Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

A Paixão de Madalena – Capítulo 8

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A Paixão de Madalena

Livro I – A Paixão de Madalena

8. Teve o Criador suas próprias e indiscutíveis razões, seus intrínsecos e justificadíssimos motivos, para ter criado as coisas como as criou, para ter criado o Universo como o criou. Quem sabe se, em vez de seis dias, tivesse levado duas semanas ou três, não teria tido outro tempo para refletir na obra, para limar arestas e imperfeições que, reconhecidamente as tem, não obstante suas inegáveis maravilhas. Uma coisa é certa, contas não tinha de as prestar a ninguém porquanto foi operário, capataz, engenheiro e arquiteto de todo o projeto. E talvez por isso, por falta de entidade reguladora e fiscalizadora, ficou a obra com evitáveis falhas no acabamento geral. Excesso de montanhas nuns locais e falta delas noutros, excesso de frutos em certas zonas e falta deles noutros, muito sol, a queimar e a abrasar, em certas regiões e míngua dele noutras onde bem vindo seria e, mais grave, por de essencial elemento se tratar, abundância de águas em certas paisagens e confrangedora falta delas noutras. E é por isso que andam os homens e as mulheres em canseiras infinitas que por vezes resultam em querelas, lutas e guerras onde prolifera o pecado, tentando remediar a divina falha ou imperscrutável determinação. Dê-se o benefício da dúvida ao Criador, não só por ser quem é, mas ainda porque, em certas situações, têm estas dificuldades levado a que os homens e as mulheres revelem o que de melhor existe no seu âmago, as suas mais nobres virtudes, divinas também, porque emanadas do mesmo Deus. Assim nos parece que aconteceu, salvo grosseiro erro de avaliação, com Kyle e Madalena.

É uma torre de ferro a emergir de um camião e a procurar o céu. Os naturais dali fugiram para longe e sábia escolha foi essa porque daqui por momentos tudo jazerá pelo chão. Queixam-se daquele barulho que veio incomodar os espíritos e queixam-se daqueles golpes nas entranhas da terra. Acordarão quem adormecido deveria ficar e estão a rasgá-la onde deveria permanecer cicatrizada de feridas antigas. Ainda assim, do mal o menos, nas conversações com o chefe e o feiticeiro da tribo, com a promessa de que se encontraria água para mitigar a sede de animais humanos e não humanos, lá se conseguiu acordo para furar ali. É um camião antigo, da segunda guerra, foi adaptado e tem uma torre de ferros e correntes a subir e a descer empurrando as brocas gigantescas que martelam, que rodam e perfuram à procura de um líquido precioso. Se fosse petróleo o motivo desta busca, outros e melhores meios haveria, mas andam assim as prioridades das gentes e é com elas que temos de viver. Buscam água! Uma broca encravou, Kyle, que estava manobrando a máquina, teve a tentação de não forçar, mas o tempo estava-se esgotando, as pessoas desfaleciam desidratadas, os homens cada vez mais picavam o pescoço das vacas extraindo sangue para matar a sede e alimentar uns quantos, e ele forçou, a broca persistiu e rasgou a pedra, encontrou uma bolsa de gás, não deveria estar ali, mas, como já se disse, imperscrutáveis são os desígnios do Senhor, não era muito o gás, mas o suficiente para empurrar aquela secção da broca uns metros para trás e, sendo ela de ferro e rígida e obediente às leis da física, empurrou a secção atrás de si que empurrou a secção atrás de si e criou-se uma reação em cadeia que rebentou nas mãos de Kyle. Ele lembra-se de ver o ferro emergir, como se nascesse do chão, o que seria natural pois que lá fora plantado, e a coluna assente em cima do camião recebeu aquele metal e a aquela força incontrolável e despedaçou-se em migalhas de nada em menos de um átomo de tempo. Kyle foi projetado pelo estremecimento do ferro e pelo impacto do gás chegando à superfície. Caiu a uns metro dali, pedaços de ferro o acompanharam e houve mesmo um extenso segmento de uma broca que se deitou com estrondo a seu lado, uma nuvem de poeira, ao longe as gentes a levar as mãos à cabeça e a gritar como se de morte de homem se tratasse, mas, felizmente, não morreu ninguém. Chegaram socorros que o levaram, Madalena acorreu à tenda de campanha destinada à enfermaria e percebeu que tinha sido maior o susto que o estrago.
-Estás bem?
-Estou, mas perdemos umas semanas de trabalho…
-Merda… Que se pode fazer?
-Recomeçar.
-E tens forças para isso?
-Sabes, miúda, as grandes desgraças têm uma vantagem…
-E qual é ela?
-Qualquer solução serve para recomeçar!

Para que servem os amigos? A pergunta teve já infinitas respostas e explicações e só uma faltou aduzir. Os amigos servem para ser amigos. E foi através de um amigo que tinha um amigo que Kyle percebeu como poderia realizar o desígnio de ir para África. Integraria uma missão da Cruz Vermelha no Quénia. Na inóspita região de Wajir, junto à Somália, a terra secava estéril e as pessoas morriam com ela. A Cruz Vermelha construíra um acampamento de campanha e estava a fornecer cuidados médicos, a providenciar alimentos, a erigir um posto de saúde e uma escola. Acontece que a água naquela região não tinha meio termo. Faltava durante meses, anos a fio, e depois desabava em torrentes de levar tudo na frente, arrasar terras, construções e vidas, de deixar um rasto de destruição sem que houvesse tempo para se beber um gole dela. A terra sugava-a, sedenta que estava do líquido da vida. Era preciso gente para ajudar a abrir furos de água e o facto de Kyle saber manobrar as máquinas era habilitação suficiente. A ajuda de Madalena seria com os cuidados pessoais, gerir e administrar medicamentos, racionar e providenciar alimentos, organizar a distribuição das roupas que ali chegavam por doação. O único problema era Mariana. Os responsáveis pela instituição e pelas missões consideravam que o ambiente era demasiado agressivo e muito pouco adequado para uma criança tão pequena. Madalena e Kyle assinaram um termo de responsabilidade e deixaram um contacto local de alguém que resgataria a menina caso algo corresse mal. Albertina! Foram muito claros com eles. Explicaram-lhes toda a vacinação que teriam de fazer, a profilaxia da malária, as consequências de ambas, o facto de terem de estar conscientes que as condições de vida eram adversas e que eles estariam lá para ajudar e não para constituir um problema, que o fariam gratuitamente, a troco de alojamento no acampamento, uma verba mínima para as necessidades do quotidiano, alimentação e cuidados médicos básicos, caso necessitassem deles. Ao cabo de três reuniões, quando julgavam que Kyle e Madalena iriam agradecer a informação e declinar a participação no projeto, os olhos dos seus interlocutores abriram-se de espanto:
-Certo. Onde é que assinamos? É isso mesmo que queremos.

