Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

O Ofício da Memória – Eles

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O Ofício da Memória – Eles

XVI
– Que bom rever-te! Estás bonita!
– Bonita?! Enfim… quem julgas tu que enganas? Estou… composta e… esquecida. Mas não bonita, meu querido, meu miúdo. Para equilibrar as contas poderia dizer, Oh, estás mais velho, mas que dizer de mim depois?
– Que estás uma senhora em respeitosa idade e… muito elegante!
– Como pudeste aceitar vir? Deves achar-me louca!
– Como poderia não aceitar?
– Vá, deixemo-nos de lamechiches, conta-me a tua vida, como tens vivido? Quem és tu?
– Contar-me-ás a tua também…
– Por certo.

XVII
E ficaram trocando vidas, oferecendo pormenores, descrevendo aventuras, riscos assumidos, alegrias, vitórias, desilusões e derrotas. Mais ele. Ela ia contando e esquecendo. Deram as mãos e ficaram olhando a paisagem das suas vidas e o sol ficou mais pequeno e o grandioso oceano menos presente. E falaram com a abertura e a intimidade de há trinta anos, como se o tempo não tivesse passado. Despediram-se ontem há trinta anos, cumprimentaram-se hoje trinta anos volvidos, mas foi ontem e hoje que se sucederam. Fez-se o milagre de galopar os anos e viver em conjunto, pelas palavras recontadas, o tempo de estarem separados. Até que ela encontrou as forças de que precisava e o momento adequado para pedir-lhe:

XVIII
– Sabes, é maravilhoso, rever-te, hoje, mas pedi-te que viesses porque preciso do jovem que foste há trinta anos. Eu tenho estes convenientes esquecimentos que, por vezes, se tornam da maior inconveniência. Tento combatê-los, mas nem sempre as memórias voltam. Depois, regressam quando as não esperava. E não controlá-las exaspera-me. A maioria das coisas, honestamente, não me importa que vão e venham como Deus e o meu cansado cérebro queiram, mas há preciosidades, há tesouros, que eu queria revisitar quando me apetecesse, sempre que me apetecesse. Os tesouros de amar. Do amor puro e genuíno, da força da vida, do melhor que o Ser Humano é capaz…
– Isso é um grande elogio. Não a mim, repara, a nós, ao que fizemos, ao que amámos. Mas a forma como tratas estas memórias… como se fossem relíquias, preciosidades… responsabiliza-me imenso e… e… também para mim passaram trinta anos.
– Eu sei, meu querido, mas não foram os mesmos trinta. Tu viajaste dos dezassete para os quarenta e sete e eu envelheci dos quarenta e sete para estes setenta e sete, respeitosos, como lhes chamas, anos de rugas e brancas na memória. Conta-me tudo, meu querido, conta-me tudo como se fosse hoje, como se estivesse a acontecer à nossa frente e eu não pudesse ver e tu me ilustrasses a vida com palavras. Conta-me tudo, perfeito como foi, e não me poupes a nada, não pintes a história com o que não aconteceu ou não se disse. Sê verdadeiro com os acontecimentos e as palavras porque nessa verdade reside a magia do amor…
– O que tiras da mala?
– É um gravador. É destes pequeninos de bolso. A menina da loja ensinou-me a usá-lo. Preciso pedir-te mais esse favor… eu vou relembrar contigo, mas é provável que este meu cérebro sem relógio nem pilha, ou de pilha gasta, volte a esquecer-se e não é praticável encontrarmo-nos sempre que esta cabeça tonta se esqueça do que não devia. Posso gravar-te as palavras?
– Claro que sim. Preparada?
– Preparada!
– Ora vejamos, como hei de começar…
– Começa por Era uma vez…

