Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Poema do Menino que Dormia

5 comentários

Poema do Menino que Dormia

Há momentos
Em que acordo
E noto que morri.

Nasci morto.
Cresci cego
E comandado.
E, hoje, não nego,
Morro acomodado
À fuga
Que empreendi.

A vida
Que havia a viver
Fugi.

Perdi-me os movimentos,
Algemei as mãos
E agrilhoei pensamentos.

E quando vim
A libertar-me os intentos,
O mundo não me acreditou…
E não me quis.

Era demasiado
O preço
Do que não fiz.

Estava extinta
A força,
Soçobrada a vontade
Do poeta
De tenra idade
Que acordou
Demasiado tarde.

Julgo ter cá dentro
Um fogo que arde,
Mas são só cinzas…

Um cadáver andante
De grande e vistoso porte
Deambulando pelas ruas,
Putrefacto,
Exibindo a vida da morte.

Há momentos
Em que acordo
E noto que morri.

Olho à volta
E vejo-me aqui,
No meu centro,
Na periferia de tudo o resto.

Ouço um sino
Longínquo e funesto
E vou a sepultar-me sozinho.

Foi tudo tão triste
E patético
Quanto errar
Uma curva do caminho.

O brilhante e profético
Sonho de ser
Desvaneceu-se.

Era uma vez
Um menino que dormia…
Hoje acordou
E veio ver
O homem que morria.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

5 thoughts on “Poema do Menino que Dormia

  1. Olá João Paulo, mais uma vez me identifico com aquilo que escreves. Também eu tenho um menino assim, dentro de mim e, tantas vezes já vi o seu olhar desapontado e triste e tantas vezes senti o seu incentivo e acreditei que podia ou que havia de conseguir para, logo a seguir, me acobardar e me deitar na minha própria sombra. As cinzas surgem quando deixamos de acreditar e aqui gostaria de pegar nas palavras da Patrícia que afirma que “somos livres e é isso que importa no nosso renascimento!” Bjs.

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  2. Muito obrigado por suas palavras, Patrícia. O seu comentário é poesia. Beijos. jpv

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  3. Boa tarde, João. Morremos e nascemos ao longo da vida.
    Erramos e acertamos, queremos sair da escuridão quando encontramos a luz, a mesma que muita vezes nos cega.
    Somos poetas do amor, das mazelas, da vida e dos medos.
    Antes de qualquer coisas somos livres e é isso que importa no nosso renascimento.
    Tenha um dia de paz!
    Beijos na alma!

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  4. Muito obrigado, Isa. É uma doce simpatia sua.

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  5. Eu acho que o Mundo abre os braços a esse menino poeta. Como de resto poderia ser, a um menino que faz versos assim?
    Abraço

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