Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

O Efeito Linus Van Pelt

3 comentários

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O Efeito Linus Van Pelt

Lembram-se do Charlie Brown? Devem lembrar. Mas, se não lembrarem, pelo menos, lembram-se do Snoopy que era o cão do Charlie Brown… Pronto, se já se lembraram deles, agora esqueçam. Eu nunca gostei particularmente da banda desenhada ‘Peanuts’ do Charles Schulz, mas as coisas são como são e eu acabava sempre a ler mais um livrinho ou a ver mais um episódio da série animada e a razão era simples, chamava-se Linus Van Pelt. Também conhecido só por Linus, era o melhor amigo de Charlie Brown e de longe, mas mesmo de muito longe, mais interessante que o Charlie ou o cão estúpido-teimoso-arrogante-domesticador-de-humanos-com-a-mania-que-tem-piada, o tal do Snoopy.

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Linus era equilibrado, tinha uma visão racional das situações, não se deixava levar pelas parvoíces do Charlie Brown, enfim, às vezes deixava, era inteligente e, sobretudo, era uma personagem mesmo interessante, de bem consigo, sem grandes dilemas interiores, nem dúvidas em relação às suas opções. Nada ao meu alcance, portanto. Ainda assim, havia um aspeto que me fascinava mais do que todos os outros: Linus tinha um cobertor que levava para todo o lado. Nunca achei a ideia muito higiénica, mas sempre pensei que ter um amigo constante, fofinho, a quem confessamos os nossos segredos, pedimos conselhos, desabafamos e que, em última análise, também serve para limpar as mãos, era muitíssimo reconfortante. Talvez por isso, sempre quis ter um cobertor como o do Linus, mas a vida nunca mo trouxe. Quando comecei a namorar, deixei-me de parvoíces e atirei-me às raparigas. Boa jogada, o tempo veio a provar. Mas o tempo passa. A vida adquire novas cores e perspetivas e já ia com trinta e muitos, quando comprei uma t-shirt, a da foto, propositadamente tremida para não verem o estado em que está, que se viria a revelar uma das melhores aquisições da minha vida. Foi há mais de dez anos e nunca me lembro da t-shirt alguma vez ter sido nova. Pouco depois de a comprar, sofreu um pequeno, quase impercetível, rasgão que a impede de ser uma t-shirt de sair à rua. Não poderia ter vindo mais a calhar, o rasgão. É que a t-shirt tinha e, passados todos estes anos, ainda tem, um toque suavíssimo, um tamanho perfeito, um cair delicioso, um vestir super-hiper-mega-confortável. E assim, meu Deus, o que vou escrever a seguir, estragará o que resta da minha reputação, transformei-a na minha t-shirt Linus Van Pelt. Serve para ler, para dormir, para ver televisão no sofá, sobretudo se estiver a dar o Benfica, para arrumar a casa, para escrever, para cozinhar, para lavar o carro, para ir à praia e proteger do sol, para fazer bricolages e, quando há tempo, é perfeita para fazer nada com uma chávena de café quente na mão. E só não saio à rua com ela para ir comprar o pão ou fazer uma investida ao supermercado porque a minha mulher proibiu-me de o fazer. Aliás, cá em casa, a minha t-shirt Linus Van Pelt tem uma ameaça pendente: já várias vezes lhe foi sentenciada a pena de ir parar ao caixote do lixo. O funesto evento só ainda não aconteceu porque eu me comprometi a enfiá-la na máquina com frequência e porque, quando a visto, além de irresistível, devo ficar com ar de inigualável felicidade.

A verdade é que quando visto a minha t-shirt, abate-se sobre mim o efeito Linus Van Pelt. Fico tranquilo, feliz, equilibrado, de bem com a vida. E só escrevo estas linhas porque quero homenageá-la! Pois, devo estar mesmo mal, é do cansaço! Já vou na fase de homenagear peças de roupa. Sinto-me subitamente feliz e realizado, sinto-me confortável e bem enquadrado no Universo. Quando visto aquela t-shirt sinto-me em casa onde quer que esteja. Não se estranhe por isso que, com limite de peso na bagagem e tanta coisa para trazer, quando vim para Moçambique, há dois anos, a primeira coisa a fazer, foi guardar um espacinho na mala para minha t-shirt Linus Van Pelt.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

3 thoughts on “O Efeito Linus Van Pelt

  1. Só tu para me fazeres rir assim pela manhã!!!

    E diz-me uma coisa: também chupas o dedo como o Linus? 😛

    Beijinhos, JP!

    Gostar

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