Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

O Ofício da Memória – Ela

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O Ofício da Memória – Ela

I
Às vezes esquece-se das coisas. Das chaves. Do lume aceso, da consulta, de comprar comer para o gato. E às vezes faz as coisas, mas esquece-se que as fez. Nada disso a incomoda, já. Nem mesmo ter deixado de conduzir. Habituou-se a outros transportes, sem preocupações e mais confortáveis. Sobretudo, sem responsabilidades. Usa o expresso, o comboio e organiza saídas em que uma amiga menos esquecida assuma a condução. Também já se esqueceu de sair do comboio onde queria e foi ter a outro destino. Decidiu querer outra coisa. Já não deixa que a vida a torture. Já não. Todos estes esquecimentos estão diagnosticados e têm nome. São diversos, os nomes, normalmente, estrangeiros, compridos, impronunciáveis e é por isso que resolveu chamar-lhes a todos da mesma forma: os meus convenientes esquecimentos. Há, contudo, algo que a incomoda. Profundamente. Até à raiva de um pontapé numa porta, de uma mão cerrada no tampo da mesa da cozinha. Tem perdido memórias. Tem-se esquecido de coisas de que queria lembrar-se. Sabe que aconteceram, sabe até com quem, mas esfumam-se os pormenores. Ora, a vida são sobretudo as memórias que temos do que vivemos. As suas memórias são o seu tesouro privado, a razão por que vale a pena suportar o peso da velhice. Isto desespera-a. Recentemente quis revisitar uma das mais preciosas memórias, um dos tesouros mais bem guardados de uma vida preenchida. E não conseguiu. É por isso que está aqui hoje. Para o recuperar. Tudo tem remédio e nem sempre precisa ser um medicamento. Deus queira que ele apareça. É peça fundamental no puzzle de lembrar-se.

II
O sol já não é um astro fulgurante e amarelo por cima das nossas cabeças. Agora é uma enorme bola de fogo de contornos entre-cortados por nuvens breves no horizonte e espraia a sua cor laranja no mar, na areia, na fachada do hotel e na esplanada por cima do último andar. Sempre gostou de Buarcos. Daquele hotel e daquela esplanada, em particular, onde pode sentir-se como o Criador observando a maravilha da sua obra. Está sentada, contemplando a paisagem. Em cima da mesa uma água com gás e uma rodela de limão. Mais do que bebê-la, gosta da conversa das bolhinhas sussurrando frescura. Está só e tem ao seu lado uma cadeira vazia esperando pelo oficial da memória. Sem ilusões. Sabe bem que é uma senhora com a respeitável idade de setenta e sete anos. A pele marcada pelas rugas fundas desenhando o tempo em torno do olhar e o cabelo ralo e fraco quando não está armado e penteado pelo cabeleireiro como agora. Os braços finos e flácidos, as pernas fracas. Onde outrora estivera um pujante e vigoroso púbis, agora habitam uns pelos brancos e outros cinzentos pouco acompanhados. A inexorabilidade do tempo passado está visível em todo o seu corpo, contudo, o coração frágil e cansado, hoje, parece querer sobressaltar-se. Deixa-te de coisas, menino, nem tu, nem eu, temos idade para essas aventuras. É uma mulher de estatura mediana, corpo generoso e largo, de formas circulares e, se perdeu alguma generosidade e as formas se deterioraram, não foi só pela passagem do tempo. Viveu bem. E isso tem o seu preço. Enverga um vestidinho leve, encarnado, um casaquinho de malha por cima. Um chapéu de aba larga na mesma cor, sapatos rasos e confortáveis, óculos de sol enormes e pouca maquilhagem. Não quer mentiras de espécie alguma.

III
Está sozinha. Mas não é só na esplanada que está sozinha. É na vida. Sempre esteve. Primeiro casou. Durou pouco tempo. Depressa se apercebeu que a sua vida era sua, que a sua liberdade não tinha preço, que o seu espaço era seu. Sempre esteve só. E não se arrepende de nada. Só do que não pôde ou não conseguiu viver. Por vezes, aflora-a a mágoa de não ter tido filhos, uma família, alguém para quem voltar ao fim do dia, planear fins-de-semana, férias, fazer partilhas, cristalizar a existência. Mas não é possível ter-se duas vidas e o homem com quem se casou rapidamente a convenceu de que não era aquele o seu caminho. Solitária, sim. Até à dor. Até à solidão. Mas não arrependida. Isso nunca. Soube sempre que viveu consigo, para si. Soube sempre as vantagens dessa condição e o preço a pagar por ela. Teve uma vida boa, acha. Tem a certeza. Nada a incomoda. Exceto as memórias que não vêm!