Decidiram levar pouca coisa. A mala mais volumosa transportava tudo o que seria necessário aos cuidados com Mariana. Para eles, somente algumas roupas, umas interiores e as outras escolhidas com um critério único: serem confortáveis e práticas. Por vezes, a vida prepara-nos a mente e o corpo para o que nos espera. E essa é uma preparação natural, mas fundamental à nossa perceção da realidade e ao nosso compromisso para com os projetos e situações em que nos metemos por mão e pé próprio. Vem isto a propósito da viagem. Se fosse fácil, rápido e cómodo chegar de Genebra a Wajir, talvez não fosse preciso ir de Genebra a Wajir e, se fosse, que valor dariam os viajantes à chegada tendo ela sido fácil e rápida? A viagem que fizeram, por nunca mais ter fim, fê-los perceber, de imediato, que, se alguém se dava ao trabalho de passar por aqueles trabalhos e canseiras até lá, onde esperavam por eles, então é porque deveriam ser mesmo muito necessários. E eram. O vôo de Genebra para Londres foi uma entrada, como dizem os franceses, um amuse bouche, nem deu para perceber que estavam em viagem. A ligação entre Londres e Nairobi exigiu um pouco mais de paciência, uma noite inteira num espaço reduzido, ainda assim, no ambiente confortável e controlado do avião onde sempre há essas meninas com um lenço ao pescoço oferecendo uma bebida. No aeroporto de Nairobi, e uma vez despachado o ritual de mostrar passaportes, confirmar vistos, fazer assinaturas, pagar sem saberem bem o quê, fintar um polícia teimoso com argumentos duvidosos, esperar pela mala que não vinha, foram recebidos por assinalável comitiva. Um homem alto e magro, de poucas palavras, enfiado em vestes brancas e um lenço dessa mesma cor enrolado à volta da cabeça. Nunca souberam como os reconheceu, souberam só que estavam em guerra aberta com as malas e os sacos, ele aproximou-se com três ou quatro miúdos à sua volta que pegaram nas malas e nos sacos e desapareceram com eles e quando Kyle se preparava para gritar a chamá-los, o homem alto disse:
-Bom dia. O meu nome é Munir e sou o vosso guia. Os senhores são o casal McKenzie, certo?
-Certo. Como soube?
-Soube. Acompanhem-me, por favor.
Não lhes perguntou que línguas falavam, não fez mais apresentações, não disse da parte de quem vinha, nem confirmou para onde se dirigiam, falou num inglês de pronúncia arrastada, mas perfeitamente percetível e limitou-se a dizer o seu nome e a pedir-lhes que o acompanhassem. Madalena e Kyle trocaram um olhar, sabiam que podiam estar a ser enganados, mas a verdade é que confiar nele não era uma opção, era uma obrigatoriedade. Confiaram. Conduziu-os até junto do carro onde iriam viajar, era uma carrinhapick-up branca de marca Toyota, suficientemente antiga para se antecipar uma viagem desconfortável. A generalidade das peças já deveria ter sido reformada, havia ferrugens, partes presas à carroçaria com arames e bancos de napa rasgados onde passava a linha que os cosia. Fazia um barulho como quem pede perdão e deitava mais fumo que algumas das fábricas nos arredores da Capital. As malas estavam na caixa e a lona que a cobre puxada para trás. À volta da carrinha, os miúdos vigiavam. Munir puxou a lona e atou-a. No fim, chamou um dos miúdos e deu-lhe umas quantas moedas, ele saiu a correr, olhando as moedas, com os outros saltando à sua volta. O carro tinha três lugares à frente. Munir conduzia, Kyle cedeu o lugar da janela a Madalena por ter um pouco mais de espaço e encolheu-se no banco do meio. Para engrenar as mudanças, a mão de Munir tinha de bailar entre as suas pernas. Deve ser por pouco tempo, pensou. Enganou-se. Seria um calvário. Munir conduzia com precaução. A estrada era composta sobretudo por retas infindáveis, mas o pavimento estava num estado lastimável. Semeado de buracos pequenos, médios e grandes por todo o lado, obrigava a um ritmo muito lento de progressão. Em muitos troços, o alcatrão simplesmente desaparecia engolido pelas águas, pela areia, pelo mato, pela falta de manutenção. Foram forçados a paragens diversas para comer, para se aliviarem das humanas necessidades, para cuidar de Mariana. Munir foi paciente e só mostrava alguma contrariedade quando era forçado a parar por causa da menina. Lia-se-lhe no olhar que considerava a vinda da bebé para aquelas paragens uma loucura rematada. Quando paravam para comer, Munir providenciava água potável e uma espécie de pão barrado com gordura. Madalena distribuía bolachas que trouxera na mala. Na primeira vez que puxou do pacote, ofereceu a Munir. Não, obrigado. Isso tem açúcar. Açúcar faz sede. Sede obriga a gastar água. Madalena resolveu não calar-se, Sim, mas o açúcar alimenta… Munir não respondeu. Sempre que lhe perguntava se ainda faltava muito, e perguntaram-lho diversas vezes, repetindo-se a pergunta em intervalos de tempo menores à medida que o dia avançava, Munir dava a mesma e invariável resposta, Está quase! O sol abrasou a estrada e o carro sem ar condicionado ao longo de todo o dia, as janelas iam abertas, mas o ar que circulava era quente, o horizonte ficava trémulo à vista como quando olhamos por cima de uma panela a ferver, de Nairobi a Garissa percorreram quase quatrocentos quilómetros e precisaram de oito horas para fazer um percurso que, em condições normais demoraria metade desse tempo. Já não havia como abastecer de combustível, estava tudo fechado, e Munir não quis gastar os vinte e cinco litros que levava num jerrican na parte de trás da carrinha. Ordenou que fechassem as janelas e foi assim que atravessou a cidade. Tinham-na deixado para trás há cerca de quinze minutos, quando Munir saiu da estrada, parou junto a uns arbustos e anunciou em tom seco, Pernoitamos aqui. Foi à caixa da carrinha, tirou de lá um volume grande e pesado e foi à frente da luz amarelecida dos faróis que armou uma tenda de campanha. Estendeu umas esteiras e umas mantas por cima delas e convidou-os a descansar. Ainda falta muito? Está quase!
