Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Motorcycle Chronicles – Wireless Connection

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Wireless Conection

Ele batia-lhe. Era violento. Começara por uma coisa de nada, uma discussão ridícula. Dera-lhe um estalo. Ela não reagiu. Como costumavam fazer jogos de submissão na cama em que ele a esbofeteava como ato de incitação, como ela sempre permitira isso, ainda que não gostasse muito, confundiu aquela chapada com as outras. E foi por isso que não reagiu. Ele gostou de bater-lhe e sentiu um poder e uma força especiais pelo facto de ela não reagir. Era homem. E foi por isso que lhe assentou a mão de novo. Com força! Ela caiu de costas, desamparada. Ficou no chão a olhá-lo, incrédula, as lágrimas a surgirem-lhe nos olhos, a blusa desalinhada, a saia de seda a subir-lhe pelas pernas. Ele sentiu-a fraca e deu-lhe um pontapé forte na coxa mais próxima. Tombou sobre ela, aplicou-lhe uma sucessão violenta de chapadas e depois violou-a.

Ela quis queixar-se. A família culpou-a imediatamente. Desvalorizou o que ele pudesse ter feito, Não estás marcada, se ele foi assim tão violento, onde estão as marcas? À polícia não quis ir por vergonha. Depois iam pedir-lhe que mostrasse o corpo, pensou, e isso não queria suportar. E, a verdade, verdadinha, é que o trabalho dela era um part-time de demonstração e venda de conexões Internet e mal dava para os seus extras. O seu verdadeiro sustento e o dos dois filhos era o trabalho dele. E assim, de chapada em chapada, de pontapé em pontapé, de agressão em agressão foi aguentando. Acreditava que, com a idade, ele acalmaria, acreditava que, em crescendo os filhos, ele teria de parar. E, por isso, foi suportando e foi rezando para que acontecesse menos e para que, quando acontecesse, ele se saciasse e passasse depressa. Nem chegava a perceber as razões. Já lhe tinha batido por tudo e… por nada. Porque discordavam num assunto da educação dos filhos, porque a comida estava insossa, porque ela se atrasara no trabalho, porque um dos miúdos tinha tido negativa a português, porque o resultado da bola tinha sido desagradável, porque o sexo fora mau… e, o curioso, nisto dos comportamentos humanos, é que, quanto mais a agredia, mais lhe apetecia agredi-la. É estranho, o ser desumano. Não se sacia com a violência. A violência tem um fermento de crescimento, tem um adubo e um fertilizante e é autofágica, alimenta-se de si própria e quanto mais se devora, mais cresce.

Estava exausta. Nesse dia tinha caminhado vários quilómetros a bater de porta em porta tentado vender excelentes pacotes de Internet que ela nunca vira a funcionar a não ser nas breves formações que recebera. Chegara a casa, passara uma parga de roupa, fizera o jantar, recebeu os miúdos e tratou deles e quando ele chegou, percebeu que vinha zangado com a vida. A noite ia ser das más. Tentou ser carinhosa com ele. Por vezes, raramente, funcionava:
– Que tens, meu amor, pareces tão tenso…
– O que tenho é que o Teixeira ficou com o prémio de desempenho que era para mim, é o que tenho…
– É uma injustiça, tu esforças-te tanto…
– Sim, claro, e sabes porque é que o perdi? O meu chefe diz que chego atrasado de manhã e sabes porque é que chego atrasado, sua vaca inútil, é porque em vez de uma mulher, tenho em casa uma vaca que não é capaz de preparar um pequeno almoço a horas!
– Mas eu…
Já não acabou a frase. Segurou-a pelo pescoço, encostou-a à parede e sufocou-a. Ela não resistiu. Os miúdos não saíram do quarto. Ela os ensinara a agirem assim. Quando ela estava a ficar lívida, ele soltou-a e ela tremeu das pernas e ia a cair, mas ele teve-a de pé por um braço. Estás fraca, cabra? Estás fraca? É por isso que não fazes a merda do pequeno almoço a horas? E, com um braço lhe segurava num braço e com o outro a ia esbofeteando por onde a apanhava, na cara, na cabeça, uma ou outra no queixo e no pescoço e quando estava cansado do braço, usava os pés e pontapeava-a no rabo e nas coxas e nas pernas. Por fim, quando a sentiu completamente vulnerável, deu-lhe um pontapé pelos pés, ela caiu desamparada, bateu com a cabeça numa mesinha e fez um corte por cima da orelha. Já sentiu pouco. Sentiu o calor da proximidade dele e o ritmo balanceado de uma cópula indesejada e violenta. Ficou no chão da sala. Quando acordou, ele estava a comer na cozinha. Ela levantou-se, foi à casa-de-banho, lavou-se, colocou uns cremes para atenuar as nódoas negras pelo corpo e enfiou-se na cama. Não o sentiu chegar.

