Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

O Clã do Comboio – Polifonia Móvel

4 comentários

Polifonia Móvel

Os Telemóveis são uma praga. Uma infeção social. Uma marca da nossa ignorância, da nossa futilidade, um hino ao desnecessário. Representam tudo aquilo de que a Humanidade deveria ter-se desviado e, infelizmente, cultivou.
Ora, em matéria de telemóveis, o pior são os toques. Mesmo pressupondo o absurdo dos telemóveis existirem, deveria ser obrigatório que fossem silenciosos. O regional, ultimamente, parece uma orquestra de toques polifónicos. Toda a gente tem um toque diferente e as pessoas parecem competir para ver quem tem o toque mais absurdo, o mais barulhento e incomodativo. Os seres humanos são burros! Queixam-se da bomba atómica, da poluição dos mares e dos rios, de mil e um aspetos ambientais e esquecem esta gigantesca explosão sonora que, à escala mundial, todos os dias nos agride os ouvidos e o cérebro.

Todos os dias, religiosamente às 8:45, há um rancho folclórico que se esganiça na mala de uma mulher adormecida. Todos os dias, religiosamente a qualquer hora, e durante a viagem toda, há um tipo que recebe uns dez ou quinze e-mails no seu telemóvel e o problema é que o toque dele é a voz metálica e aguda de uma mulher dizendo como um robô, alto e bom som, You’ve got mail! Apetece-me apertar-lhe o pescoço, mas ela não tem pescoço. É só um pedaço de plástico fabricado na Tailândia. E há aquele tipo de meia-idade cujo toque é a imitação sonorosa de um telefone antigo. Aquilo toca na outra ponta da carruagem e todos ficamos a saber que a senhora do senhor quer saber se ele apanhou o comboio. A situação mais curiosa que presenciei foi a da velhinha. A velhinha era baixinha e pequenina e enrugadinha e sentou-se e adormeceu, coitadinha. Estávamos os dois numa fila de três bancos e entre nós jazia a mala dela. A carruagem ia cheia e em razoável silêncio. Momentos depois, ecoa por todo o Universo uma brutal, envolvente, cheia de baterias e diversos palavrões em inglês, música de heavy metal. O som era alto, mas um pouco abafado. A velhinha abriu os olhos e a mala e tirou de lá de dentro o telemóvel donde emanava toda aquela gritaria. E, nesse preciso momento, o som perdeu o abafado, ficou só ensurdecedor. Então, ela carregou na tecla de atender e disse com uma voz pífia, muito fraquinha, assim como quem não quer incomodar:
– ‘Tá lá?

E tocam, e tocam, e tocam… ele é os grilos que grilam, os galos que cantam, os gatos que miam, os Xutos e Pontapés, o Tony Carreira, a Rhianna, a Adèle, a Dulce Pontes, o Quim Barreiros, o Beethoven, uma voz a dizer, Atende o telefone, ó pá, os bips discretos, os bips não discretos, as mais diversas combinações de sons perfeitamente indefinidos. Há dias aconteceu algo interessante, sobretudo tendo em conta os dias que vivemos. Um tipo tinha um telefone com um altifalante tão bom que se ouvia nitidamente o que o interlocutor dele estava a dizer do outro lado. Começou ele:
– Tenho uma coisa para ti…
– O que é?
– Eu depois digo.
– Vá lá, pá, diz lá, pá…
– É trabalho.
– Ora porra!
E há quem fale baixinho, mesmo baixinho. E há quem fale alto, mesmo alto. E há quem queira falar baixinho, julgue que vai a falar baixinho, tenha os tiques de quem vai a falar baixinho, mas cuja voz atravessa cristalinamente a carruagem com todos os pormenores do jantar, da educação dos filhos, da vida amorosa, do divórcio, do trabalho.

Os telemóveis, sobretudo os toques, estão a invadir o nosso quotidiano e o nosso cérebro e nós agimos como se houvesse regras, e há, mas o facto é que está instalada a selva polifónica. A infeção sonora. O vírus móvel. E não há nada a fazer. A propósito, eu tenho telemóvel. Bip pseudo-discreto. Falo alto.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

4 thoughts on “O Clã do Comboio – Polifonia Móvel

  1. Caro JP, eu estava na cama, acedi à net pelo telemóvel, li-o e levantei-me para vir-lhe responder. O seu comentário conquistou-me de imediato esse respeito.

    O JP poderia fazer várias coisas como reação à violência das minhas palavras, algumas mesmo excessivas. A maioria das coisas que poderia fazer não me impressionariam. A única que me cativaria seria se conseguisse resistir à tentação fácil da provocação e da agressividade.

