Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Histórias a Preto e Branco – Mulheres de Nampula

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Histórias a Preto e Branco

Mulheres de Nampula

Eduardo Monteiro sobe a 24 de Julho no seu Toyota Prado de 2002. Bom carro. Pleno de força e resistência. Ideal para as ruas de Maputo. Claro está que gasta catorze litros aos cem, mas, desde que veio para aqui, não tem de preocupar-se com isso. Em Portugal, as coisas estavam para além de difíceis, praticamente no desemprego. Aqui, não só é um tipo ativo, como ganha bem e, sobretudo, vê o produto do seu trabalho ter consequências, ajudar as pessoas. Aqui, sente que pode fazer a diferença. Moçambique salvou-o. Não só da falência financeira. Isso era o menos. Salvou-lhe a alma. E isso não tem preço. Aqui controla, decide, põe, dispõe. Executa os projetos tal como os idealizou. Aqui, à noite, tem à sua espera as coxas quentes de Inesperada. Ou não. Que é de repentes, a moça. Tem vontades.

— P&B —

E lá vai conduzindo, finta um buraco aqui, ultrapassa um chapa ali, e a cabeça volta-lhe ao calor das coxas. Mas não às de Inesperada. Antes as de Felizarda. Essa mulher envolvente e escaldante que lhe tem ocupado os pensamentos todos. Se o pensar fosse um rio, essa mulher seria uma leoa sedenta bebendo o rio todo agachada na margem. O problema é que lá ao fundo, na foz, o mar está estranhando que lhe chegue tão pouca água. E o mar é Inesperada.

— P&B —

Muitas coisas se dizem sobre as mulheres de Nampula e, além dessas, outras tantas poderiam dizer-se. Que são autónomas, que são sedutoras, orgulhosas, que são determinadas, que têm nas ancas o meneio de quem peneira a farinha. Pois sim, tudo isso é verdade. Para elas e para mulheres de outras paragens. Ora, o que é seu, intrinsecamente seu, e, olhai lá, leitores, que isto disse-me uma mulher de Nampula, é que, em escolhendo o seu macho, em o trazendo para o seu redil, o seguram como mais nenhuma mulher é capaz de fazer. Para sempre. Até que queiram.

— P&B —

Empurram-no, afastam-no, deixam-no prisioneiro do desejo, depois chamam-no à mão e dão-lhe uma pequena ração. Nada que o satisfaça. Somente que o faça querer mais. E hão de servir-lhe o prato completo quando entenderem que o merece. E voltam ao início. Empurram-no, afastam-no… E este fluir das coisas vai bem e traz toda a gente feliz e no seu lugar até que apareça uma leoa Felizarda na margem sorvendo a água.

— P&B —

Certa noite, estava Eduardo desassossegado e vinha-lhe a inquietação de querer e não ter. Estava suspenso e louco de desejo. Inesperada sabe onde o tem e sabe que é nesse preciso momento que uma mulher agarra o seu macho, o segura até que esteja de novo saciado, aquietado e sem perigo de procurar a caça noutras paragens. Está, portanto, na altura de servir-lhe o prato completo. Ele acordou e sentiu ruído na casa, um restolhar distante e próximo, estendeu um braço e ao seu lado não estava ninguém. O que anda aquela mulher a fazer a pé às duas da manhã? Interrogou-se. Levantou-se. Caminhou estremunhado e deu consigo à porta da casa de banho. Havia uma banheira à esquerda continuando no sentido da porta e o que viu então nunca esquecerá. Inesperada estava de saltos altos, tinha uma camisa de dormir muito curtinha numa cor leve e com umas florzinhas cor de rosa estampadas, por baixo via-se o desenho da cueca diminuta e os seios generosos pendendo porque ela estava inclinada sobre a banheira. Tinha uma perna direita e a outra dobrada para trás pelo joelho com o longilíneo salto alto espetado no ar. Não se baixara, dobrara-se pela cintura e tinha o tronco muito direito pendendo sobre a banheira. Ele olhou o perfil dela, sensual, atraente, a acordá-lo do sono e a levantar em si todos os ânimos e esqueceu-se de tudo, nem foi capaz de dizer nada de jeito. Para justificar a sua presença ali, ainda balbuciou:
– Que estás a fazer?
– Ora, que pergunta é essa? Estou a lavar a banheira.
– A esta hora?
– Claro. De manhã o meu homem há de vir tomar o seu duche…
Esticou uma perna para o balde que, vá-se lá saber como, não estava ao seu alcance:
– Hás de dar-me esse balde. Estou a pedir…
– Sim, estás a pedir.
E não se lembra de mais nada. Em menos de um fósforo tinha-lhe as ancas entre as mãos e tomava-a para si. Percorreram o caminho dos gemidos lânguidos afogados no suor excitado e depois de diversas rodadas, acabaram brindando na cama em afagos e carícias de mel.
– Vais-me matar com tanta doçura, mulher.
– Sabes o que fazem as mulheres de Nampula quando são mães?
– Não…
– Depois que a criança nasce, durante um ano, uma vez por dia, derramam umas gotas do leite do seu seio no sexo do bebé.
– Para quê?
– Para que cresça com ele essa doçura que provaste ainda agora.
Quando adormeceram, Inesperada tinha de volta o seu homem e Eduardo Monteiro fazia comparações. Um dia recebera uma SMS de Felizarda:
– Podes me apanhar na OMM? Não tem chapa hoje.
– Estou a vir para aí.
– Maningue nice.
E foi buscá-la e deixá-la em casa e ela lhe disse para subir lá em cima e quando chegaram foi falando:
– Xiii, esse chão está mal…
E ficou dobrada sobre a esfregona fazendo movimentos lentos e bailados. Eduardo perdeu-se com ela, entornaram a água do balde e afogaram o desejo na tarde quente e húmida de Maputo. E agora comparava-as e sorria pensando que gostava dos hábitos de limpeza de Inesperada, sua companheira, e Felizarda, sua… amiga.

