alivia das inevitáveis e fisiológicas urgências. Um lava-loiças que faz de lavatório também, uma cama, Lucy aos pés dela, uma pequena mesa redonda e as quatro paredes quase integralmente cobertas por estantes com livros. Tem duas paixões, o homem de meia-idade. Os livros e Lucy.

Trabalha de noite. Todas as noites. Em quinze anos, nunca falhou uma noite. Feriados e fins-de-semana incluídos. Pega à uma da manhã. Despega às oito. Sem intervalo. Vem para casa, dorme, lê, come pouco e passeia com Lucy. Depois volta a pegar.

A mulher de aspeto oriental chegou com promessas de vidas faustosas e luxos inimagináveis numa casa espaçosa e confortável e a única coisa que encontrou foi um engano para o estômago, um quarto de 3m2 com casa-de-banho partilhada por trinta e dois inquilinos, uma estrada sombria onde espera todas as noites, uma carrinha que a vem buscar para ir com mais oito pessoas e uma noite de trabalho. Todas as noites. Há três anos que espera, que vai, que vem, que adia tudo por que veio. É baixa, a cintura larga e as pernas roliças. Tem os olhos rasgados e o cabelo liso por cima dos ombros. Sapatos rasos, saia preta pelo joelho, uma camisola e um casaco de lã. E espera.

A estrada que o homem de meia-idade percorre todas as noites tem a sua própria vida e as suas próprias marcas. Curvas mais largas e outras mais apertadas. Os mesmos buracos de sempre, sempre nos mesmos locais, de que ele se desvia sempre da mesma forma. Um dia destes surpreendeu-se a pensar que os buracos lhe faziam companhia. São trinta e sete quilómetros e quarenta minutos de um bailado a três, a estrada, ele e Lucy.

Um pouco depois de meio do percurso, a estrada estreita e sombria estende-se numa reta noturna de dois quilómetros. A meio dela há uma velha paragem de autocarro, em chapa, onde já não param autocarros. A seu lado, um candeeiro de iluminação pública que passa as noites a iluminar a estrada deserta e a paragem abandonada.

Quando o homem de meia-idade entra na reta, tem na sua frente uma estrada ladeada de árvores antigas, o breu da noite cortado pela luz amarelecida projetando sombras na paragem. Ao aproximar-se dela, abranda  para passar os restos daquilo que em tempos foi uma lomba de desaceleração. O ritual repetia-se sempre igual até que há três anos surgiu, sob a paragem, abrigando-se do tempo, uma mulher de aspeto oriental. Ele passa, olha-a. Ela olha-o de volta. E nunca, nada mais do que isto aconteceu. Um olhar breve trocado na noite amarelecida.

As noites foram frescas e floridas de dia e depois tornaram-se quentes e trigueiras e depois ventosas e folhadas e por fim peladas e frias. As roupas acompanharam estes ciclos que se repetiram por três vezes. Nada. Nunca nada mais do que aquele olhar. De promessas. Diversas foram as vezes em que o homem de meia-idade se imaginou a parar e a dizer qualquer coisa à mulher de aspeto oriental. Um aceno, primeiro. Um cumprimento, depois. Um convite, por fim. Nunca atreveu. Ficou-se sempre pela suspensão perante a promessa no olhar dela.

É dia 24 de Dezembro. Paira no ar um aroma de esperança e um ritmo tilintado de sinos e chocalhos com canções prometendo harmonia. Há perú e bacalhau nas mesas, rabanadas e sonhos, crianças abrindo sorrisos no aconchego de lumes crepitantes. O homem de meia-idade sai de casa. Inicia o seu percurso, chega à reta que se abre no seu horizonte, o frio intenso envolve a paisagem. Abranda junto à lomba que foi. Conduz a moto para junto dela, para, olha-a nos olhos, ela olha-o de volta. Ficam assim longos instantes até que ele olha em frente. Ela dá dois passos, aproxima-se, senta-se na moto e abraça-se à cintura dele. Ele retoma o ronronar de Lucy e desaparecem no breu da noite. A vida mudara!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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