Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

ErotiKa – O Corpo da Ideia

2 comentários

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jpv
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O Corpo da Ideia

Caras leitoras,
Este, é um homem de que não ides gostar. Quero dizer, talvez não vos importásseis de amá-lo por uma tarde, uma noite, um dia, um fim-de-semana, mas esse conceito de um amar efémero e carnal não é para vós o conceito de amar, pelo menos, aquele que acarinhais mais e melhor. Não quero com isto dizer que sejais contrárias à ideia dos prazeres do corpo. Não. De todo. Acontece que, para vós, mulheres, os prazeres do corpo são uma extensão de outro amor. O amor alicerçado na dedicação, no carinho, no compromisso e na felicidade. E é quando uma tal sintonia no plano afetivo se atinge que a vossa mente e o vosso corpo despertam para os prazeres da carne. E é por isso que não ides gostar deste homem. É que, para ele, a carne vem primeiro. Acontece que, no seu caso, há uma arte, uma generosidade, uma envolvência e uma cortesia que mulher alguma pode ignorar. E caímos, assim, num paradoxo. Querei-lo, mas querei-lo só para vós. Para cada uma de vós. E isso é contra a sua natureza pois há muito que se assumiu como sendo de todas vós. Ao mesmo tempo!

Caros leitores,
Esta, é uma mulher de que não ides gostar. Quero dizer, talvez não vos importásseis de amá-la por uma tarde, uma noite, um dia, um fim-de-semana, mas esse conceito de amor não é para ela aceitável. Possuí-la pela carne implica um caminho de provações e compromissos que, na maioria dos casos, não estais prontos para aceitar. De resto, respondeis a um impulso básico e primário de cobrição em que amor e sexo se confundem e onde o primeiro pontua sempre desde que aconteça o segundo. É para vós o amor algo de imediato e jactante e, em abono da verdade, diverso e múltiplo. Podeis bem amar uma mulher, dedicar-lhe uma vida inteira, sem que isso vos impeça de ter outras em vosso leito. Tendes um coração largo, generoso e espaçoso onde todas caberão e onde cada uma terá seu quartinho para não misturar-se com as outras. Ora, isso é contra a natureza desta mulher que aceitará em si um só homem. Aquele que provar merecê-la. Sempre. Única e exclusivamente.