O dia vinha lá longe, a noite ainda cobria a terra mas o seu negrume começava a alegrar-se lá muito ao fundo. Madalena sentiu restolhar, levantou-se e percebeu que o guia já tinha café ao lume. Sentou-se junto ao tripé de ferro. À sua volta, o som dos insetos, o crepitar das brasas, o odor do café, o silêncio escuro e fundo de África. Sentiu-se pequenina. Munir aproximou-se e disse-lhe em tom sereno, mas absolutamente convicto:
-Beba. Já está pronto e vai fazer-lhe bem. Reconheço-lhe a coragem, sabe, mas tenho de ser honesto consigo. Esta terra é exigente. Não tente mudar isto, antes de dar por ela, estará a senhora mudada. Adapte-se já que cá está, mas assim que puder tire essa criança daqui e vá com ela.
-Quase me assusta e olhe que eu não sou de assustar-me. Eu venho preparada para dificuldades, é por isso que cá estou, mas o seu discurso…
-É realista!
-Veremos.
-Veremos.
Estava um lusco-fusco raiado de laranja, mais parecia o pôr-do-sol, quando saíram. Voltaram a Garissa. Munir abasteceu de combustível, água e alguns mantimentos. Nunca lhes perguntou se queriam alguma coisa, mas nunca lhes faltou com o básico. Depois rumaram em direção a Dadaab. O trajeto foi muito menor do que o do dia anterior, cerca de cento e vinte quilómetros e três horas aos solavancos e a fintar buracos no alcatrão quando o havia. Cruzaram a cidade em ritmo lento e à sua saída, pela primeira vez, Madalena e Kyle perceberam que haveria ali muito trabalho a fazer. Ao abandonar a cidade, cruzaram o campo de refugiados de Ifo e uns quilómetros mais à frente o de Dagahaley. Eram filas intermináveis de tendas em pano branco arredondadas, levavam quatro pessoas, mas chegavam a ter vinte a pernoitar lá dentro, o lixo amontoava-se a cada esquina, as pessoas estavam famélicas, algumas desfaleciam, a água era escassa, os alimentos quase não existiam. Muitas mulheres prostituíam-se por um pouco de comida e as doenças de toda a espécie cresciam e galgavam terreno todos os dias. As ruas dos campos eram em terra batida e aqui e ali viam-se carros brancos com as letras azuis da ajuda humanitária da ONU. O primeiro estava à pinha, as mulheres e as crianças encostadas à rede estendendo as mãos e falando, gritando. Percebia-se que queriam algo, não se percebia o quê. O segundo pareceu mais desafogado de gentes. Quando viu uma ambulância da Cruz Vermelha, Madalena perguntou:
-São estas pessoas que vimos ajudar?
-Não. Vocês vêm ajudar quenianos.
-Estas pessoas não são quenianas?
-Claro que não! Os quenianos são livres. Têm outras prisões, mas não em rede e arame farpado. São refugiados da Somália. A guerra civil está a ficar cada vez mais acesa e eles fogem e vêm para aqui. O primeiro campo que viu já está funcional há um ano, daí estar completamente cheio. Este aqui, o de Dagahaley, tem meia dúzia de meses. Em breve estará como o outro. Todos os dias chegam milhares de pessoas. Estas pessoas não têm nada. Não têm pátria, não têm terra, não têm comida, não têm roupas decentes, não têm dignidade, até isso lhes roubaram…
-Também podíamos ajudar…
-Lembra-se do que lhe disse esta manhã? Um dos truques para resistir aqui é concentrar-se em objetivos muito concretos e muito pequeninos. Podem parecer-lhe insignificantes a si, mas garanto-lhe que fazem toda a diferença para quem recebe a ajuda. Deixei-se de grandes cometimentos e heroísmos descabidos. Isso só vai trazer-lhe frustração e desespero. Resolva as pequenas coisas do dia a dia.
-Seguirei esse conselho. Ainda falta muito?
-Está quase!
Entre Dadaab e Wajir rolaram mais de duzentos e cinquenta quilómetros, as condições da estrada agravaram-se, a paisagem verde do sul do país foi desaparecendo e dando lugar a um terreno árido e amarelo e cada vez mais arenoso. Isto que agora observavam era uma paisagem seca e estéril. Procurar água aqui fazia todo o sentido. Foram precisas quase sete horas para fazer esse troço. A certa altura, o insólito. A estrada tinha ficado estreita, o sol queimava, não se avistava vivalma em nenhuma direção ou distância que o olhar alcançasse, de repente, sem se saber donde, surge um rebanho de cabras magras atravessando a estrada. Munir abranda primeiro e depois para. Atrás das cabras, da nuvem de pó que faziam, emerge um pastor esguio, com o corpo pintado, colares pendendo no peito, roupas parcas confundindo-se com as pinturas na pele. Numa mão um cajado e na outra um rádior transistor gritando uma melodia fanhosa que cortava o ar. Passaram em cortejo. Primeiro as cabras, depois ele e a música. Madalena e Kyle sorriram e ela não se conteve, Que é, todos nós temos direito a um som! Kyle, que preferira quase sempre o silêncio naquela viagem, desafiou-a, Ainda consigo imaginar que ele arranjasse um rádio, o difícil é perceber quem é que está a emitir nesta terra inóspita. Wajir era aquilo que Madalena relembrará para sempre como o fim do mundo. Uma cidade. Enfim, tinha o estatuto de cidade. Era um casario pequeno e baixo de madeira e bairros de lata a conviver com algumas ruas largas e meia dúzia de casas grandes. Não se via ninguém nas ruas, as pessoas fugiam do calor intenso, Mariana queixou-se muito, Madalena embebia fraldas em água e colocava-lhas sobre a face e os bracinhos. Munir cruzou a cidade devagarinho. Parou à saída, junto a um casario baixo de terra. Conversou com um homem vestido como ele, apontou o horizonte e o relógio e regressou. Não disse nada. Kyle, sempre paciente, sofrera de dores nas últimas horas, tomara analgésicos às escondidas de Madalena para não a preocupar, mas ficou intrigado quando percebeu que Munir ia continuar a conduzir.
-Desculpe, senhor Munir, mas não chegámos já a Wajir? É aqui que vimos trabalhar, certo?
-Certo e errado. Vocês vêm trabalhar no distrito de Wajir, mas não na cidade. Agora é preciso levá-los até ao acampamento, mas essa não será a minha função. Eu fui contratado para trazê-los até aqui de carro e em segurança. Daqui em diante não é comigo é com outras pessoas. Já tratei de tudo.