    Eu sou um tipo honesto e humilde e, da mesma forma que me defendo e ataco e arraso um interlocutor, também me comovo e reconheço a superioridade de outrém. Neste caso, o JP foi, no seu comportamento, superior a mim. Soube encaixar e levar o discurso para um registo menos agressivo e litigioso. Não, não foi por elogiar-me que me cativou. Foi por ter seguido outro caminho que não o mais fácil. Os meus parabéns. Bem haja. Acabou de dar-me uma lição de vida. E isso, eu sei reconhecer. E com isso saberei aprender.

    Enfim, tal como eu referi antes, deve mesmo ser boa pessoa. Quanto ao que escrevo. Fico satisfeito por gostar e fica a promessa de oferecer-lhe um exemplar do meu primeiro livro. Espero poder cumpri-la. Era bom sinal. Ainda um dia nos riremos juntos das palavras azedas que trocámos. E, quem sabe, esse dia não está longe.

    Um abraço e votos de felicidades para a nova fase da sua vida, a tal que exigirá novas viagens e amigos novos.

    Até sempre.
    João Paulo Videira

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  2. Olá caro João,

    Não é covardia, pois afinal de contas, muitos ou quase a totalidade dos comentários deixados em muitos dos seus posts também se escondem no anonimato, no entanto eu até me identifico por “Titi e sua Excelsea e Simpática Companhia”, nome esse simpaticamente atribuído pelo João, eheheh.

    Neste meu comentário no entanto, não vou fazer qualquer tipo de critica, mas antes um elogio, elogio à sua maneira de escrever e descrever cada momento passado nas suas viagens, a maneira como descreve pequenos pormenores que nos coloca as nós simples leitores no local. Tem razão quando diz, que raras são as vezes que aqui venho, mas quando aqui venho que me demoro, pois quando venho leio tudo de fio a pavio, leio todos os posts que ainda não li e outros volto a lê-los com muito prazer, pois gosto da maneira como escreve e não tem que agradecer a atenção dispensada, pois é um prazer. No entanto tenho que lhe dizer que está enganado, quando diz que não tinha reparado que por motivos profissionais já não viajava com os seus antigos amigos, pois tal como lhe disse, eu leio com muito prazer todos os seus posts. Eu entendo-o, pois brevemente e também por motivos profissionais, também eu vou deixar de viajar com alguns bons amigos, mas de uma coisa tenho a certeza, fiz bons amigos e a vida continua.

    Mas sim tem razão quando diz, modéstia à parte, que eu até sou boa pessoa, ahahaha.

    Um grande abraço
    JP

    PS: No dia em que escrever o seu primeiro livro, eu vou lá estar, pois da maneira como escreve, tenho a certeza que vai ser um êxito

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  3. Olá caro leitor, já tinha saudades suas. Mudou pouco. Continua a fazer umas criticazinhas a coberto da covardia do anonimato. Assuma-se, caro amigo, olhe que a gente habitua-se a ser honesto e frontal e depois já não custa nada. Olhe, sabe que mais, seja muito bem-vindo, aliás, eu tenho seguido a atenção que dá a este modesto blogue. Não vem muito, mas quando vem demora-se. Obrigado pela atenção dispensada.

    Quanto à criticazinha: Já reparou que eu falo dos telemóveis em geral e não do comportamento de ninguém em particular? Pois, não reparou. E já reparou que eu assumo que tenho um toque pseudo-discreto e falo alto? Pois, não reparou. Caro leitor, eu, tal como Manuel Laranjeira, “sou um homem que tem a coragem dos seus defeitos!” É por isso que assumo tudo o que faço e escrevo e dou sempre a cara. Já o leitor deve ser tão virtuoso e ter tão poucos defeitos que nem consegue assinar três linhas que escreve… Por fim… e nisso também não reparou, por razões profissionais que só a mim dizem respeito, já não viajo com aqueles amigos, infelizmente, porque eram boa gente e boa companhia. E mantêm-se unidos, vamo-nos encontrando pontualmente para matar saudades. Mas sabe como são as pessoas positivas, rápidas a fazer amigos… viajo com outros!

    Caro leitor, volte sempre e dê a cara. Isto é uma casa de gente pacífica. Aqui não se morde ninguém. De resto, até suspeito que o leitor é boa pessoa…

    Um abraço,
    João Paulo Videira

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  4. Eheheheh, e há aqueles que ouvem toques de telemóveis com amigos em alto som logo de manhã e incomodam uma carruagem inteira sem se incomodarem minimamente com os restantes passageiros e o seu. Como é engraçado a inversão bastante rápida de valores, pois, quando é ao contrário já incomoda, não é Sr. João Paulo?

    Titi e sua Excelsea e Simpática Companhia

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