XIX
Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia. Tinha dezassete anos, praticava desporto e na sua frente desenhava-se um horizonte de esperança e de vida. Cortês e educado, mas atrevido e ousado. Ainda não sabia, na altura, mas era já um romântico e gostava de raparigas. Das raparigas todas! Estudou e trabalhou ao longo do ano e amealhou o suficiente para juntar-se a um bando de amigos em romaria para o parque de campismo de Buarcos. Fariam uma roda com as tendas pequeninas, uma viola na noite, o lume a crepitar, cheiro de café, jogos de cartas à luz ténue de uma pilha, histórias, anedotas, e corpos adolescentes experimentando os primeiros beijos e os afagos primeiros. Vieram, montaram as tendas, revezaram-se a cozinhar e a lavar a loiça e, à noite, com as suas melhores roupas, faziam saídas pelas ruas, ao bar do casino, à discoteca, aos pubs e a qualquer lugar onde pudessem encontrar raparigas que andassem à procura de rapazes como eles. Amores da praia enterram-se na areia, dizia o ditado. E era desses amores que andavam afanosa e descaradamente à procura. O mais velho deles era também o mais sossegado. Tinha trinta anos feitos naqueles dias de Verão e, pela idade, tinha o direito da última palavra, da decisão, do aviso prudente, do conselho sábio. Não casara, ainda, e, apesar de mais velho, procurava o mesmo que a rapaziada nova… mas se pudesse ser o mesmo com um cheirinho a promessa de vida, não se importaria.

XX
E foi ele o primeiro a reparar nela ou, pelo menos, a vê-la. Enquanto a rapaziada ia e vinha da praia, toalha ao ombro, rádio na mão, chinelos de enfiar no dedo, areia nas canelas, vozes altas, comentários aos biquinis e às raparigas que tinham olhado para eles, ele viu-as chegar. Quatro amigas em duas tendinhas das pequenas, na altura chamávamos-lhes canadianas. E disse aos mais novos, Estão umas moças jeitosas acampadas ao pé de nós, mas eles não ouviram. As moças para serem moças, seriam novas e aquelas, não sendo velhas, novas não eram. Num desses dias, contudo, ainda a manhã era fresca, o mais velho dos rapazes dormia, os outros acompanhavam-no, o jovem de dezassete anos levantou-se e veio à rua respirar o ar virgem do dia, cumprimentar a luz que lhe acariciava a pele e ouvir a passarada enquanto a maioria das pessoas preguiçava o resto da noite. Ela apareceu. Vinha da casa-de-banho com um pequeno estojo na mão, trazia um vestidinho encarnado, sapatos rasos e sorria. Quando chegou junto a ele, o sorriso abriu-se ainda mais:
– Bom dia! Sem sono?
– Olá, bom dia! Não… ainda dormia mais, mas gosto da manhã.
– Como te chamas?
– João. E tu?
– Lúcia. Queres dar um passeio?
– Quero.
E foram caminhar sem destino. Uma estrada, um jardim, um areal, o mar nos pés, poucas palavras, O que fazes? Estudo, e tu? Trabalho, já sou velhota. Não pareces, és bem bonita. Obrigada. De nada. E regressaram já com o sol forte na pele. Os outros, em alvoroço de graçolas e pequeno-almoço, nem repararam que vinham juntos. Foi só um passeio. Nem confiança se criou. Só companhia.

XXI
Luís, o mais velho e pacato dos rapazes, enamorou-se de Lúcia e disse-lhe coisas sugestivas, umas mais indiretas, outras mais diretas, acompanhou-a ao supermercado, ofereceu-se para lhe trazer as compras, encontrou-a, por acaso pouco casual, na praia e estiveram juntos com as amigas dela e os amigos dele e conversaram e em meio daquele evoluir rápido do conhecimento mútuo, como sempre acontece na praia, ele convidou-a para almoçar consigo. Almoçariam um pouco mais tarde, já os rapazes estariam de volta à praia e poderiam conversar calmamente. Ela aceitou. Porque não? E foi esse almoço que precipitou os acontecimentos.

