Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Rascunho

7 comentários

Rascunho

porque me odeias?
perguntou o cordeiro ao lobo.
porque me lembro de quando éramos ambos cordeiros.
e que aconteceu depois?
não te lembras?
não. sou um cordeiro.
desconfiei da tua pele.
da minha pele de cordeiro?
sim. que na altura parecia de lobo.
nunca fui senão um cordeiro.
e eu nunca fui senão um lobo e…
e?
e, contudo, julguei-me cordeiro, julguei-te lobo…
e defendeste-te.
sim. fechei-me.
e, ainda assim, odeias-me…
sou todo rancor e mágoa.
arrependimento…
sim…
de seres lobo?
não. de ter sido cordeiro!
então porque convivemos? porque nos toleramos?
tenho uma teoria…
uma teoria de ódio?
uma teoria de medo.
de medo?
sim. tu temes a vida sem um lobo por perto a afastar os medos.
e tu?
eu temo vida sem um cordeiro por perto em quem despejar as culpas, os remorsos.
somos prisioneiros um do outro.
mais do que isso. alimento um do outro.
alimento putrefacto…
a comida não tem adjetivos.
tu devoraste-me a vida, lobo mau.
tu devoraste-me a vida, cordeiro do diabo.

mas houve um tempo em que me acariciavas a pele.
fazia-o sem mágoa. com a cristalina luz da confiança.
nesse tempo eu achava-te um lobo bom.
e eu achava-te um cordeiro de deus.
mas…
deus não existe. e tu não és senão uma deceção.
e se eu te pedir desculpa.
podes fazê-lo, mas era preciso que eu acreditasse.
em mim?
em ti. em deus. na vida. no amor.
há sempre amor. eu acho que te amo.
não amas nada. tu estás como aqueles da canção do patxi andion. habituado.
queres dizer que pode confundir-se amor com habituação?
claro. na maioria dos casos em que se fala de grandes amores, não se trata mais do que habituação sem sentido. o amor é uma ilusão. um filme sem final feliz. uma laranja amarga. um iogurte fora de prazo.
não me amas, então.
amei-te até desconfiar da tua pele. a desconfiança corroeu-me todo. o peito. a alma.
às vezes culpo-te.
eu culpo-te sempre.
não me dás tréguas.
não. nunca darei. atreveste-te a ser feliz.
queria ser feliz contigo. e achei que querias ser feliz comigo.
sim. mas só contigo. tu teimaste em viver para além de mim.
isso não é saudável.
saudável, minha besta, seria dares-me o que eu te dei. a minha vida. a tua vida.
lamento, lobo mau, vou partir.
não consegues, cordeiro do diabo, estamos presos.
então morrerei.
morrerás. e eu contigo.
morrerei afogado nas tuas lágrimas, lobo.
e eu sufocado no teu sangue, cordeiro.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

7 thoughts on “Rascunho

  1. …olá, parabéns, pelo texto, pelo jogo de palavras, pelo talento 🙂
    Gostei muito
    Cumprimentos

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  2. Muito bem, como sempre! Bjos 🙂

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  3. Obrigado, Isa. Volte sempre. Gosto de a ver por cá. jpv

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  4. Obrigado, amiga. Mas tu também escreves muito boa poesia! Beijos. Jpv

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  5. Imensamente profundo e cheiro de significados! Adorei!

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  6. Quando é assim que se faz poesia, para que vale eu continuar a tentar…

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