-É com quem? Precisamos saber. Temos o direito de saber.
-Sim. Suponho que sim, mas de que lhe adianta saber? Porque querem vocês saber sempre tudo, controlar sempre tudo? Já lhe disse que está tudo tratado. Chegará em segurança ao acampamento da Cruz Vermelha. Pode-se ir com um 4×4, mas eu não tenho um e o esforço do carro seria muito maior do que o dos animais, além de que o trilho para veículos é muito maior e mais demorado…
-O quê? Animais? Que animais?
-Camelos. Amanhã de manhã.
-Nem pense nisso.
-Está bem!
-Hã?! Madalena, vou já resolver isto…
E saiu do carro e dirigiu-se ao casario onde estava o outro homem vestido como Munir e chamou e bateu às portas e fez barulho. Nada. Nem ninguém. Insistiu tanto que o tal homem apareceu. Foi uma tentativa inglória de conversação. Foi um desespero. Nem o outro percebia Kyle, nem Kyle percebia o outro. Só lhe percebeu uma palavra. É que ele, pelo meio do que dizia na língua em que sabia dizê-lo, acrescentava sempre mai freeendarticulado como ele sabia e um tanto diferente de como Kyle o diria, mas percetível, contudo. Kyle regressou ao carro e parecia um pouco mais resignado quando perguntou:
-Então e agora?
-Agora vou montar o acampamento, vão descansar, pela manhã faço café, aquele mesmo homem vai ter connosco onde estivermos acampados, segue convosco para o acampamento da Cruz Vermelha e eu regresso à minha vida.
-E o que é a sua vida?
Munir fez um ar sério, como se fosse um homem mau, franziu o sobrolho, e disse:
-Eu sou assassino profissional…
Kyle estremeceu, fez-se encarnado, Madalena percebeu e percebeu que ele não tinha percebido a brincadeira:
-Está a meter-se contigo!
Kyle olhou-o nos olhos, fez um silêncio e depois desabou a rir…
-Agora enganei-te, mai freeend!
E voltaram a rir. África era uma surpresa a cada minuto. Um esplendor e uma riqueza. Uma preocupação e uma miséria e estes antagonismos, por vezes, conviviam lado a lado. Estavam a andar de carro há dois dias e já parecia que viviam no grande continente vermelho há dois anos. E foram precisos dois dias para andar cerca de setecentos quilómetros. A Suíça não tinha aquela distância em toda a sua largura e era mais perto ir de Genebra a Paris do que de Nairobi a Wajir. Mais perto e mais fácil. Tudo em África se tornava relativo aos seus olhos. E ainda nem tinham chegado ao local que os esperava, ainda não tinham começado a trabalhar. Amanheceram com o ritual do café. A luz começou a despontar e depressa viram chegar uma caravana de camelos. Só dois montados. Havia mais uns cinco sem nada nem ninguém em cima. Não foi difícil perceber para o que seriam. O homem que vinha à frente tirou as coisas deles da carrinha e amarrou-as a dois camelos. Deram-lhes instruções sobre como montar, onde se agarrarem e como preservarem o equilíbrio. Ensinaram Madalena a transportar Mariana envolta num pano pendurado no seu pescoço. Caminharam por trilhos de rocha, de terra, e de areia, sempre com pouca vegetação. Não era uma areia solta e fina como a do deserto, era mais uma terra que se havia esboroado com o vento do tempo e agora impedia veículos motorizados de circular por ali. A viagem foi incómoda e cansativa. Madalena e Kyle ansiavam um banho, roupas lavadas e, mais do que qualquer outra coisa, uma cama. Ao cabo de duas horas naquilo, viram ao longe o que parecia um poste, ouvia-se um som metálico e um ruído de ar comprimido. Pouco depois, já dava para perceber que não era um poste era uma torre de suspender brocas de perfuração que estava assente num camião mais antigo do que o tempo. Kyle percebeu de imediato que, o que quer que fizessem ali, era muito rudimentar, quase inglório. Nos seus tempos de rancho e máquinas para homens de barba rija, quando passeava com Malte, o garanhão, pelas ruas e bebia cerveja a meias com ele, aprendera, por curiosidade, a manobrar uma máquina de perfuração, mas nenhuma que cuspisse vapor por cima e óleo por baixo. Isto vai ser lindo, pensou. A máquina martelava e empurrava a broca com esforço, três ou quatro homens corriam à volta dela em tarefas pequenas, mas urgentes, junto à torre e ao painel de comandos, quase desfeito, estava um tipo de estatura média, cabelo curto e ralo, barba cerrada e por fazer, vestia uns calções de safari, uma t-shirt branca e um colete na mesma cor e material que os calções. Dos bolsos do colete pendiam chaves de ferramentas de todas as espécies e feitios. Tinha um chapéu de aba na cabeça, tirou-o, segurou-o com a mão e acenou com ele na direção de Kyle:
-Eh lá! Bom dia! É você o tipo que percebe de máquinas?
-Quer dizer, mais ou menos, eu manobrei umas quantas e quando me inscrevi para a missão disseram-me que era só para isso mesmo… manobrar…
-Sim, mas isso foi antes do tipo que a trouxe ter abalado daqui para fora… desentendeu-se com o soba… e adoeceu.
-Desentendeu-se com quem? E é grave?
-Sei lá, o tipo estava bem e de repente ficou com sintomas parecidos com os da malária… o importante é que preciso de si. O soba… depois explico-lhe…
À medida que Kyle se aproximava, deixaram de gritar e foram falando em tom mais brando e quando chegaram a cumprimentar-se falavam já como dois cavalheiros:
-Bom dia, Kyle McKenzie.
-Bom dia, Mark Merrit.
-Aquelas são a Madalena e a Mariana…
-Que loucura trazer para aqui crianças…
-Uma delas é minha mulher. A outra…
Kyle hesitou um segundo e completou com firmeza e convicção na voz:
-A outra é a nossa filha.
-Em todo o caso é precisa muita coragem.
-Disso, nós temos.
Fez-se um breve silêncio enquanto Kyle olhava em volta e foi Madalena que, lá de cima do camelo, com uma mão atravessada a proteger a vista do sol, estranhou:
-Onde estão os outros?
-Quais outros?
-Nós viemos ajudar populações, no plural…
-Ah, esses outros! Não vivem aqui.
-Não vivem aqui? E vocês andam a procurar água longe de onde eles vivem?
-Longa história, Madalena, longa história.