— P&B —

Como muitos portugueses que chegam a Maputo e são bafejados pela sorte feminina e moçambicana, Eduardo Monteiro sentia-se um macho pujante, um verdadeiro engatatão a quem as mulheres não resistiam. As portuguesas tinham-no rejeitado? Problema delas. Não sabem o que perdem. E via-se no papel de engatatão e gostava do que via. Uma ou outra vez, os colegas, sobretudo o Sousa que, desde que nascera, não tinha pastilhas nos travões da língua, avisaram-no, Vê lá se em vez de engatatão, não és engatado. Nessas alturas, costumava relembrar para si como as seduzira, assim como quem se assegura que ainda sabe o chão que pisa. E relembra que procurava um tinteiro para a impressora no Centro Comercial Maputo, quando viu pela primeira vez Inesperada e lhe lançou um olhar sedutor a que ela não resistiu. O que ele não relembra porque não pode é que, quando entrou no centro comercial, ela ia do outro lado da rua, viu-o, avaliou-o e resolveu entrar também. E relembra como sorriu, irresistível, a Felizarda no dia em que ela saiu do chapa e atravessou a rua à frente do four by four dele. O que ele não relembra porque não pode é que o chapa não parava ali e foi ela que convenceu o motorista a parar, saiu e se passarelou na frente do carro. Há muito que vinha reparando naquele homem, só, conduzindo o Prado. Eduardo não sabe porque não pode, mas ele é o engatatão engatado.

— P&B —

Voltemos ao início da história. Eduardo Monteiro sobe a 24 de Julho no seu Toyota Prado de 2002. Lembra-se de que precisa de falar ao Sousa, deita a mão ao bolso da camisa à procura do telemóvel. Nada. Nas calças. Nada. No porta luvas do carro. Nada. Exaspera. Chega ao escritório, vasculha tudo à procura do aparelhómetro e não se cansa de repetir:
– Eu não sou ninguém sem o meu telemóvel, estão lá todos os meus contactos!
E não disse, mas pensou, Incluindo o de Felizarda! E as mensagens? Meu Deus, se aquilo cai nas mãos erradas, estou tramado. Ligou para ele, à espera de o ouvir, foi ao carro a ver se o ouvia cantar. Nada. E nada. À noite, quando regressou a casa, não precisou de dois minutos para o encontrar adormecido na mesa de cabeceira. Perguntou, não porque precisasse da resposta, mas procurando uma confirmação de que estava tudo bem, de que aquele esquecimento não havia sido desastroso:
– Deixei o telemóvel em casa?
– Deixaste. Ficou na casa de banho. Deve lá ter ficado quando tomaste duche à hora de almoço. Pus na tua mesa de cabeceira.
E ele acalmou-se. Tudo parecia tranquilo e dentro da normalidade. Tinha várias chamadas não atendidas, incluindo a que fez do telefone do escritório. Tinha diversas mensagens por ler. Uma delas era de Felizarda, Te vejo amanhã? O chão está precisando uma levagem. A mensagem não havia sido aberta. Sorte. Uma tremenda sorte. Jantou. Inesperada teve o mesmo comportamento de sempre. Tudo normal, portanto.

