Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Pequenos Milagres – Ricochete

4 comentários

Ricochete

Já se tem ouvido dizer em meios diversos que os milagres são um retorno. Recebemos consoante aquilo que semeamos. Há mesmo quem vá mais longe e assegure que toda a nossa existência, a nossa presença no Universo e o próprio Universo são imensos canais de energia e, como tal, tudo à nossa volta é uma complexa rede energética. O tipo de energia que colocamos naquilo que fazemos multiplica-se e volta para nós reforçado. Em bem ou em mal consoante o que semeámos. É uma espécie de teoria do ricochete aplicada à nossa existência. Sempre percebi isto e consigo até concordar, o difícil era ver a teoria em realização plena como agora se mostrará.

Era um homem idoso, as pernas arqueadas pelo peso do tempo, as mão engelhadas com os sulcos da vida, a barriguita proeminente, a cara lisa e os olhos muito azuis por baixo da testa longa e do boné enterrado na cabeça. De vez em quando tirava-o para o recolocar, assim como quem ajeita um vício, e via-se o cabelo muito ralo e muito branco. Tinha uma mal-formação na face como se fosse um sulco aberto que secou sem cicatrizar. Começava na cana do nariz, abria caminho por entre os sobrolhos e acabava-lhe no meio da testa. Era uma ferida feia se fosse uma ferida. Sendo uma marca de nascença não ficava mais bonita por isso. Entrou no comboio, sentou-se de frente para mim, abriu as pernas, pousou as mãos na bengala e disse-me:

– Este é o que vai para Tomar?
– É sim senhor.
– Muito obrigado.
– Não tem de quê.
– Já há pouco quem dê uma informação. Cada um só quer saber de si.
– Ainda há quem o faça.
– Como é a sua graça?
– João Paulo. E o senhor?
– Eu sou o Matos. Também me chamam o Ricochete.
– Ah sim? Interessante…
– Esse Ricochete que me puseram na alcunha salvou-me a vida. Não fosse isso e estava frio debaixo da terra há mais de quarenta anos.
– Ainda bem que tudo correu bem.
– Não sei se correu tudo bem. Sei que, até certa medida, correu bem para mim. Quer ouvir a história?
– Claro que sim, adoro histórias.
– Para que é esse caderno preto?
– É para escrever histórias.
– Bem me parecia. Então ouça esta e depois escreva-a. Começo pela parte do helicóptero… gosto da parte do helicóptero.
– Ah… mete helicópteros!
– Claro. Vou contar o que me lembro e o que não me lembro contaram-me. E eu fiz fé no que me contaram porque camaradas de armas são camaradas de armas. Só há entre eles a verdade da vida e da morte. Nada mais. O helicóptero pousou já eu sangrava há mais de duas horas. Raiava a madrugada. Tinha uma camisola interior enrolada na cara completamente empapada em sangue. Quatro camaradas agarravam na maca com uma mão e seguravam o boné do camuflado com a outra enquanto se dobravam para não serem atingidos pelas hélices. Era um barulho sibilante e entrecortado, a deslocação do ar dobrava o capim que sendo da altura de um homem, ali parecia raso. Tiraram-me o pano da cara e a luz da manhã que nascia feriu-me a vista. Não conseguia ver nada, mas ouvi um camarada dizer, Nossa Senhora, o que para aqui vai, foderam-lhe a cara toda, quem é que fez isto? Foi um turra, só não percebemos porquê. Não percebem o quê? Não percebemos porque é que o turra não lhe limpou o sebo… teve-o ali à sua mercê. Quem é ele? Nem o reconheço. É o Matos. E o que é que ele diz? O gajo não se cala. Pois não, desde que levou a cronhada nos cornos que não pára de gritar ricochete, ricochete, ricochete. Fui transportado e levado ao hospital de campanha. Por causa de uma bactéria qualquer e por causa da força do calor a ferida não queria sarar, eu acordava dos sedativos, arrancava os pensos com as minhas próprias mãos e percorria o hospital descalço e com o pijama cheio do sangue que me escorria pela face abaixo e pelo queixo e pelo peito, sempre a gritar, ricochete, ricochete, ricochete. E fosse quem fosse que se aproximasse, eu agarrava em tudo o que fosse sólido e atirava aos camaradas. Cadeiras, tigelas da sopa, daquelas metálicas, baldes, facas, era o que apanhasse à mão. Estava louco. Levei três meses a acalmar. A ferida secou, mas nunca fechou. Quando me viram mais são enfiaram-me num avião e mandaram para o Puto. Nunca mais fui à África. Eu que tinha ido por vontade própria.
– Vontade própria? Mas naquele tempo não eram todos obrigados?
– Eram. Mas calharam-me as sortes.
– As sortes?
– Sim. De tantos em tantos, uns milhares, creio eu, sorteavam um para ficar e a mim calhou-me e eu disse logo, Nem pensem que volto para a terra com a mala feita. Isso era uma desonra. Vim aqui para embarcar para a guerra e é para a guerra que vou, defender a Pátria. E sabe que mais? No fim nem um obrigado. E morreu tanto miúdo novo à minha beira. Mas, olhe, a gente também não defendia a Pátria. Defendíamos-se uns aos outros e já não era pouco.
– Posso-lhe fazer uma pergunta?
– Venha ela.
– Porque é que o senhor não parava de gritar ricochete, ricochete, ricochete?
– Ah, bem lembrado. Isso tem a ver com o início da história. Uma ocasião subimos ao Ambriz, Ambrizete, até ao nosso Congo. Era um alto, via-se o valado todo e do outro lado o Congo Belga. Assentámos arraiais e por ali estivemos uns dias a patrulhar aquela zona da fronteira. Mais tarde, recebemos ordem para descermos mais para sul mas sem ser junto ao mar, parece que havia notícia de andarem por ali os turras. Pudera! Eles andavam por todo o lado. Eu ia em cima de uma Berlier, era uma camioneta blindada muito antiga, tinha uma metralhadora rotativa lá em cima e umas proteções em ferro. De repente, saltam-nos os turras ao caminho e vai de disparar contra nós. As balas as zumbirem-me aos ouvidos e a estardalharem no ferro da Berlier. Eram mais de dez. Eu vi logo que ou era a minha vida ou era a deles e vai de abrir fogo. Caíam que nem tordos. É muito fraca a vida dos humanos. Quando aquilo acalmou, saltámos em cima deles e, para meu azar, ou para minha sorte, ao arredar o capim, sabe o que é o capim?
– Sim, é uma erva alta. Pode ser mais alta que um homem e corta como facas.
– Eh lá, como é que você sabe isso?
– Nasci em Angola.
– Ah bem… adiante… Deparo-me com uma mulher, não tinha mais que era vinte anos, levava uma criança pequenina às costas embrulhada no pano, elas só vestiam aquele pano e a criança ia entalada entre a pele dela e o dito pano. E estavam dois tipos no chão, um todo empapado em sangue, morto. O outro ajoelhou-se aos meus pés, apontava para a rapariga e dizia, Irmãos, somos irmãos, não me mate senhor! Apontei-lhe a arma, encostei-lhe o cano à testa escanzelada e gritei, Vais morrer, cabrão, vais morrer. Começou-me a cheirar a merda. Ele tinha-se borrado todo. Somos muito fracos. Somos carne muito fraca. Não valemos nada. Não fui capaz de o matar, não daquela maneira, indefeso e à frente de uma mulher e de uma criança inocente. Mas não podia dar parte fraca junto dos companheiros e tinha de o fazer prisioneiro. Virei a arma ao contrário, agarrei-a pelo cano e dei-lhe uma cronhada. Abri-lhe a cabeça toda. Quando chegaram ao pé de mim, disse-lhes que estava vivo, e devia ter sido atingido por estilhaços. Levámosios a todos. A ela soltaram-na e foi trabalhar de servir para Luanda. Ele ficou no hospital de campanha, recuperou-se e esteve por ali três meses. Ao fim de três meses, estava são e cheio de força e tinha uma cicatriz na testa que parecia a linha do comboio. Assim como esta que você aqui vê.
– Então e depois o que é que lhe aconteceu?
– A ele?
– Sim, a ele…
– Quando se sentiu com forças e quando percebeu que confiávamos minimamente nele, fugiu.
– E nunca mais o viu…
– Vi, vi… oh se vi! O tipo, às vezes, andava lá pelo quartel e o mal da cabeça, a loucura, apoderava-se de alguns camaradas que disparavam para o chão, junto aos pés dele e punham-se a gritar, Dança o ricochete, ó pá, que é uma modinha lá da nossa terra, dança o ricochete… E o pobre lá ia aos saltos a fugir do efeito das balas. Um dia chegou-se a mim e perguntou, O que é o ricochete? E eu disse-lhe, É quando uma bala bate nalgum lado e volta para a gente. E o tipo só disse, Ricochete…
– É uma história interessante.
– Ainda não acabou. Quer ouvir o resto?
– Claro.
– Um dia chamaram o nosso Alferes e deram-lhe instruções para uma missão de reconhecimento. E lá fomos, todos artilhados, armados até aos dentes com cartas de familiares, fotos das namoradas, das noivas, das mulheres, as armas e o medo. Mas aquilo que mais levávamos connosco era a desconfiança. Qualquer som, qualquer movimento suspeito e fora da normalidade ou da rotina, e desatava tudo aos tiros a denunciar posições. Às tantas, o cansaço do corpo e da alma era tanto que já ninguém fazia nada de jeito. Isto foi assim. Era noite cerrada. Íamos em formação a avançar pelo mato adentro, silêncio quase absoluto, e o filho da puta do Gomes, um tipo ali de Marco de Canavezes, com uma beata acesa nos lábios. O Antunes viu aquele descuido e foi ao pé dele para o avisar. O Gomes fez má cara e jogou a beata para longe. O Saraiva, um tipo pequenino, rijo como os cornos, e mais desconfiado sozinho que o pelotão todo inteiro, ia mais à frente e viu pelo canto do olho o lume da beata a riscar o breu. Não está com meias medidas, volta-se para trás e vai de disparar no escuro. Sabe, senhor, às vezes a sorte é mãe, outras é madrasta. Os turras estavam ali debaixo dos nossos pés… Foi um massacre. Perdi mais companheiros nessa noite do que amigos e familiares em toda a minha vida. Por entre os estrondos e os relâmpagos, fui cuspido pelo impacto de um morteiro. Caí de costas. Limpei a terra da cara deitado no chão e quando abri os olhos estava um turra de olhar fulminante, G3 apontada na minha direção, a um palmo da minha testa, tinha uma cicatriz gigantesca entre os olhos e pôs-se a gritar, Vais morrer, cabrão, vais morrer. Depois, baixou-se, puxou-me pelo pescoço, o bafo dele a aquecer-me a cara, o sangue no olhar, pensei que era o meu fim, o tipo cerrou os dentes e disse, Ricochete! Não me lembro de mais nada, senhor, nem sei quando me comecei a lembrar… sei que durante muito tempo gritei aquela palavra como quem expulsa um demónio, como quem expia um pecado. Sabe, senhor, a minha vida tem sido errante como uma bala perdida e nesse dia fez ricochete na morte e voltou para este mundo.  Ainda hoje não sei o que me salvou. Foi uma espécie de milagre. A gente dá e vem a receber, um olho por um olho, um dente por um dente e às vezes, senhor, uma vida por uma vida.

