Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Motorcycle Chronicles – The Light in Her Fingers

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The Light in Her Fingers

Norman May sempre adorara motos de alta velocidade. Nada se comparava a essa quase indescritível sensação de libertação e liberdade. Não andava de moto. Vivia de moto. Não trocaria o seu estilo de vida por nada deste mundo, pensava. Acontece que quer a vida, quer o mundo, podem muito mais do que nós que viemos vivê-la e habitá-lo. As rasteiras, as surpresas, os nós que só se desatam quando ainda não queremos, já não queremos ou não estamos à espera que o façam, podem mais do que a nossa vontade e determinação. E, talvez por uma breve e suave consciência dessa limitação, Norman May resolvera não contrariar as forças maiores que o rodeavam.

Para esta história não interessa muito quem ele era, nem o que fazia, nem os seus outros hábitos para além da moto. Acordava com ela, deslocava-se com ela para o trabalho, passava os fins de semana com ela, adormecia a pensar nela, gostava de cruzar o espaço sem capacete, só com uns óculos de proteção e gostava da ideia de poder fazê-lo sempre que quisesse. Vestia cabedais e gangas pretas, punha correntes metálicas a segurar as chaves. A Norman May não faltava quase nada.

Eloise Black sempre fora uma alma livre aprisionada. Livre dentro de si, nas suas infinitas reflexões solidão dentro no breu silencioso da noite. Livre na forma como voava sobre o mar cada vez que contemplava um pôr de sol com a escuma das ondas a rebentar-lhe junto aos pés. Livre quando lia nos livros as vidas dos outros e se entretinha a reescrevê-las só com o pensamento. Aprisionada num quotidiano marcado pelo ritmo da globalidade que dita entrar às nove, sair às cinco, ginásio às quartas, piscina às sextas, supermercado aos sábados de manhã e solidão depressiva aos domingos à tarde. A Eloise Black faltava quase tudo.

Quando se encontraram, a primeira impressão que tiveram um do outro foi como quando experimentamos uma bebida ou uma comida diferente, antes de reconhecermos o arco-íris de novidade a invadir-nos a alma pelas papilas gustativas, fazemos uma careta de estranhamento. Ele deslizava tranquilo e vagaroso absorvendo a luz de um final de tarde laranja e esplendoroso e ao fundo dessa reta de felicidade um vulto de um carro em contraluz parado na berma da estrada, uma mulher esguia com a mão direita sobre os olhos contemplava o horizonte. Ela percebeu que se aproximava um tipo das motos, lenço encarnado ao pescoço, sem capacete. Pensou retirar-se para dentro do carro, mas lembrou-se de que estava na rua porque, efetivamente, precisava de alguém e, distraída com o sol a pôr-se, quase se esqueceu de fazer-lhe sinal, mas fez, acenou e gritou, Por favor, por favor! Norman já passava por ela quando percebeu que era por si que chamava. Parou um pouco à frente, olhou para trás, mediu-a, ela deixou-se medir e mediu-o de volta, parecia-lhe ter idade suficiente para ser um homem responsável e não um garoto das velocidades.
– Boas, precisa de ajuda?
– Sim, se puder emprestar-me um telemóvel, estou sem bateria e o meu carro…
– Não tenho.
– Não tem telemóvel?
– Não. Não uso.
– Não usa? Então como é que faz?
– Eh pá, tem sido difícil sobreviver, mas cá me vou aguentando, sei lá, olhe, para passar a ferro uso um ferro, para dormir, uma cama, para ler, livros… enfim, vivo neste meu mundo subdesenvolvido…
– Sim, mas, por exemplo, se o seu carro se avariar no meio da estrada como é que faz?
– Minha senhora, em primeiro lugar, o meu carro não se avaria porque eu não tenho um, em segundo lugar, a senhora tem um carro, o seu carro está a fumegar fumo branco, a senhora tem telemóvel e nada disso parece estar a ser uma solução para os seus problemas…
– Pois tem razão… peço desculpa, vou esperar por outra pessoa.
– Aqui não passa muita gente, está a escurecer, eu aconselhava-a a vir comigo até à próxima localidade, por certo encontra lá onde passar a noite e amanhã consegue alguém que lhe venha buscar o carro…
– Ir consigo? Como?
– Sei lá, estava a pensar eu a conduzir e a senhora atrás agarradinha à minha cintura para não cair de costas…
– Mas eu… eu não ando nisso!
– Nisso?
– Sim, nessa coisa…
– Esta coisa parece-me ser a sua solução de momento, mas pode ficar aí à espera…
– E isso é seguro? É que os carros são seguros, são fechados, têm quatro rodas…
– Avariam com frequência… olhe, eu vou indo… quer vir…
– Acha que deva?
– Eu não acho nada, mas estão-se-me a acabar as soluções… já agora…
– Sim…
– Estando aqui sozinha com o carro avariado e à espera de alguém como é que quase conseguiu perder-me?
– Ah isso… tolice minha… foi o sol… amo o sol e o mar e toda esta luminosidade que paulatinamente se esconde…
– Também amo isso… venho aqui quase só por causa disso…
– Quase? Eu venho aqui só por causa disso… que mais pode haver?
– Nem sei se lhe diga…
– Diga, diga, finalmente estamos a encontrar algo em comum…
– Pois… eu também venho aqui para deslizar em cima desta coisa!
– E vai devagarinho?
– Vou devagarinho…