-Não tem uma versão curta?
-Claro… nem vale a pena maçá-la com muito. Repare, o facto de virmos em missão gera em nós, por vezes, certa arrogância, não propositada, bem entendido, de acharmos que sabemos o que é melhor para as pessoas. Ora, ajudar, jovem Madalena, não é proporcionar às pessoas aquilo que nós pensamos que elas precisam, é dar-lhes aquilo que elas pensam que precisam…
-Mas toda a gente precisa de água!
-Correto. Toda a gente precisa de água, mas não a qualquer preço. E aquelas pessoas que vê ali atrás têm fé e têm crenças, tal como nós temos as nossas. Só não são as mesmas que as nossas… Aquelas pessoas desconfiam do que estamos fazendo porque estamos rasgando a terra, ou seja, fragilizando o suporte de nós e de toda a vida, aquelas pessoas desconfiam da nossa capacidade de conseguir água e até da legitimidade da água que conseguirmos porque acreditam que, se os deuses quisessem que a tivéssemos, tê-la-iam enviado sem custo…
-Mas se a encontrarmos consomem-na…
-Só lhe lha oferecermos. Assim, o pecado de a roubar à terra é nosso, a eles cabe a responsabilidade de aceitar uma oferta… só isso…
-E por isso quiseram ficar distantes do furo…
-Sim. Mas não só do furo. Eles não permitiram que o nosso acampamento ficasse próximo dos deles. Nós manipulamos a doença através do corpo e isso para eles é incompreensível e repudiável porque a manipulam através do espírito.
-Todas as doenças são do espírito?
-Todas.
-Até mesmo uma ferida num joelho causada por uma queda?
-Até mesmo essa. Se o corpo se feriu, foi porque se negou a colaborar… e isso é um problema que só o espírito pode resolver…
-Faz sentido…
-Pois faz… mas o nosso acampamento fica a cerca de dois quilómetros das povoações deles e isso dificulta o nosso acompanhamento, a nossa ajuda…
-E o furo?
-O furo fica a três… o acampamento é a mil metros daqui. Subindo ali aquela colina, já consegue avistá-lo… há outra coisa que os perturba. A agressividade dos ruídos que produzimos. Os nossos carros, as nossas máquinas, esta, então, como trabalha com pressão, é para eles muito agressiva, violenta, mesmo. Quando chegámos, tivemos um encontro com o chefe da tribo, o soba, e percebemos de imediato algumas regras. Só furamos em espaços autorizados por eles, só fazemos curativos ou administramos medicamentos a pessoas que eles autorizem e em casos de doenças que eles reconheçam, ou seja, na dúvida pergunte à responsável da missão, mas concentre-se em coisas…
-Pequenas, objetivas!
-Viajou com o Munir! E aprende depressa…
-Sim. E sim… e sei de uma máquina que apreciam!
-Hummm… isso existe?
-Existe, pois, o rádio…
-Ah sim… claro… gostam de música, sim, mas não é tanto por isso, é de novo por causa do espírito… intriga-os e atrai-os a presença das pessoas sem a necessidade do corpo. Estas pessoas, pense-se o que se pensar, aqui, longe da evolução e do desenvolvimento científico e tecnológico, estão mais desenvolvidas, estão mais à frente enquanto seres humanos..
-Interessante conversa, mas…
-Sim, claro, desculpe, ainda tem esses mil metros para fazer e precisa recompor-se da viagem.
-Precisamos.
-Precisa, aqui o especialista vai ter de ficar e ajudar-nos a furar…
Kyle percebeu o desafio. Estava exausto, mas entendeu de imediato que, o que interessava ali, não era o seu tempo, nem o seu cansaço. Eram outros tempos e outras necessidades. Decidiu ajudar, mas decidiu, também, fazê-lo em verdade. A única forma de progredirem, seria serem honestos com o que estavam a fazer. E por isso mesmo informou:
-Vocês não vão encontrar água nenhuma porque não estão a perfurar…
-Como?
-A máquina está a desperdiçar a pouca força que tem, perde óleo, está em esforço e tem mais folgas do que é admissível. Vale mais perdermos umas horas com uma revisão geral do que estarem para aí a fingir que furam e a única coisa que está a acontecer é moer rocha e broca.
-E como fazemos isso?
-No tempo em que eu bebia cerveja com um cavalo…
-Hã?! Amigo, acho melhor ir descansar, o sol fritou-lhe o cérebro…
-Engana-se… e fique sabendo que o Malte era melhor companhia do que muitos dos tipos que encontrei pela vida fora…
Armou-se de chaves diversas, martelos, alicates, pedaços de material velho que jaziam numa caixa, verificou fugas de óleo na tubagem da torre de perfuração, remendou a tubagem do ar comprimido, foi-se às correntes da torre e ajustou os engates e as caixas de rolamentos para que não tivessem fugas. Abriu o painel de comandos e fez uma revisão aos contactos e uma limpeza geral. No final, fez alguns ajustes ao próprio motor do camião. Enquanto trabalhou, foi dando pequenas ordens e tarefas aos ajudantes, pediu cerveja. Não havia. Pediu água… riram-se, Pensámos que você é que nos ia dar água! Mas apareceu um cantil que foi bebendo com parcimónia, cantarolou umas coisas impercetíveis com ritmo irlandês, falou do Malte e praguejou sempre que alguma coisa correu mal. Ao final da tarde tinha feito um trabalho absolutamente essencial, ordenou que não o testassem sem que ele estivesse por perto, voltariam ao trabalho na manhã seguinte, estava para lá de exausto. Não quis comer, nem tomar banho, caiu em cima do colchão e dormiu doze horas consecutivas. Quando acordou, tinha Madalena sentada a seu lado e um velho indígena balbuciando palavras ritmadas, quase como um choro, e um homem a seu lado traduzindo. Kyle assustou-se e foi ainda estremunhado que perguntou:
-O que se passa?
-É o curandeiro de uma das povoações que nos rodeiam. Diz que estás doente “onde passa a comida”, diz que tens comido mal por andares perdido no mundo, diz que há um rio na tua vida mas te afastaste dele e isso vai custar-te a morte do corpo, diz que vais encontrar água para regar a semente da vida que deixarás entre nós quando partires… sabes como é… crendices… não dês importância.
-Aparte a semente, está tudo certo…
-Porquê, vais encontrar água?
-Se a houver, encontro. Agora já temos condições para isso.
-Irlandês teimoso!