***

Nunca mais vi o senhor Matos. Não sei o que foi feito dele. Sei que aprendeu a nossa fragilidade e a nossa errância. Aprendeu a vulnerabilidade da nossa existência. Uma existência à mercê de ricochetes e bafejada por milagres. Pequenos milagres de dar e receber.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

4 thoughts on “Pequenos Milagres – Ricochete

  1. Obrigado pelo seu comentário, caro Anónimo. Sim, um pequeno gesto pode gerar um grande ricochete! Volte sempre. jpv

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  2. Se cada ação provoca uma reação, nem todas as balas fazem ricochete. Na maior parte dos casos são aquelas ações quase inconscientes, que pensamos sem grandes consequências, que acabam, por vezes anos ou décadas depois, por produzir esse efeito tão misterioso.
    Nesta história, aliás muito bem relatada, foi um gesto que poderia ter sido considerado como cobardia que produziu esse ricochete algum tempo depois.
    Pequeno milagre da vida, grande milagre de uma vida.
    Gostei muito.

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  3. Mil obrigados, ISA E.
    Eu acho que entre os ricochetes sobram para nós algumas oportunidades de dar e receber.

    Agradeço seu comentário e seu carinho que retribuo!

    jpv

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  4. João,
    Que texto comovente, belíssimo mesmo, meu amigo!
    Estamos à mercê dos ricochetes, de dar e receber pequenos milagres…
    Acho que grande parte da beleza e poesia dessa nossa vida está nessa possibilidade, de que o inexplicável possa ser compreendido e que detenha também os seus motivos.

    Um beijo!

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