Eloise Black não se apresentou. Norman May não se apresentou. Ele tirou a mota do descanso, sentou-se, estendeu-lhe uma mão e ela subiu para a moto com gestos desajeitados.

– Tem um capacete?
– Não se usam nesta paróquia!

Eloise agarrou-se a ele tentando manter uma espécie de distância de segurança, assim como se não quisesse misturar-se muito, mas ao primeiro movimento da máquina, por instinto, abraçou-lhe a cintura e encostou a cabeça às costas dele.

– O fundamental é relaxar, relaxe e desfrute da vista, o sol que tanto ama está quase a sumir-se.

Deslizavam em silêncio e ela tinha os olhos fechados de medo até ter pensado que abri-los não haveria de matá-la e abriu-os e respirou fundo, e sentiu o ronco poderoso da moto por baixo de si e o sol esvaindo-se e a noite caindo como um véu sobre o seu olhar. Estava libertando-se. Enlevada. Norman falou, informando sem perguntar:
– Vou mostrar-lhe uma coisa.
E saiu da estrada enquanto ela estremecia de medo e meteu-se por uma estradinha de terra e ela já quase em pânico e abriu-se à sua frente uma prainha pequenina, com um rochedo de cada lado, abrindo-se depois o mar à sua frente onde a bola de fogo fazia as derradeiras despedidas. Ela descalçou-se e foi junto da ondulação serena ver o dia morrer. Quando voltou trazia incerteza e um sentimento de gratidão e preenchimento.
– Como se chama?
– Norman.
– Eu sou a Eloise.
– Boa noite Eloise.
– Boa noite Norman e obrigado.
– De nada. Achei que ia gostar.
– Achou bem…

Sentaram-se na areia e finalmente foram à procura do que os unia. A noite escureceu a paisagem, Norman pôs-lhe o casaco de cabedal pelas costas, deram as mãos e ficaram a olhar as réstias de luz do outro lado do mundo até já não haver nenhuma. Sem palavras, sem luz, sem medos nem preconceitos, trocaram os lábios e fizeram amor na areia. Só Deus e aquela coisa souberam.

Norman May não alterou o seu estilo de vida, incluiu Eloise Black nele. Foi tácito o acordo. Ele aparecia de quando em vez, sempre que o coração lhe pedia, sempre que o impulso de amá-la era maior do que qualquer outra coisa na sua vida, ela não o procurava, esperava-o. Com o tempo, começou a ler-lhe os ritmos e a pressentir-lhe as visitas e preparava o coração para recebê-lo. Depois montavam naquela coisa, desbravavam caminhos de asfalto e terra batida e areia e procuravam novas aproximações às ondas do mar emolduradas pela amarelidão lânguida do sol. E amavam-se. Perdiam-se em conversas longas e sinuosas de descobrir a razão de ser das coisas, dos gestos, dos hábitos, faziam silêncios e ela contemplava a paisagem e o homem nela. Absorvia a vida com o olhar sôfrego de ver tudo enquanto houvesse luz no seu olhar. Não se esconderam. Não se revelaram. Ficaram assim, procurando o mar e o sol ao som e ao ritmo de uma moto de alta velocidade, sentindo o ar na face, a areia nos pés, o corpo no corpo. O tempo passou célere e despercebido, magias do encantamento amoroso.