IV
Quando olha para si tem sentimentos mistos que quase a confundem. Gosta do que vê e não gosta do que vê. Vê uma mulher de setenta e sete anos que não é bela, mas tem uma figura escorreita e interessante, vê um maravilhoso caminho percorrido numa vida plena de aventuras e conquistas e perdas também. E vê traços da mulher que não é. E esses magoam-na como lâminas espetadas na consciência. Gosta de si e do que é. Não gosta de já não ser o que foi. Esse homem que espera e que, se não mentiu, vem ao seu encontro, cairia a seus pés há vinte anos. Hoje, nem sabe como dirigir-se-lhe. E não gosta de perder memórias. É como se morresse por dentro, como se a sua vida se apagasse minuto a minuto, pormenor a pormenor. Sabe que está desgastada, mas até disso gosta e, mais importante de tudo, gosta de si… fará charme!

V
Enquanto olha o mar fingindo que chega à terra e o sol espelhando-se nele, lembra-se das amigas. Das mais chegadas, confidentes. Das amigas de paródia, das amigas de jantares, de cinemas, de festas e de uma ou outra de aventuras mais íntimas, de partilhas menos dizíveis. E lembra-se que algumas já morreram. Umas por misericórdia do Criador ou a sorte de não ver prolongada uma existência sem sentido. Outras de prematura tristeza e sofrimento. Lembra-se das inúmeras vezes que celebraram aniversários umas das outras, das vezes que combinaram as saídas, dos pontos de encontro, das expectativas em relação aos rapazes, dos namorados, das que se afastaram, das que se afastaram e voltaram. Lembra-se de rirem juntas, de chorarem juntas, de jurarem segredos que acabavam revelando umas às outras. Às vezes esquece-se de uma delas e a sua vida fica incompleta. E exaspera. E depois, sem aviso, volta-lhe à memória, preenche-lhe o espaço vazio e sente-se tranquila de novo. As amigas deram-lhe tudo. Deu-lhes tudo de volta. Nunca ocuparam o lugar dos homens. Tiveram o seu próprio e hoje sabe que as coisas ficaram bem assim.

VI
Os amigos foram uma história diferente. Muito poucos. Muito sólidos os muito poucos. Confianças profundas, partilhas inimagináveis. A visão pragmática da vida. E houve os que nunca chegaram a ser amigos. E houve os que foram mais do que amigos. Os primeiros foram amantes vigorosos e fugazes. Homens de a satisfazer com a intensidade e a efemeridade do fogo num pau de fósforo. Incandescente, incendiário e momentâneo. Os segundos cozeram amores em lume brando, fizeram propostas, quiseram algo mais, mas optaram eles e ela por não desperdiçar a diversidade da vida na exclusividade do amor. E andaram tenteando o destino, mas não mergulharam nele. E teve, por isso, companheiros de paixões feitas amor tornado, depois, amizade. Cumplicidades íntimas. Sorri ao pensar que não pode dizer-se que a sua cama tenha sido uma via pública, mas não pode dizer-se, também, que tenha alguma vez arrefecido. Só quando a idade e o corpo arrefeceram, só então pensou que, sempre que regressou sozinha de um encontro, de um jantar, de uma festa, de umas férias, e meteu a chave à porta orfã de uma casa vazia, só então pensou que tudo poderia ter sido diferente. Há muito que deixou de sofrer com isso. Habituou-se. À situação. E a si. Gosta de coabitar consigo. Entende-se bem.

VII
Ele foi diferente. Um vigor inimaginável. Uma avidez e uma entrega ímpares. Um aprendiz sôfrego do seu corpo e das artes do amor. Era suposto ter sido uma incandescência forte e efémera. E foi porque nunca mais o viu. E não foi porque ficou sempre ardendo no seu peito. De tempos a tempos revelando-se necessidade. Sobressaltando-lhe as emoções. O seu mais precioso tesouro. A memória mais grata. Uma surpresa. Uma erupção inesperada da alma e do corpo. Uma aventura de pés descalços na praia noturna, de corpos suados e exaustos e persistentes. Queria tanto lembrar-se dos pormenores! Está curiosa em relação a ele. Como estará fisicamente, na vida, no trabalho, terá família? Ainda não chegou, não sabe sequer se virá, mas, se vier, será de novo uma surpresa. E, quem sabe, um banho de juventude. Aquele inesquecível jovem mudou-a para sempre e nem sabe. Foi a sua fonte de juventude. Na altura rejuvenesceu para ele, com ele. E a sua vida reencontrou a luz que andara perdida. Está curiosa, sim. Quase ansiosa. Emerge na tarde projetando uma sombra masculina na esplanada um homem de meia idade. Se não o esperasse, não o reconheceria. Seria só mais um estranho. Esperando-o, reconhece-lhe o olhar, o sorriso e a forma elegante como se balança ao andar. É ele, sem dúvida. O seu oficial da memória não faltou. Afinal, ainda se pode ser feliz aos setenta e sete anos.

Continua…
jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “O Ofício da Memória – Ela

  1. Já ouvi dizer que a vida tem diferentes “intensidades” e, com a idade os momentos são vividos muito mais lentos, como se fosse o ultimo suspiro.

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  2. Que escrita emocionante João Paulo! Fazes viajar os teus leitores! Estou impaciente de ler a continuação,

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