XXII
Era um dia de sol intermitente, a malta abalou para a praia e João ficou lendo, sentindo a brisa fresca do dia cinzento. Quando chegou a hora do almoço, foi cozinhar no fogão de dois bicos e apercebeu-se de que Luís estava por ali. Mais tarde viu chegar Lúcia e pensou que talvez fosse melhor ter ido para a praia, mas Luís não o prevenira, nem lhe pedira nada. Deve ter assumido que João iria com os outros. O miúdo cortou dois bifes aos pedaços e passou-os pela frigideira. Depois misturou-os num tacho com uma caneca de arroz. Quando se sentou, tinha à sua frente comida que dava para três. Comeu com avidez. Sentiu-se saciado. Luís servira a Lúcia peixe cozido com batatas e feijão verde. Aquilo pareceu a João pouco romântico, mas não sabia, sequer, se o propósito era ser romântico. Ao longo da refeição, Lúcia não lhe pareceu contrariada. Só insatisfeita. O almoço decorreu como era possível que decorresse. Nem os mais velhos conversaram à vontade, nem os olhares atrevidos do mais novo colheram qualquer recetividade junto de Lúcia. Quando terminaram, Luís ofereceu um digestivo. Lúcia aceitou. E quando Luís foi buscá-lo, percebeu que a rapaziada tinha feito o funeral à garrafinha na noite anterior:
– Acabaram-me com a garrafa, estes malvados. Dás-me uns minutinhos, vou ali ao supermercado…
– OK.

XXIII
Luís levantou-se e assim que desapareceu entre as tendas, desviando-se das espias, João estremeceu. Queria muito estar com uma mulher, sentia-se preparado para isso, tinha em si a confiança e, por muito interessante que fosse beijar, tocar, cheirar a pele doce de uma jovem, ele queria fazer amor. A entrega total. Sabia que Luís não demoraria mais do que cinco ou dez minutos e ali estava ele frente a frente com uma mulher muito mais velha mas muitíssimo atraente, absolutamente sensual, e sabia, sentia em si, que não era mulher para si, a menos que conseguisse atrair a atenção dela para além das convenções, para além da normalidade. Tinha de fazer algo interessante, determinante e… em muito pouco tempo. Deu consigo a tremer de excitação, de entusiasmo e… medo. Enquanto pensava isto num relâmpago de tempo, o seu olhar cruzou o dela, encolheram os ombros, assim como quem diz, Eu não estou aqui para ti. E eu não estou aqui para ti. Sentiu essa distância e quase desistiu, mas, ao cruzarem de novo olhar, ao sorrirem-se mutuamente, ela piscou-lhe o olho. Não foi nada. Foi só um reflexo, um gesto simples a dizer-lhe, Tudo bem, miúdo, podes ficar calmo. Mas ele não viu só isso. Viu a auto-estrada das emoções e arriscou. Arriscou tudo. A cartada mais ousada que alguma vez jogara ou viria a jogar. Se houver uma idade para a ousadia, a sua foi aos dezassete anos, naquele dia fresco de Verão. Não sabe de onde lhe vieram as palavras. Sabe só que lhe saíram por impulso sem serem planeadas.

XXIV
– Posso fazer-te uma pergunta?
– Podes, claro…
– Queres foder comigo?
Um silêncio longo estendeu-se no tempo e no espaço e foi ela que o interrompeu:
– Essa pergunta só tem duas respostas. Ou levas um estalo por seres um mal criado, ou vamos descobrir se há um homem por trás do garoto atrevido. E eu, miúdo, nunca fui adepta da violência física. Além disso, estou farta de homens com feijão verde. Vamos lá ver a que sabem os teus bifes. E desapareceram dentro da tenda dele, puxaram o fecho e foi de joelhos que trocaram o primeiro beijo. Longo. Sôfrego. Quando terminaram, ela recostou-se, puxou o vestido para cima, tirou as cuecas, pegou na mão dele, conduziu-a ao púbis e sussurrou-lhe:
– Toma, vem senti-lo, é teu para acariciares.