Vai ele chamar-se Carlos que outro nome não pode ter um tal coração. E foi com ele que a desposou. E quando o Padre lhe perguntou se era de sua livre vontade que a aceitava em matrimónio, ele respondeu Sim. E estava a ser honesto. Aquela era a mulher da sua vida. A primeira nas suas prioridades. Aquela a quem amava. Descobriria mais tarde que era capaz de amar outras, mas isso teve de esperar. Seis anos se passaram. De felicidade. De sintonia e genuína exclusividade. Carlos tinha os olhos fechados para o Mundo e as mulheres nele. No decurso desse sexto ano, contudo, coisas houve que o fizeram mudar de perspetiva. Olhar o Universo com os olhos abertos. Ver e observar as coisas, os acontecimentos e as pessoas à sua volta. E amou. Amou outra mulher. Uma paixão tórrida e consumidora que escondeu a custo da sua própria mulher. Quis dizer-lhe, mas conteve-se. Preferiu esperar. Ser prudente. E, menos de um ano volvido, começava a encontrar as falhas nesta mulher perfeita que aparecera na sua vida. E fechou esse capítulo. Tentou esquecê-lo. Nunca conseguiu. Por fim, decidiu guardá-lo como uma memória grata. Só isso. Tudo isso. E refugiou-se de novo no seu porto seguro, no seu lar, na sua amada de todos os momentos. Aquela que escolhera para casar e viver a vida inteira. Viu um documentário na TV sobre as crises matrimoniais onde se falava insistentemente no fenómeno da crise dos sete anos. Atribuiu o que acontecera a isso e fechou sobre o seu peito esse capítulo entusiasmante e efémero da sua vida. Durante três anos voltou a ser o Carlos que sempre fora. Quando perfez dez anos de casamento, voltou a sentir-se atraído por outra mulher. Desta vez estava preparado para o evento e sabia como resistir-lhe. Não resistiu. E não resistiu ao seguinte e ao outro e ao próximo que seria o último e ao que veio depois dele e ainda a mais uns quantos de circunstância. Hoje, está casado há dezasseis anos, tem um historial de relações extra-conjugais paralelas a um casamento feliz. Quase sempre. Já se percebeu. Já aprendeu a conhecer-se. E, o mais difícil de tudo, já aprendeu a aceitar-se como é. Mantém-se fiel ao seu amor primeiro, fiel aos sentimentos que nutre pela sua mulher, tem com ela uma relação estável e bonita e, contudo, decidiu deixar de fingir que não gosta da atração inicial, do enamoramento, da sedução e depois da entrega total, do sexo sem complexos e, por vezes, sem sexo. Percebeu que na vida há pouco mais do que aquilo que sentimos e experienciamos e percebeu, também, que há muito pouca coisa de real e verdadeiro interesse em todo o espectro do Universo conhecido para além das pessoas. As pessoas são o verdadeiro milagre da vida e as mulheres são as melhores das pessoas. A graça e a graciosidade, a elegância e a sensibilidade, as formas, o espírito, a amplitude do seu olhar, as suas inseguranças e as forças, a generosidade e a compreensão, fazem deste complexo ser, na opinião de Carlos, a mais extraordinária das criações de Deus e da Natureza que é Deus junto dos homens. É um hotel concebido para receber os amantes do sexo. Cama redonda, varão de inox, luzes néon encarnadas, muitos espelhos e uns desenhos alusivos às práticas que aí se espera aconteçam. Carlos está de joelhos ao centro da cama, à sua frente uma mulher está de quatro oferecendo-lhe o sexo e as nádegas. É generosa nas formas, libidinosa nos gestos e insaciável no desejo. Carlos incita-a com palmadas que lhe desenham as mãos na carne alva das nádegas, ambos gemem em sintonia e quando se dá a explosão das explosões, os dois estão preparados para mais. Ele vira-a e tomba sobre ela. Ela abraça-o, aceita-o em si e crava-lhe as unhas nas costas. Não foi propositado. Foi um impulso. Deixou uma marca. E a marca originou uma conversa.

– És um canalha, Carlos, um canalha sem vergonha! O que eu te amei, meu Deus!
– Tem calma.
– Calma? Como podes pedir-me calma? Tu destruíste as nossas vidas. Eu nunca te pedi nada, Carlos, nunca! A não ser que me amasses…
– E amo!
– Mentiroso! És um mentiroso sem emenda!
– Sim, sou. Não nego. Mas não quanto a amar-te…
– Como podes amar-me Carlos? Como pode isso ser verdade? Acabaste de assumir que dormiste com essa galdéria.
– Por isso mesmo. Porque assumi. Ela não significou nada…
– Quantas foram? Diz-me! Quem mente uma vez…
– Isso não é importante.
– Como não? Claro que é importante.
– Não é não. Não interessa quantas foram, interessa que não significaram nada. Tenta compreender-me. Eu vivi até aos dez anos do nosso casamento sem que nada disto acontecesse e nessa altura percebi a efemeridade da vida, percebi que eram importantes para mim os prazeres da carne… e essas mulheres, as diversas mulheres com quem me deitei, foram só isso, prazeres do corpo. Mas foste tu a ideia. A ideia do amor. Sim, eram os corpos delas, a sua graça, a sua variedade, mas foi sempre a tua ideia. Tu foste uma ideia em muitos corpos.
– Sai daqui Carlos, sai! Sai! Metes-me nojo! És asqueroso! És a negação de tudo o que eu pensava que éramos um para o outro. Sai daqui…
– Tem calma. Eu sei o que sentes…
– Não sabes, não. Não sabes, Carlos… mas… sabes que mais? Vais saber!