— P&B —

O chapa, como quase sempre, como quase todos os chapas, ia cheio. Partira do Museu, dirigiu-se à rotunda da OMM e agora cruzava a Vladimir Lenine em direção à Praça dos Combatentes. Lá dentro, Felizarda, entre dois outros passageiros, ouviu o som inconfundível de uma SMS a chegar. Olhou o visor. era de Eduardo:
– Olá! Estava à espera que me desses um sinal.
– Pouco saldo.
– Vamos lavar o chão?
– O menino gostou! Hoje não vai dar. Podes-me ligar?
– Claro.
E, pouco depois, Felizarda ouviu o toque e atendeu. O que ouviu soou-lhe estranho. Tão estranho que demorou algum tempo a perceber o que se passava. Em primeiro lugar, quando atendeu, a voz que lhe respondeu era de mulher. Em segundo lugar, a voz parecia ecoar e vir de todos os lados à sua volta. Atendeu. Ouviu. E desligou:
– Olá, como vai o meu gato assanhado?
– Deve estar a trabalhar!
Esperou uns segundos e olhou em volta. Quando o seu pescoço se virou o suficiente para ver o banco lá de trás, uma mulher bem vestida, de olhar cintilante e um sorriso vitorioso nos lábios, disparou:
– Tu és de Nampula?
– Desculpa?! Não te conheço.
– Tens razão. Não me conheces. Mas devias conhecer. Afinal de contas andas a dormir com o meu homem.
– Eh! E eu lá durmo com homem de alguém?!
– Um homem só é de quem o segura. E tu andas a querer segurar o meu.
– Não sei do que falas.
– sabes, sabes. Olha, o teu telemóvel vai tocar.
Inesperada puxou do telemóvel de Eduardo e marcou o número de Felizarda. Ele tocou. Felizarda abriu o jogo. Não teve outro remédio. Inesperada explicou como, pelas mensagens, reconstituíra as passadas de Eduardo e da própria Felizarda. Conversaram toda a tarde. sem brigas. As brigas não ajudariam a resolver o problema. Felizarda quis saber, em particular, um pormenor:
– Eu sou de Nampula. Como soubeste isso?
– Está uma mensagem no telemóvel dele sobre lavar o chão… também andas peneirando as ancas na frente dele…

— P&B —

A conversa foi tensa. Prudente. Algum tempo passado, perceberam ambas que  ambas jogariam os seus trunfos. Inesperada percebeu que, seguindo esse caminho, uma das duas perderia sempre sendo que seria imprevisível qual delas seria. Fazendo justiça ao nome que lhe puseram, arriscou uma proposta inesperada:
– Olha, tu tens as tuas armas e podes-mo levar, mas eu jogarei sempre os meus trunfos. A minha mãe também peneirou como a tua. Sei esse movimento de cor. Está em mim. Nunca terás descanso se o levares e eu já o não tenho agora. E se o partilhássemos?
Felizarda calou-se por momentos. Hesitou. E depois respondeu e a sua resposta não sendo de sim, nem de não, já levava a intenção nela:
– Temos de combinar as coisas. Achas que ele deve saber?
– Por enquanto não! Vamos fazê-lo dançar um pouco, damos-lhe corda, deixamo-lo acreditar na sua própria mentira e um dia destes apanhamo-lo.
– Objetivo?
– O objetivo é não haver, nunca mais, nenhuma outra mulher. Nem mesmo de Nampula! Esse bode tem de ser seguro.
– Nem que seja pelos chifres!
– Nem que seja pelos chifres!

— P&B —

Eduardo andava feliz. Saltava das coxas de Inesperada para os braços de Felizarda e fazia uma ginástica de gestão do tempo que ultimamente lhe parecia mais fácil. Parecem combinadas, pensava ele. E estavam. Felizarda e Inesperada trocavam mensagens e acertavam entre si quem passava que tempo com ele. Sendo ponto assente que as noites estavam reservadas para Inesperada. E lá andavam passando o tempo a geri-lo. Uma tarde com esta, uma manhã com aquela, um almoço com uma, um jantar com outra. E contavam uma à outra as mentiras que ele ia inventando para estar com elas. E o facto é que Eduardo Monteiro, que julgavas geri-las, era magistralmente gerido por elas.