Ao longo de pouco mais de um ano, Kyle McKenzie e Mark Merrit fizeram seis furos, dois abateram sobre si mesmos, provocaram estragos, obrigaram a deslocações a Dadaab para adquirir materiais, quatro foram bem sucedidos. O líquido da vida jorrou. Não foi um jorrar impetuoso, mas ainda assim, eram furos de captação que rendiam dois mil litros de água por hora. Por precaução, Kyle cortou as linhas. Assim evitou contaminações ou aproveitamentos por outros furos feitos nas redondezas. As condições de vida das pessoas melhoraram significativamente, a própria paisagem parecia querer alterar-se, havia esperançosos apontamentos de verde aqui e ali. O curandeiro continuou a visitá-lo de quando em vez enquanto dormia. Batizou-o, Tu és “Mtu Kwana na Mimba Mito”. O Quer isto dizer? Perguntou Kyle ao tradutor. Quer dizer que tu és o “Homem que está Prenhe de um Rio”. Kyle silenciou. Lembrou-se dos rios da sua vida. A pujança e a determinação do Camowen que lhe corriam nas veias, a serenidade e a tranquilidade do Drumragh e a firmeza e a força caudalosa do Strule. E pensou que talvez o velho homem tivesse razão, talvez tivesse andado uma vida inteira a evitar os rios que corriam em si e agora, prenhe deles, tinha vindo ali pari-los. Esta água, que busca e encontra, brota em África, mas nasce na Irlanda. Achou interessante o nome que lhe pusera o velho e perguntou:
-Olha lá, e tem de ser um nome tão comprido?
-As coisas não são compridas nem curtas, são o que são e tu és Mtu Kwana na Mimba Mito.