Um dia, por brincadeira, Norman May comprou um capacete para Eloise Black e levou-lho. Quando tocou à campainha ela não atendeu, insistiu e o silêncio voltou a responder-lhe. May já tinha pensado que isto poderia suceder, afinal de contas, não combinavam nada, a vida acontecia-lhes harmoniosa com naturalidade. Não estranhou. Voltou dias mais tarde e voltou a não encontrá-la, esperou um pouco mais, voltou semanas mais tarde e finalmente a porta abriu-se. Era um homem. Completamente estranho a Norman May que ficou perplexo:
– Desculpe, não sei se incomodo, procuro Eloise Black.
– Não mora aqui, quer dizer, já não mora aqui…
– Como?
– A senhora mudou-se, devido ao problema com que ficou depois do acidente, decidiu viver perto de uns familiares…
– Problema? Acidente? Pode dizer-me o que se passou?
– Não sei, quem é o senhor?
– Um amigo.
– Sabe, isto é constrangedor para mim, mas o facto é que me pediram para não dizer nada a ninguém acerca de Eloise Black…
– Por favor… essa mulher é a minha vida…
– Enfim, creio que não haverá mal em dizer-lhe algumas coisas, de resto o senhor parece transtornado, era sua namorada?
– Não, sim… sei lá… acho que sim, éramos as pessoas mais importantes na vida um do outro, isso faz de nós namorados?
– Acho que sim, faz mesmo mais do que namorados…
– Então…
– Eu não sei para onde foi Eloise Black. Sei que foi a pessoa que morou aqui antes de mim. Sei que teve um acidente de automóvel, embateu violentamente contra uma árvore ou um poste, não sei bem ao certo e sei que está bem exceto num aspeto…
– Qual?
– Cegou. Eloise Black cegou e está a reaprender a viver. Sofre. E mais não sei.

Norman May procurou Eloise Black de todas as formas possíveis, em todos os locais possíveis, colocou anúncios nos jornais, pediu a amigos que percebiam dessa coisa das internetes e vasculhou todos os cantos do universo digital, andou pelas ruas e, em última análise, em solução de desespero, Norman May, ainda na cidade, virava-se de frente para o sol, fechava os olhos e imaginava onde ela estaria. Pressentiu que a encontraria na prainha onde se amaram pela primeira vez, só não soube quando. Sempre que por qualquer imperscrutável razão se lembrava dela ou lhe batia forte o seu chamamento, pegava na moto e dirigia-se para lá. Passava junto ao local onde a viu pela primeira vez contemplando o sol junto ao carro avariado e, mais à frente, fletia para a estrada de terra que desembocava na pequena praia com um rochedo de cada lado. Nada. Nunca. Sempre vazia. Uma ou outra vez com estranhos. No início, logo a seguir ao choque de saber do seu acidente e dessa funesta consequência, ia lá muitas vezes, depois começou a ir um pouco menos e ao cabo de três anos, Norman May tinha anichado aquela dor no seu peito e só lá ia de vez em quando para certificar-se da sua ausência, para sentir com força a realidade de a ter perdido. Não sabe o humilde escritor destas linhas porque foram três anos. Poderiam ter sido três meses, um ano, um ano e meio, dois anos. Mas não. Foram três, mais dia, menos dia. Ele fletiu para a estrada de terra batida, desembocou na praia e deu-se com duas mulheres de costas, sentadas na areia. Uma mais forte e arredondada, a outra, à sua esquerda, mais magra e esguia. Ao lado, espetada na areia, uma vara de tatear o chão. À frente das mulheres um Retrivier Labrador com um arnês retangular em alumínio. Era um cão guia. Norman estremeceu com a imagem. Seria que… no seu peito borbulhava a incerteza e a dúvida e, contudo, o desejo, a ansiedade, de súbito, apoderaram-se dele. Ela estava tranquila. Há muito, já, que reconhecera o ronronar da moto. Chorava e sorria. A mulher a seu lado levantou-se, abandonou o local e ao passar por Norman cumprimentou-o:
– Boa tarde, deve ser o senhor Norman, Eloise espera-o, enfim, às vezes vem aqui esperá-lo… por favor, vá com calma…
– Boa tarde.
Não disse mais nada. Já não comandava as suas palavras nem os seus gestos. Aproximou-se. Sentou-se ao lado dela. Colocou a sua mão espalmada sobre a mão frágil e gentil de Eloise Black.

