Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Pequenos Milagres – A Mão de Amália

3 comentários

A Mão de Amália

O rapaz vai chamar-se Quim. E mais nomes não serão necessários para o nomear nesta história. Para que chame por ele quem tiver de o chamar, para que se lembre dele quem tiver de lembrar-se.

A rapariga vai chamar-se Amália. E de apelidos não precisará, também. Apresentar-se-á com esse nome e é com ele que se cruzará com Quim.

A cidade chamar-se-á Lisboa. Tem o mesmo nome da cidade que conhecemos e é capital do nosso país, mas já não existe esta cidade de que vos falarei. Será ela, o palco da vida onde o milagre vai dar-se.

É uma Lisboa de casario branco, escadinhado colina acima, ruas estreitas e sombrias e chão coberto de seixos do rio. É uma Lisboa de portas escancaradas e janelas abertas de par em par donde saem os ralhetes, as discussões e o trinado de uma guitarra antes de uma voz chorar um fado. É uma Lisboa de varinas e pregões ecoando na manhã. E tem ardinas vendendo esperança e notícias e é a Lisboa do tempo em que amarelo ainda não tinha sido pintado de encarnado e percorria as ruas com a sineta a avisar e a garotada pendurada na porta traseira arreliando o motorista da Carris. É a Lisboa dos banhos públicos, das fontes onde se vai à água de bilha na cabeça e dos lavadouros onde as mulheres acorrem a lavar a roupa e a perfumar o ar de sabão azul e lixívia. Corre água avonde e os miúdos chapinham com os pés descalços nas poças e nas regateiras por onde corre o líquido ensaboado. Há roupas de corpo e enormes lençóis brancos nas cordas das ruas e nas janelas. No largo do lavadouro, a garotada improvisa um jogo de bola, o mais importante jogo da época. É um Benfica-Sportengue. Duas pedras marcam uma baliza e outras duas delimitam uma segunda baliza, um pouco mais pequena porque o guarda-redes é mais pequeno e A gente joga com menos um. Quim quer ser o Ósébio. Mas tu não és preto! Ora, isso não é razão, aqui ninguém é preto. Mas se queres ser o Ósébio, tens de ficar mais preto. Quim baixa-se, raspa as mãos no empedrado da calçada e na terra, olha para elas, estão bem sujas, leva-as à cara, esfrega bem, esforça-se por ser o mais preto possível, já sonha com um golo à Ósébio, e pergunta, Está bom? Eh, ainda não estás bem preto, mas já serve, jogas pelo Benfas. E já todos sabem quem são as equipas. Só os sportinguistas comprovados podem jogar pelo Sportengue. Só os benfiquistas atestados podem jogar pelo Benfas e é por isso que cada um anuncia o seu nome de jogo. Eu sou o Hilário, Eu sou o Costa Pereira, aquilo é que é um quiper, tem cá umas mãozinhas, como estas, olha, olha! Eu sou o Carvalho, Eu sou o Zé Ógusto, Eu sou o Fernando Mendes, Eu sou o Torres! Tu? O Torres sou eu! Mas eu queria ser o Torres e disse primeiro. ‘Tá bem, mas eu sou mais alto. E continuam por aí adiante, brincando de viver, fazendo da brincadeira vida séria. As mulheres estão por ali, com um olho no burro e outro no cigano, ora lavam, ora vigiam a bola e, às tantas, gritam frases de incentivo, Vai Quinzinho, remata à baliza, faz um golo para a mamã ver. Ele aqui não é Quinzinho, é o Ósébio! E as mulheres desabam numa gargalhada e retomam o lavar de roupas e começam a cantar e de entre elas uma se destaca pelo timbre da voz, pelo milagre da harmonia, pela forma como as faz sorrir ou chorar consoante o que canta. Chama-se Amália. As outras começam a cantoria, mas, a pouco e pouco, vão-se calando e deixam o Senhor cantar pela boca de Amália. Ela reclama, Vá lá, acompanhem-me, vocês sabem esta. Elas sabem, mas preferem ouvi-la a ela. Só assim os seus corações se enchem, as suas almas se guindam aos céus. Ó Amália, canta aquela que eu gosto. E ela faz-lhe a vontade e toda a cidade parece calar-se, até mesmo os pardais de telhado, para que a sua voz atravesse as ruas e suba aos céus para donde veio. O Sportengue chegou ao intervalo a ganhar 5-4, é um clássico muda aos 5, acaba aos 10. Muda-se de campo, reajustam-se as pedras a marcar as balizas, o Benfas dá réplica na segunda parte. Há 9-9, a emoção está ao rubro, Torres faz uma finta exímia recorrendo a uma tabelinha com a parede caiada, uma mulher ralha com ele, Ah malvado que sujas a parede toda! Mas ele não quer saber, coloca o pé direito na bola de trapos e faz um passe de morte para o Ósébio que recebe no peito, cola na calçada, encara com Hilário, pergunta-lhe, Para que lado queres? E atira para o fundo das redes. É o júbilo, a loucura total. Findo o jogo, à medida que se aproxima do lavadouro, Ósébio vai voltando a ser Quim e Quim está entusiasmado e cansado, sua em bica. Quando aí chega, deixa-se invadir pelas vozes das mulheres conversando, pelo som das roupas mergulhando na água e fazendo chape na pedra e pelo perfume a limpeza e felicidade. Está uma garrafa na beira da pedra do lavadouro, distraído com a emoção do jogo e do ambiente, o miúdo de calções e pés descalços pega na garrafa e leva-a à boca. E é nesse momento que o mundo para. Que a sua vida muda para sempre porque não chegou a mudar. Uma voz cristalina corta o ar da manhã, suspende a vida toda porque traz um tom inequívoco de alarme: Quiiiim! O miúdo suspende por momentos o gesto numa breve hesitação, o suficiente para que Amália lhe segure a mão e lhe roube dela a garrafa, Cuidado menino, se bebes isso, matas o Eusébio!

