Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Ato de Pouca Fé

1 Comentário

Ato de Pouca Fé

O gume da faca
Entra lentamente na carne
E desaparece.
No movimento inverso
Acontece
Ver-se a lâmina
De novo.

E esperas.
Que entre.
Que saia.
Que respire.

E estranhas não estares morto.
São e consciente,
perfurado
E impotente,
Esvais-te em sangue quente.
E vês.
E sentes toda a dor.
Primeiro,
Um calor.
E um frio gélido,
Depois.

A luz fenece
Devagar,
Até que chegas a reparar
Que é a tua luz
Que se apaga.
Um manto de breu
Lentamente
Te afaga.
Uma memória escorres,
Um suspiro final
E morres.
No momento trágico
E fatal
Ainda consegues ver
Que não é difícil morrer.

Difícil é aceitar a morte
Estando vivo.
Encarcerado num corpo perdido
Que, exangue, espera!
Já não há sonho,
Nem desejo,
Nem quimera.
Só um respirar
Absurdo e inútil
A antecipar o fim
De uma vida fútil.
Como vãs foram
As vidas todas.

Ser
É nada.
É uma noite
Sem alvorada.
Um mar
Sem rebentação.
Um homem
Sem pulso.
Um amor
Sem emoção.
Ser
É um caminhar ao contrário.
Uma dor
Sem Calvário.
Uma cruz
Sem Cristo.
Ser é um misto
De desistir
Antes de querer,
De viver
Só para morrer,
E querer mais.
Porque queremos?
E mais, ainda por cima,
Se a vida morrerá menina
Sem glória nem devoção,
Sem música
Para a canção…
Nem letra!

A vida
É uma puta sem cliente.
Um filho
De pai ausente.
Um deus ignaro
A guiar o crente.
Pobre crente!
Antes fosse ateu,
Por fé,
Só o breu.
Por reza,
Só o impropério.
Por certeza,
Só o mistério,
A fortuna
De ter coisa nenhuma,
A luz brilhante
Da solidão.
Um pedaço de terra
Sob os pés,
Uma faca na mão,
E outra vez
O gume
Queimando a alma
Como lume.

Da terra que lavras,
Regada ou enxuta,
Não brotam palavras
De mente sã e arguta.
Tu és só o filho da puta
Sem cliente.
O teu pai é o acaso
E uma nota estendida.
Para além disto,
Não há mais vida,
Não há mais existência
Suportada por douta mente
E esperta ciência.

Eu pecador me confesso
Porque sei e professo
Palavras de nada
E coisa nenhuma.
Verdade há só uma,
A fogo no peito gravada,
Não há vida, nem alma, nem chama:
A única verdade é nada!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

One thought on “Ato de Pouca Fé

  1. Intenso e profundo. Muito belo, apesar de muito trágico.
    Existe uma verdade que nenhuma faca pode cortar e que nenhuma chama pode queimar. É a pureza do ser e a genuinidade da alma. Afinal, nada também pode ser tudo.

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