XXV
O miúdo nem queria acreditar. Tivera a ousadia necessária para chegar ali, mas não tinha a certeza de saber o que fazer. Seguiu o seu instinto e os ensinamentos dela. O púbis era sedoso, muito agradável ao toque e tinha um odor suave que o excitava imenso. Começou a devorá-la afanosamente, pleno de energia e avidez, fazia gestos rápidos e sôfregos e queria estar em todo o lado ao mesmo tempo. Queria servi-la e saciá-la, mas, sobretudo, queria saciar-se. Ela percebeu a generosidade dele, o seu vigor e a sua energia e isso agradou-lhe imenso. Tinha saudades de alguém que a quisesse muito, que estivesse completamente concentrado nela. Este miúdo era um diamante, mas precisava ser trabalhado. Os primeiros momentos foram tão intensos quanto desajeitados. Era como se houvesse entre eles dois ritmos diferentes e descompassados. Ela teve paciência. Já percebera o que poderia receber daquela união e estava também a perceber o que poderia pôr nela. E, por isso, decidiu ensiná-lo.

XXVI
Foi-lhe falando tranquilamente, dando-lhe pequenas orientações, pequenas instruções. Ensinou-o a esperar pela mulher, a perceber o ritmo dela e a não agir fora dele. Disse-lhe para não centrar-se só no que queria, mas, sobretudo, no que poderia dar-lhe para que ela tivesse prazer e se sentisse feliz, seria na realização dela que começaria a dele. Ensinou-lhe como acariciar lentamente os mamilos, mostrou-lhe como lhe poderia beijar o sexo para que ela o desejasse irreversivelmente, ensinou-o a deixar-se tocar, a deixar-se acariciar, ensinou-o a incendiar o corpo dela com a língua e a ponta dos dedos, ensinou-o a não ser invasivo, Quando eu te desejar, quando eu te quiser dentro de mim, tu saberás, será fácil percebê-lo porque eu não passarei sem ti, ter-me-ás, mas terás de conquistar-me primeiro, terás de fazer um caminho para que possas saciar a tua e a minha sede. E ensinou-o a comunicar, Fala, diz o que queres fazer-me, diz o que queres que eu te faça, sussurra-me o teu desejo, as palavras também nos tocam e nos excitam. Ele aprendia estas coisas, depois começava a pô-las em prática e, em menos de nada, entusiasmava-se, esquecia-se de tudo e cavalgava como um louco, como um cavalo à solta na lezíria e suava e respirava ofegante e ela bebia-lhe aquela energia e depois, com paciência, ensinava-lhe tudo de novo. E ficaram nisto duas semanas. Duas semanas de sois e luas trocados, de ritmos reinventados, de um universo à parte, distante deste outro onde tudo se passava.