Cansado, suado da refrega do jogo, ávido de matar a sede que o atormentava, Quim esteve quase a sorver dois generosos golos de líxivia. o bastante para o queimar todo por dentro, talvez mesmo para lhe roubar a vida ou, caso a sorte o protegesse desse destino, para o tornar dependente de medicamentos e cuidados durante todo o tempo que lhe restasse viver. A atenção e a mão célere de Amália salvaram-no desse caminho. Fez outro. Nunca saberá se foi melhor ou pior. Saberá, só, que naquele dia Lisboa continuou feliz. Um pequeno milagre do quotidiano mudou para sempre a sua vida e a vida daqueles que com ele se vieram a cruzar.

Amália cantou e encantou. Fez o milagre da comoção. Fez o milagre de levar as pessoas a sentirem-se tocadas pela voz do Senhor, envoltas em emoção e reconhecimento. Amália viajou, encheu plateias, escreveu e, sobretudo, cantou. Cantou e elevou a condição dos homens e das mulheres que a ouviram a seres abençoados. Amália não soube, nunca, contudo, que o verdadeiro milagre que operou na sua vida, acontecera naquela manhã junto ao lavadouro. No dia em que salvou a vida de uma criança que coisa mais preciosa no mundo não há.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

3 thoughts on “Pequenos Milagres – A Mão de Amália

  1. Grato, muito grato, pela simpatia das palavras que ambos aqui deixaram!jpv

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  2. Obrigado por me fazer recordar a Lisboa do tempo da minha avó e homenagear a Amália de todos nós, desta vez nos actos simples que fazem a diferença entre a vida e a morte. É sabido que além de ter uma voz ímpar e grandiosa, tinha também um coração muito generoso. E esta história exemplifica-o muito bem. Parabéns!

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  3. Gestos simples, gestos de todos os dias, salvam vidas a cada minuto. Cada um de nós tem na sua mão o poder de evitar desastres, no seu olhar o poder de compreender, nos seus lábios o poder de consolar, nos seus braços o poder de reconfortar.
    A história está muito boa, muito bem contada. Surpreendente, e muito bonita.

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