Vai ela chamar-se Joana, Joaninha entre as amigas, que outro nome não pode ter uma tal capacidade de amar, uma tal dedicação. E foi com ele que o desposou. E quando o ouviu dizer Sim ao Padre, seu coração tremeu e precipitou-se empurrando o seu Sim não fosse o momento perder-se. Aquele era o homem da sua vida. O primeiro nas suas prioridades. O escolhido. Aquele que quer para as manhãs de Primavera, as tardes de Verão e as noites de Inverno até que cheguem ambos ao Outono da vida. Será este o homem das suas alegrias, das suas tristezas e dos seus prazeres íntimos. Os mesmos que farão dele o pai de seus filhos. Dedicou-lhe o seu coração, dedicou-lhe a sua mente, dedicou-lhe a sua atenção e o seu tempo e teve dele os filhos que só dele queria. E sorveu-o para si. Acompanhou-o para todo o lado, sofreu com as dores dele, alegrou-se com as alegrias dele, ajudou-o no trabalho, poupou-o às preocupações que poderia ter partilhado. Fez do seu casamento a sua obra de arte e colocou-o a ele e aos filhos no centro dela. E confiou. Por volta dos seis anos de casamento sentiu-o mais distante, menos entusiasmado com a sua vida a dois. Organizou umas férias, tentou percebê-lo, não foi capaz. O homem era um bloco granítico. Não se revelava. Deu-lhe tempo. Refugiou-se na leitura. Gostava de ler, mas, desde que se casara, colocara esse hábito de parte como tanta coisa na sua vida. Agora voltava a ele. Lia os romances, uns atrás dos outros, os franceses, os ingleses, os alemães, os portugueses e os russos. Adorava os russos. Mergulhava naquela dor e esquecia a sua. Lia clássicos e contemporâneos com a mesma avidez. Sofria com eles. Entusiasmava-se com eles. Deixava-se abraçar e beijar e possuir pelos seus encantos. Quando Carlos acordou do desinteresse em que mergulhara, Joaninha continuou a ler, mas percebeu a sua mudança e deu-lhe atenção e a sua relação viu de novo nascer dias de luz e alegria. Ela nunca deixou de ler e, três anos mais tarde, quando ele voltou a emigrar para a indiferença, ela soube de novo onde refugiar-se. Cuidava dos filhos, cuidava dele, amava-o quando ele lhe pedia, mas quase sem sair do universo que os livros lhe criavam. As escapadelas começaram por ser para as páginas impressas e terminaram sendo das páginas impressas. O tempo foi passando e Joaninha sofria porque não fora aquela a vida com que sonhara, mas não se sentia com forças para suportar o fardo do casamento sozinha. E assim coabitavam, quase cordiais, quase indiferentes. Até ao dia em que ele saiu do banho, estava sozinho e não contava que ela entrasse, mas ela entrou como tanta vez fizera na intimidade do casal, e surpreendeu-lhe as costas marcadas pelas unhas de outra que as suas não haviam desenhado aquele êxtase. E aconteceu a conversa que ouvimos há pouco e agora se retoma.

– Tem calma. Eu sei o que sentes…
– Não sabes, não. Não sabes, Carlos… mas… sabes que mais? Vais saber!
– Acho que sei, Joana.
– Não sabes, não. Há coisas que não imaginas. Sabes, há pouco disseste, tentando ser agradável no meio de toda a trapalhada que fizeste, que eu fora uma ideia em muitos corpos… e foi essa frase tua que me provocou. Eu vou dizer-te a verdade…
– Qual verdade, Joana?
– A verdade, Carlos, é que eu te traio há muitos anos, com muitos homens. Diferentes nos seus corpos e nos seus desejos e uníssonos num só facto. Todos queriam possuir-me. E eu deixei. Mais do que isso, gozei os prazeres da carne com cada um deles.
– Mas que raio dizes tu, Joana? Há anos que não sais de dentro desses livros.
– Saio. Saio, Carlos… saio de dentro dos livros para trair-te com o teu próprio corpo. Há muitos anos, Carlos, que não faço amor contigo. Há muitos anos que não me entrego a ti. Tu, pobre Carlos, não foste mais do que um corpo para muitas ideias.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “ErotiKa – O Corpo da Ideia

  1. Simplesmente fantástica! Parabéns!

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