XXVII
Na altura, após o almoço, quando Luís regressou do supermercado, estranhou as ausências. Procurou-os com o olhar mas não os encontrou. Encontrou-os com os ouvidos na tarde calma e percebeu que estavam na tenda de João e percebeu que tinha perdido aquele comboio. Ainda perguntou:
– Tudo bem aí? Precisam de alguma coisa?
– Sim, amigo, traz-nos umas sandes.
Faziam amor de dia e de dia brincavam um com o outro e conversavam e dormitavam e voltavam a fazer amor. Eram um casal sem idade. E falavam do que estavam fazendo e da loucura que era e que bom que era por ser loucura. Quando a noite caía, saíam da tenda, iam tomar um duche e passear. Usufruir a vida e o mundo. Dançaram agarradinhos no bar do casino, beberam refrescos e café na esplanada do hotel com a lua a pratear o mar e o mar a fazer sombras ondulantes e a entregar-se à areia preguiçosamente, caminharam pela praia de mão dada no escuro, beijaram-se longamente com os pés dentro da água salgada e davam corridinhas em que ela fingia fugir-lhe e lhe chamava miúdo e ele apanhava-a e levava-a ao colo longos metros e lhe chamava velhota enquanto ela lhe enlaçava o pescoço com os braços para o beijar outra vez. Uma dessas noites, foram ao cinema. Era uma sessão tardia, à meia-noite, um filme pornográfico. Dois bilhetes para um camarote que só tinha quatro lugares e como mais ninguém veio, ela ajoelhou-se de costas para o ecrã e abriu-lhe o fecho das calças e acariciou-o e beijou-o e engoliu-o e ele pensou que, se o Paraíso fosse na Terra, tinha acabado de o encontrar. Saíram de mansinho antes do fim da fita. A fita estava toda feita! Deambulavam na madrugada, abraçados, pelas ruas desertas e conversavam com estranhos, passavam numa padaria e compravam pão simples e com chouriço e bolos e tudo o que lhes apetecesse para o dia seguinte. Depois iam dormir, e quando a manhã fosse a meio da viagem, um deles acordava o outro com beijinhos pequeninos, dedos viajantes, mãos exploradoras e o outro, sem abrir os olhos, entregava-se às carícias e devolvia-lhas depois. Uma só vez, um deles, saiu durante o dia. Foi ele. Já venho, disse, e voltou uma hora depois com um ramo de rosas. São para mim? Perguntou ela. São, mas só te dou uma para a mão, as outras vou desfolhar-tas no corpo. E despiu-a e ficou tirando as pétalas às rosas e espalhando-as no corpo dela. Quando terminou, segurou uma só pétala e percorreu-lhe o corpo com ela. Devagarinho. Fez caminho. Foi recompensado. E quando terminaram, ela disse-lhe:
– Aprendes depressa, miúdo. Depressa e bem.
– Tenho uma boa professora.
– Agora é a minha vez de perguntar-te de posso fazer-te uma pergunta.
– Faz.
– É a tua primeira vez?
– Hum, hum…
– Hum, hum?
– Sim, é! Demoraste quase duas semanas a perguntar-me isso…
– São perguntas que podem inibir as pessoas, sobretudo se a resposta expectável é “Sim”.
– Nota-se muito que é a primeira vez?
– No primeiro e no segundo dia notava-se um bocadinho, depois, com a prática e o tempo, relaxaste, ficaste menos egoísta e agora estás um artista completo!
– Artista? Isso faz-me lembrar o circo!
– E não é?!
E largaram a rir e fizeram amor uma vez mais e tomaram um duche e foram para a esplanada do hotel e ficaram em silêncio muito tempo. Horas. Quando resolveram voltar às palavras, falaram ao mesmo tempo:
– Quantos dias mais vais ficar?
– Quantos dias mais vais ficar?
– Só até ao fim desta semana.
– Também eu, miúdo, também eu.
Levantaram-se, deram as mãos, vieram até à extremidade da varanda e abraçaram-se como se não quisessem separar-se nunca mais. Ele sussurrou-lhe ao ouvido, Obrigado, tu és fantástica, amo-te muito, amar-te-ei sempre muito! Ela respondeu-lhe também em sussurro, Eu sei, eu também te amo muito e também é para sempre. Não sei o que será de nós, miúdo, isso nem importa, desejo-te uma vida feliz, leva sempre essa energia contigo, vive sempre com a mesma determinação e entrega que te conheci nestas duas semanas… essa energia e esse entusiasmo serão a tua luz.

XXVIII
Nessa alvorada fizeram amor no mais absoluto silêncio. Harmonioso. Como um bailado de desejo e dádiva. Acariciaram-se. Percorreram os seus corpos com a mesma dedicação e ambos soltaram as lágrimas que tinham para soltar. Houve sal nos seus corpos, mas não foi do mar.

XXIX
A meio da manhã, saíram juntos da tenda e ela disse-lhe:
– Queres ir à praia, podes ir… tenho umas coisas para fazer. Vemo-nos à hora do almoço.
– Está bem. Ficas bem?
– Fico, claro. Vemo-nos daqui a pouco.
Mas não viram. Ela lavou-lhe a roupa de vestir e pendurou-a na corda suspensa entre duas árvores, lavou-lhe os lençóis, torceu-os e fez-lhe a cama com eles molhados. À noite estariam secos. E estavam. Partiu. Quando ele voltou, percebeu o que se tinha passado. Suspeitara que iria acontecer isso mesmo, mas não quis fazer-lhe perguntas. Resolveu confiar nela uma vez mais. E fez bem.