São preciosas, as palavras. Às vezes porque se dizem, outras vezes porque se guardam. Guardaram-nas durante longo tempo. Ficaram de frente para o mar, sentindo e vendo o sol despedir-se deste lado do mundo.
– É bonito, disse ela, já lhe decorei o movimento pelo calor na pele. Já só se vê um quarto.
Norman pasmou:
– Como consegues?
– Estava cega antes, Norman. A vista é egoista, tolhe-nos os outros sentidos e eles veem tanto, podem tanto. Deixa-me ver-te.
E colocou as suas mãos sobre as faces dele sentindo e absorvendo as formas e o calor de Norman. Passou-lhas pela cabeça, depois pelo peito e por fim abraçou-o.
– Isso tem cura?
– Dificilmente. As probabilidades são ínfimas e os custos muito elevados.
– Se é por causa dos custos, eu tenho algum dinheiro e posso vender a moto, vale muito… mesmo muito…
– Tonto. És um doce, mas explica-me, de que me serviria a visão se tu não tivesses alma… e já te disse, eu não estou cega, vejo de outra forma…
Fez-se um silêncio. Eloise percebeu que ele queria dizer algo, procurou-lhe uma mão na areia e quando a encontrou, apertou-a como que encorajando-o a falar.
– Porque te escondeste, Eloise?
– Não me escondi, Norman, só não estava preparada. A vida levou-me a luz do olhar e eu tive de recuperá-la com os dedos, com as mãos, com a face, eu vejo, Norman, vejo até melhor do que tu, só não estava habituada a ver assim… levei tempo… As cadeiras, as mesas, os obstáculos no passeio, os movimentos das pessoas, o braille no papel, os odores, os sons mais insignificantes, as texturas… aprendi o mundo de novo, Norman May, sou uma mulher nova e diferente… há coisas que ainda não experimentei…
– Por exemplo…
– Amar…
– Amar?
– Tens razão… nunca deixei de amar. Refiro-me à entrega dos corpos. Essa linguagem não sei ao certo se a domino…
– Nem eu… afinal de contas eu ainda vejo com os olhos… sinto-me culpado por isso.
– Não sintas, meu amor, não sintas. Guia-me!
– Guiarei… mas está uma pessoa contigo…
– É a Mary, uma amiga, vai partir e vai levar a Lucy com ela…
Eloise Black falou com a cadela, disse-lhe, Lucy, vai ter com a Mary, vai… e, como que por milagre, a cadela abandonou o local. Ouviu-se o ruido de um carro a engrenar e o seu ronco a tornar-se cada vez mais distante até desaparecer.
– Devo a maioria da minha aprendizagem a este animal. A minha mobilidade depende dos seus olhos e do seu instinto, sabes que ela é que decide quando atravessamos uma estrada?
– Tu vives num mundo diferente, com pessoas diferentes, com critérios diferentes, pergunto-me se há espaço para mim no teu universo…
– O teu espaço é o teu espaço, Norman May. Não se confunde com nada mais. Anda, vem conquistá-lo, vem merecê-lo.
Norman tocou-lhe a mão, deixou deslizar a sua mão pelo braço dela, encostou a sua face à dela, e depois os lábios. As roupas caíram devagarinho e os gestos multiplicaram-se, ternos e dedicados. Norman fechou os olhos e amou-a de igual para igual. A noite tombou definitivamente sobre este lado do mundo e escureceu e quanto mais escuro estava, quanto mais ele cerrava os olhos e a amava sôfrego e emocionado, mais ela sentia a luz desse amor na ponta dos seus dedos.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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