— P&B —

Um dia, por volta das dez da manhã, recebeu uma mensagem de Felizarda a que respondeu de imediato:
– Almoçamos? Gosto tanto daquela massada de garoupa com camarão da Cristal…
– Claro. Encontramo-nos lá às doze e trinta.
– Combinado.
– Combinado.
Quinze minutos volvidos, recebe nova mensagem, desta vez de Inesperada:
– Estou a fazer o arroz à zambeziana que tanto gostas. Espero por ti às doze e trinta.
Eduardo estremeceu. Logo agora que elas andavam tão convenientemente desencontradas, acontecera o que sempre tinha temido. Ponderou a situação. Fez as suas opções estratégicas e respondeu a Inesperada:
– Oh! Tenho pena, mas não posso. Reunião de trabalho muito importante.
Doeu-lhe ter de rejeitar o arroz à zambeziana, mas um homem tem de fazer certos sacrifícios. Quando entrou na Cristal, gostou de ver Felizarda. Estava bonita. Sensual. E tinham já feito o pedido, bebidas incluídas, quando Inesperada apareceu no restaurante e se aproximou da mesa onde estavam. Isso, ele já não gostou de ver, mas reagiu com sangue frio:
– Inesperada?! Apresento-te a senhora Felizarda, minha cliente. Senhora Felizarda, esta é Inesperada, uma amiga.
– Uma cliente?! Ai é isso que eu sou para ti? Não me lembro de ter-te pagado pelos teus serviços.
– Amiga?! E a mim apresentas-me como amiga?! Mlungo cubia cuaco! Olha aqui, menino, essa mulher vai ter-te quando eu não te quiser.
– E quando eu não te quiser, quem te vai ter é essa outra mulher! Cliente! Eu te dou a cliente! Não lavas o chão no próximo mês!
– Nem a banheira!

— P&B —

Eduardo foi confrontado com o que elas sabiam, com as suas mentiras e com a forma como o andavam a gerir. Percebeu como tinha sido engatatão engatado por três vezes. Primeiro por uma, depois por outra e por fim pelas duas. Sempre que fazia menção de defender-se, elas torpedeavam-no com argumentos. Percebeu que estava manietado. Inicialmente não entendeu aquela estranha união. A seu ver, o expectável é que se tivessem pegado as duas. Mas acabou por perceber que, precisamente por causa dessa estranha união, ele tinha andado completamente controlado. A proposta delas era simples, criar um regime de convivência a três, do conhecimento dos três, aceite pelos três, sem que se cruzassem as duas. O seu compromisso era exigido. Eduardo, preso num redil astuto de informação, aceitou e, ao aceitar, exalou uma expressão em jeito de desabafo:
– Mulheres!
Que elas corrigiram e acrescentaram de imediato e em coro:
– De Nampula!

jpv

———————————-
Nota do autor 1: O chapa é um meio de transporte semi-coletivo. Faz o serviço de um autocarro, mas consiste, normalmente, numa Toyota Hiace. Há milhares de chapas em Maputo e são fundamentais à vida da cidade.
Nota do autor 2: “Maningue nice” é uma expressão comum em Maputo e junta uma palavra de changana com outra de inglês significando “muito bom”, “muito fixe”.
Nota do autor 3: Em Maputo, um veículo todo o terreno é designado, muitas vezes, por “four by four”.
Nota do autor 4: A expressão, em changana, “Mlungo cubia cuaco” quer dizer “Branco dum raio” e constitui um insulto suave. Sendo certo que em Nampula não se fala changana, é um facto que a maioria das pessoas que vai viver para Maputo, portugueses incluídos, aprende expressões e formulações em changana. Não se estranhe, por isso, o uso desta expressão por Inesperada.
Agradecimento: o autor agradece a preciosa ajuda do RB e da VL que, de formas diferentes, inspiraram esta história.
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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “Histórias a Preto e Branco – Mulheres de Nampula

  1. “Mlungo cubia cuaco”!!!
    Ficou excelente!
    Aguardo mais 🙂

    Beijinho.

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