A Madalena couberam outras tarefas. Quando chegou, o acampamento distribuía a ajuda de forma quase indiscriminada, praticamente sem registo e seguramente sem controlo. Começou por perceber como faziam, quando chegavam os carregamentos, como inscreviam as pessoas, como as alinhavam e o que lhes davam e com que frequência. Era um caos. O processo era mais ou menos a olho e poderia suceder que uma pessoa recebesse duas t-shirts no espaço de quinze dias e nenhuma coberta e outros houvessem com excesso de cobertas, mas sem t-shirts. O mesmo com os alimentos. A logística era arrasada pela necessidade de distribuir. Isto tinha uma consequência nefasta. Gerava-se um confuso jogo de comércio fora do acampamento onde emergia o favorecimento e a lei do mais forte. Madalena apercebeu-se disto e foi no seu caderninho de bolso que começou a escrevinhar um complexo sistema de organização e registo da ajuda. Separou, para efeitos logísticos, as quatro populações que circundavam o acampamento, recenseou todos os habitantes de cada população por faixa etária, ainda tentou por agregado familiar, mas rápido percebeu que seria impossível. Uma povoação correspondia, de facto, a um agregado familiar. Identificou as faixas etárias com cores, identificou a ajuda com cores e letras também. Os alimentos tinham uma cor, e dentro da categoria dos alimentos havia diversas letras, a roupa outra tinha outra cor, o calçado outra, o material escolar outra, os medicamentos outra, e assim sucessivamente. Tornou-se fácil abrir um dossiê, um separador de uma pessoa dentro dele e verificar as últimas atribuições, isso levou a que a ajuda fosse dada menos pelo que as pessoas pediam e mais pelo que ainda não tinham tido o que, previsivelmente, iria ao encontro das suas necessidades. As pessoas estranharam e começaram por reclamar. Madalena, com a ajuda da chefe de missão, foi inflexível e os resultados começaram a aparecer em pouco tempo. Os guardas das tendas de campanha onde estavam guaradadas as ajudas começaram a ter turnos que ela lhes atribuiu e rodavam pelas diferentes tendas. Dentro de cada tenda, pediu que lhe improvisassem umas prateleiras com tábuas e paus e os produtos deixaram de estar amontoados pelo chão e passaram a estar arrumados e identificados por cores. Isto obrigou a um registo de entrada que tinha de bater certo com o registo de saída. De dois em dois dias, ao final da tarde, reunia com os outros colaboradores e confrontavam registos. Em poucos meses, o caos deu lugar à organização e a ajuda passou a ser distribuída com paridade, enfim, com a paridade possível. Durante muito tempo, não percebeu porque é que o álcool se gastava a uma velocidade estonteante, sempre insuficiente, da mesma forma que não percebeu porque é que havia colaboradores que, depois da refeição, caíam a dormir como mortos e só ao fim da tarde davam acordo de si. Quando percebeu que lhe bebiam o álcool, já muitos litros se haviam desperdiçado. Passou a desenhar linhas de nível nas garrafas e a colocar algumas gotas de tintura de iodo no álcool. Eles nunca perceberam porque é que o álcool tinha desaparecido e dado lugar àquele líquido escuro e mal cheiroso e começaram a dormir sestas mais curtas. Quando o processo já corria sobre rodas e outros companheiros começavam a apropriar-se das suas metodologias, decidiu organizar a enfermaria. Entradas, saídas, tempos de permanência, controlo da medicação. Os companheiros de missão, sabendo de onde tinha vindo e observando o seu rigor organizativo, puseram-lhe a alcunha de “Relógio Suíço”. Kyle costumava dizer-lhe a brincar, A tua alcunha é menos poética do que a minha. Madalena respondia-lhe com superioridade, Mas é mais eficaz!E riam. E, não obstante as dificuldades por que passavam, sentiam-se felizes. Houve mesmo momentos em que Kyle se esqueceu de que estava doente. Muito doente. Doente dessa doença do corpo e do espírito que fora ter comido mal toda a vida e ter engolido três rios até vir pari-los aqui. Essa mesma doença que, pouco mais de um ano depois de terem chegado, o obrigou a voltar. Precisava de cuidados. O sofrimento era já muito e começava a haver dias em que constituía mais uma preocupação do que uma ajuda ou uma solução. Quando desfizeram o caminho que haviam feito para ali chegar, Kyle e Madalena eram um casal feliz, cúmplice e indestrutível. Nem mesmo pela morte. Haveriam de regressar para que Kyle pudesse semear uma semente e morrer em paz como já se viu que morreu. Pelo meio, tomaram chá com Mark Merrit.