A manhã está límpida, o sol cristalino oferece promessas de vida e ela caminha pelas ruas sem fé nem esperança. Revê a noite anterior. Repensa a sua vida, mas sente-se completamente encurralada. Nada no seu horizonte lhe traz qualquer esperança. Manteve-se assim o quadro cinzento da sua vida e da sua mente até que bateu à porta de Robert Flaherty.
– Bom dia, posso tomar-lhe um minuto?
– Não preciso de nada, obrigado…
E estas palavras simples e educadas, considerando a generalidade das respostas que recebia, Não quero nada disso; Desaperece, vai mas é trabalhar; Parasita, faz qualquer coisa de útil; soou-lhe agressiva e rompeu num choro convulso, os seus limites estavam todos ultrapassados, precisava de ajuda e não sabia como pedi-la. Robert percebeu de imediato que algo muito grave se passara e percebeu também a contusão por cima da orelha, estendeu-lhe uma mão, ela colocou a sua mão frágil na mão forte dele e essa força começou, de imediato, a passar. Entre, ela entrou, ele fechou a porta e disse-lhe, A vida tem-na tratado mal… desabafe, acho que é o primeiro passo, diga tudo… deite tudo cá para fora. Ela não disse uma palavra. Fez-lhe um gesto para ele se sentar. Robert obedeceu. Depois, lentamente, de frente para ele, foi tirando a sua roupa toda. Primeiro a blusa, depois descalçou-se, depois a saia, depois as meias-calças, depois a camisola interior, depois o sutiã, depois as cuecas e por fim, encolheu os ombros e deixou os braços caídos à frente do corpo com as mãos a taparem envergonhadamente o púbis. Por fim, disse, É o meu mapa de dor. Robert estava estupefacto. Era brutal o que tinha na sua frente, pensou em mil e uma soluções, foi-lhe dizendo cada uma das coisas que podiam fazer e ela foi negando cada uma até que disse, Ajude-me a mim, eu sou o mal, eu preciso saber lidar com isto, não sei como, não tenho perspetiva, há muito que a perdi. Robert pensou durante uns minutos e depois disse-lhe, Acho que lhe falta liberdade, acho que está demasiado agarrada a essa dor e a quem a causa, está a ver essa Internet que vende, uma liga-se por cabo e outra é wireless, o que a sua mente precisa é de uma conexão wireless para a liberdade, venha comigo.

Ajudou-a a vestir-se. Emprestou-lhe um blusão de cabedal que lhe ficava enorme, mas ela gostou da sensação de proteção, desceram à cave, colocou-lhe um capacete, apontou para o banco da moto e disse, Sente-se aí! Ela quis dizer que tinha medo, mas tinha o capacete na cabeça e, por outro lado, o que quer que fosse que aí viesse, seria melhor do que a noite anterior. Ele subiu para a moto de alta potência, puxou-lhe as mãos para a sua cintura mostrando-lhe onde e como se devia agarrar e saiu para a cidade, percorreu o esquadrinhado das ruas, saiu para o campo e dirigiu-se para o mar. Percorreu quilómetros sem fim pela estrada que acompanhava a falésia e o mar, ia-lhe apontando o sol rebrilhando na água, mostrou-lhe as gaivotas a pairar sobre a rebentação e acabou entrando com a moto pela areia, mesmo junto à água. Parou para tirarem os capacetes e depois continuaram a rolar junto ao mar recebendo os salpicos da água na face. Por fim, pararam e ficaram sentados na areia a olhar a rebentação. Muito tempo depois, ela disse, Não sabia que a vida podia ser assim. Claro que não, por isso é que se deixou subjugar. Liberte-se! Precisa de conectar-se com a liberdade e depois saberá o que fazer. Para tudo na vida há uma conexão wireless! Robert fez o caminho de regresso usando o mesmo traçado. Ela usou esse tempo para pensar. Sabia que a lição dele era preciosa, só não sabia como se adaptaria à sua realidade e ficou matutando nisso quilómetro atrás de quilómetro. Quando chegaram, ela perguntou, Mas afinal já tem Internet, ou não? Sim, e estou bem servido. E foi aí que ela começou por surpreendê-lo. Posso usar a sua Internet? Claro que sim.

Saiu à rua e só via a luz do sol e o brilho do mar à sua frente. Passou pela farmácia, dirigiu-se a casa, não ia feliz, mas ia entusiasmada. Nesse dia recebeu os miúdos como sempre, preparou o jantar com especial carinho e dedicação, e quando o marido tombou morto no final da refeição, ela não se surpreendeu. Telefonou para as urgências, fez um ar muito triste e chorou muito, convulsamente, e no funeral, dois dias mais tarde, fez o mesmo papel, estava tão habituada a chorar para que lhe não batesse mais que não lhe custou a parte do choro. Coitadinha, fica desamparada, o que foi que o levou? Não sei, não sei, jantou tão bem, estava tão satisfeito e de repente tombou para a frente e desfaleceu, os médicos dizem que foi uma paragem cardíaca.

A moto rola e leva consigo Robert e a sua companheira. É uma moça viúva que em tempos foi vítima de maus tratos domésticos. Robert nunca lhe perguntara, mas naquela tarde, de frente para o mar, não resistiu, Afinal, ele morreu de quê? Ela sorriu ao horizonte e sem tirar de lá os olhos embevecidos e a alma livre, disse-lhe, Deu-lhe uma wireless conection!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

One thought on “Motorcycle Chronicles – Wireless Connection

  1. É uma tragédia em muitos sentidos e um sucesso relativo. Imagino dificilmente, no entanto, viver com a consciência das suas personagens… a que resta e o que já não é.

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