XXX
Ele terminou. Levantaram-se. Foram até à varanda como haviam feito trinta anos antes e, como então, abraçaram-se longamente e em silêncio. Quandovoltaram a olhar-se, tinham ambos os olhos marejados de emoção. E foi por perceberem a sintonia nas lágrimas que largaram os dois a rir. São complexos, os sentimentos e as reações das pessoas. Mas percebe-se e aceita-se. Este não foi um choro de tristeza. Foi de saudade das coisas vividas e adormecidas na memória e agora recordadas de forma tão vívida.
– És um excelente contador de histórias, miúdo. Foste intenso, preciso, pormenorizado, tudo como aconteceu e já tanta coisa se me esquecera. Ao ouvir-te, era como se revivesse. Não me lembrava de termos estado no cinema. Meu Deus, eu fiz mesmo aquilo?
– Fizeste. E mudaste a minha vida. Senti-me o senhor do Universo, fortaleci-me como homem e preparei-me para a vida… para as mulheres. Obrigado por todos os teus ensinamentos. Quis tanto agradecer-te ao longo de todos estes anos… e, sim, velhota, fizeste mesmo aquilo no cinema!
– Obrigada, miúdo. Na vida de uma pessoa com a minha idade, já pouca coisa se passa. Escassas e preciosas são as emoções. E hoje fizeste-me renascer. Sinto-me até jovial. É como se toda a minha vida tivesse valido a pena. É bom para mim conhecer o carinho com que te recordas daqueles dias, a importância que tiveram para ti. Dá um novo sentido à minha existência… ao tempo que me resta…
– Obrigado, eu, velhota. Esta nossa cumplicidade faz-me sentir mais vivo. Hoje fiquei a saber que os meus gestos tinham sido importantes para alguém, que não foram só gestos, foram a minha presença noutra vida. Sinto-me mais homem, mais íntegro, mais realizado.

XXXI
Estiveram comentando a história que ele havia contado, a sua própria e verdadeira história. Deixaram a emoção e a cumplicidade perpassar toda a conversa. Trocaram olhares e sorrisos e, a certa altura, sem que perguntas fossem feitas, sem que justificações fossem pedidas ou dadas, ele aproximou-se dela e disse-lhe baixinho ao ouvido:
– Posso fazer-te uma pergunta?
– Faz.
– Queres beijar-me?
– Essa pergunta, miúdo, só tem um tipo de resposta.
E beijaram-se ternamente, entregues nos braços um do outro, envoltos nas memórias comuns de dias maravilhosos de ousadia e loucura partilhada. No final do beijo, ela disse-lhe:
– Sabes, miúdo, se despires a ação humana de tudo o que é acessório, encontras a essência dos laços criados entre as pessoas e essa essência é o amor.
– Eu também te amo, velhota, para sempre.
– Trazes-me outra água, miúdo? Muitas emoções secam-me a garganta.
– Claro que sim, velhota.

XXXII
Quando ele voltou, percebeu que ela tinha partido. Suspeitara que iria acontecer isso mesmo, mas não fez perguntas. Resolveu confiar nela uma vez mais. E fez bem.

————————- FIM ————————-

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

5 thoughts on “O Ofício da Memória – Eles

  1. Este é, realmente, o ofício da memória… não deixar as experiências, as vivências perdidas no tempo. O ofício do escritor é contá-las enriquecendo-as com palavras que lhe dão nova vida e reafirmam os sentimentos amadurecidos. O que foi ou o que poderia ter sido pouco importa, o importante é que uma bela história foi contada e muito bem contada.
    Por um mero acaso já a tinha ouvido contada noutras palavras, noutro contexto, mas agora está mais bonita, como disse antes, mais amadurecida, mais envolvente no final.
    Bjs. Fernanda

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  2. Obrigado pela simpatia das vossas palavras. Com leitores/as assim, a motivação cresce! jpv.

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  3. O amor não tem idade e se não for ousado perde o interesse! Há sempre algo para descobrir.

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  4. Valeu a pena esperar! Está simplesmente maravilhoso!

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  5. Absolutamente extraordinário! Está lindíssimo, contado com uma ternura intensa, uma sensibilidade emocionante.

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