Foi Mark quem lançou o desafio no final de um dia de trabalho. As coisas tinham corrido particularmente bem nessa tarde e ele arriscou:
-Bebemos um chá esta noite? Não há nada como um chá noturno à volta de uma fogueira em África…
-Tentador. Falarei com Madalena. Se não estiver muito cansada, lá estaremos… já agora, estaremos onde?
-Junto à minha tenda.
E assim foi. Madalena adorou a ideia. Era a vida social possível no fim do mundo! Uma roda de pedras no chão, a lenha lá dentro a crepitar, três cadeiras de pano enfiado numa estrutura metálica em tripé que se desmontava como quem fecha um guarda chuva, uma cafeteira com café em pó lá dentro a borbulhar, umas chávenas mal acabadas, cada qual de sua nação, Mark tinha um pau na mão com o qual riscava na terra desenhos geométricos à medida que ia falando, Kyle na sua eterna t-shirt que em tempos fora branca e Madalena enroscada numa manta porque as noites de África têm quase tanto frio como dias têm calor. As conversas desfiavam, fluentes e amistosas, pelos assuntos mais diversos que três seres humanos podem encontrar à roda duma fogueira com uma chávena de café na mão. O trabalho, os direitos humanos, o modo de vida nas diferentes partes do mundo que haviam conhecido, as suas juventudes, altura em que brincavam com Madalena dizendo-lhe que ainda estava vivendo essa fase, os estudos, a ocupação profissional regular, as motivações para estarem ali e como haviam chegado a Wajir, as peripécias de viagem e livros, livros e mais livros. Numa das conversas, Madalena quis saber pormenores:
-Afinal, o que faz um engenheiro mecânico?
-A pergunta mais acertada era o que faria um engenheiro mecânico. Eu não faço o que eles normalmente fazem. A vida tem atalhos. Desenho equipamentos.
-Que servem para…
-Humm… lá se vai a minha privacidade. Conheces o Indiana Jones?
-Quem não conhece?
-Pois bem, o George e o Steven estavam com um problema aquando da produção do segundo filme da série…
-O George? Queres dizer o George Lucas?
-Sim. E o Steven é esse mesmo que estás a pensar!
-Kyle, temos um amigo famoso!
-Não. Tu tens é um amigo que tem amigos famosos! Enfim durante a produção do…
-Templo Perdido! Indiana Jones e o Templo Perdido!
-Esse mesmo. Enfim, havia uma série de cenas de filmagem impossível, quer dizer, era possível filmar aquilo, mas não com os ângulos e os movimentos que eles queriam. As câmaras não acompanhavam. Eles expuseram o problema e eu tinha um amigo português…
-Português? Tu tinhas um amigo português!
-Sim. É aquele paísinho na Penínsu…
-Eu sou portuguesa!
-Uau…
-Sim, uau! As coincidências da vida. E depois?
-E depois, ele era genial e dedicou-se aos problemas de rotação enquanto eu resolvi as questões relacionadas com focagem, lentes, etc… foi uma pequena experiência, mas correu tão bem que há três anos atrás… sim, em 89, logo, há três anos atrás, quando lançaram a Última Cruzada, já todas as filmagens foram feitas com a nossa tecnologia. De lá para cá não temos tido mãos a medir, mas precisei de sair daquela movimentação toda. Estava farto de cosmopolitismo, manias e festas sem sentido e resolvi falar com a Cruz Vermelha e financiar um projeto. Calhou este.
-Tu estás a pagar o que se passa aqui?
-Quase tudo, mas sem vós e os outros colaboradores, nada disto seria possível. Aqui contam mais as pessoas do que o dinheiro. Felizmente, ainda há sítios no mundo onde se pode dizer esta frase.
-Posso fazer-te uma pergunta sobre o Indy?
-Claro.
-Achas que a Última Cruzada foi mesmo a última ou haverá mais?
-Acho que foi a última. Eles estão fartos daquilo. O Harry está a ficar velho para aquelas andanças, já quase não dá uma corrida sem um duplo, o filão está gasto. Agora só se pusessem o Indiana Jones a enfrentar extra terrestres e francamente não creio que isso vá acontecer… e tu, que fazes na vida.
-Sou a jovem esposa do teu amigo, temos a Mariana para cuidar, trabalho à noite num pub, tirei um curso profissional de contabilidade e acho que quero mais… um curso superior… adoro contas, gestão de stocks, gestão financeira, adoro tudo o que seja organizar e controlar…
-Ah, temos uma controladora!
-Sim! Moderada, mas controladora…
-Moderada? Mark, já viste o que ela está a fazer ao acampamento? Qualquer dia, precisamos de limpar o rabo e vamos ter de preencher um papel… para sujar outro!
-Já é assim, amorzinho, tu é que ainda não reparaste. Já está em curso um sistema para monitorização dos nossos gastos.
-Miúda! Isso faz-se?
-Claro, é para o bem de todos…
Embrenhavam-se nos pormenores das conversas, na sua utilidade e futilidade como se estivessem a construir o mundo. Um mundo de ideais. E foi assim que ficaram cúmplices os três. Amigos inseparáveis vivendo longe um dos outros. Madalena nunca mais perdeu o contacto com Mark que viria a ser ajuda fundamental para suportar a dor e as dificuldades que estavam para vir. Gostavam de conversar um com o outro. Sentiam uma sintonia intelectual ímpar e sentiam também que se motivavam e espicaçavam no raciocínio e no discurso. O relacionamento de Mark com Kyle era diferente. Era um entendimento mais assente na experiência e no conhecimento das agruras da vida. Um dia, no final de uma dessas conversas, Kyle deixou Madalena seguir à frente, demorou-se um pouco, e confiou-a a Mark:
-Amigo, deixemo-nos de rodeios e ilusões. Eu não vou viver muito mais. Foi uma felicidade encontrar-te aqui. Tu és um tipo bem formado, conheces a vida e sabes o queres dela… faz-me um favor… quando eu morrer…
-Vá lá, Kyle, as coisas não são assim…
-São, são, meu velho, são mesmo assim… isto já dura pouco. Vamos ter de partir. Eu não estou a aguentar o esforço e grande parte do que era preciso fazer está feito…
-O favor?
-Olha por ela. Ela é jovem e forte, mas teve um percurso sinuoso até chegar aqui. Se não tiver um referente por perto, pode perder-se…
-Eu estarei longe…
-Eu sei, mas podes olhar por ela… por favor.
-Fica descansado, rapaz, se não nos enterrares primeiro, eu olharei por ela.
Kyle suspirou de alívio e como o ambiente estava tenso e tristonho, quis fazer uma piada:
-Mas nada de te aproveitares dela, ouviste?
-Nem tal me passaria pela cabeça, rapaz. Eu jogo na outra equipa…
-Ah, ok… só virtudes, então…
-Hahaha… a bem da verdade, no tempo que aqui temos estado, ao longo destes meses, tu tens corrido mais riscos do que ela!
-Eh lá! Posso ir deitar-me descansado?
Riram ambos de satisfação e alívio. Apertaram a mão e abraçaram-se. Tem a vida estas sinuosidades, mas o facto é que, por circunstâncias diversas, não voltariam a fazer outro serão de café e fogueira, ver-se-iam poucas vezes mais. Kyle deixou a sua obra para trás. Alguns desses furos ainda lá estão hoje jorrando água, brotando vida. Foi preciso que regressasse a Genebra. Foi recuperar o possível. Foi amar Madalena até ao último minuto. Foi semear-lhe uma semente de vida que nunca veria nascer. Madalena guardou a morada de Mark e o número da sua casa nos Estados Unidos. Voltariam a ver-se daqui por uns tempos e estariam em contacto distante e intermitente até ao dia em que formariam o inseparável grupo dos três emes.

———————————- jpv ———————————-

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “A Paixão de Madalena – Capítulo 8

  1. Obrigado, amiga D. São os teus olhos… Muito obrigado. Estou a apostar muito neste texto. Escrevi e reescrevi durante um mês! Acho que estou a dominar um pouco melhor a técnica do diálogo e acho que a história está diversificada e densa… enfim… a ver vamos… o próximo capítulo será o último do Livro I e será menos extenso… Beijinho. jpv

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  2. Porque razão, meu caro e talentoso amigo escritor, levei eu 40 minutos a ler este capítulo?
    Porque o li, o reli, e li novamente! Porque não me canso da tua prosa e da tua maravilhosa imaginação!
    Absolutamente fantástico, JP!

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