Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Crónicas de Maledicência – O Facebook e Eu

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Crónicas de Maledicência – O Facebook e Eu

Não pretendo ter razão. Nem sequer pretendo traçar uma teoria. É só um sentir. Holístico, sim. Mas verdadeiro porque verdadeiramente sentido. E não há, da minha parte, qualquer pretensiosismo. Sinto isto e pronto.

Eu acho que temos vindo a estragar o Facebook. A deteriorá-lo enquanto rede social. E quanto mais tempo passa, pior se encontra o universo azul da procrastinação.

Certo, certo, é que, quando comecei a usá-lo, sentia um certo prazer e um certo regozijo em andar por ali. Ultimamente, evito esse ambiente porque antes de entrar se apodera de mim uma sensação de desconforto e desassossego. Só não fecho a porta porque valem a pena os amigos que por ali contacto e com que converso e vale a pena como instrumento de divulgação daquilo que escrevo.

E como veio isto a suceder? Foi paulatina, a mudança. Inicialmente, era só um espaço onde encontrávamos amigos e conversávamos despreocupada e respeitosamente sobre coisas banais, aspetos em comum, viagens, férias, família, curiosidades. Receita ligeira, portanto. Depois veio a fase da lamechice. Longos textos ou animações com máximas de vida. A malta passava ao lado. Depois veio o humor. Pessoas a dar tralhos de skate ou bicicleta, mergulhos mal sucedidos e tudo o que pudesse fazer rir. A fazer rir, mas a puxar para a consciência social, ou falta dela, chegou a fase dos acidentes de automóvel, sobretudo da Rússia. Veículos em movimento ou câmaras em túneis captavam as imagens para cruel regozijo dos consumidores. Tudo isto era tão desnecessário quanto inofensivo. Acontece que a rede social cresceu, mudou de aspeto, subtilmente tornou-se mais eficaz, chegaram os telemóveis andróides e similares e tudo se alterou. Subitamente, surgiram moralistas, ativistas, gente de missão consciencializadora e moralizadora em punho e vai de expôr ao mundo as desgraças do próprio mundo. Ao mesmo tempo que proíbe palavrões, o Facebook permite um filme com uma execução humana em massa, ou com um homem a maltratar a mulher, ou um homem a maltratar crianças, ou animais a serem violentamente agredidos, ou pessoas a perecerem vítimas das drogas, ou pessoas a comerem um peixe frito e, simultaneamente, ainda vivo, ou os estropiados de um acidente automóvel, ou crianças famélicas a arrastarem-se pelo chão, já sem força, e a implorarem ajuda. Se eu quero fechar os olhos a tudo isto? Não. Claro que não. Eu sou a favor da consciência e da responsabilidade social. Defendo a solidariedade e a fraternidade entre os homens. Mas também penso que tudo tem um espaço e o Facebook nasceu como um espaço de interação social informal e despreocupada. É certo que ele será o que quisermos, mas será que queremos mesmo converter esta rede social numa montra do dislate e da miséria humana? É curioso que, quanto mais humanizado está, mais desagradável se tem tornado. E é aqui que eu penso que temos de parar para pensar. Se esta rede social for uma montra do nosso comportamento e da nossa evolução, então as notícias são muito más.

Se sairei? Não. Continuam por cá os amigos, continua a ser um veículo de comunicação diversificado e eficaz. Mas, das duas uma, ou os mentores começam a dividir isto por temas e áreas de partilha e debate, ou começo a fazer incursões cirúrgicas e a desligar-me cada vez mais da rede social azul. É que me preocupa um aspeto, para mim, fundamental: o Facebook tem vindo a cercear a nossa liberdade de escolha, tem vindo a invadir a nossa presença com aquilo que não procuramos, tem vindo a transformar-nos e não a ser transformado por nós. Tem vindo a diminuir a nossa sensação de conforto e bem-estar e a tornar-se cada vez mais desconfortável e despropositado. E quando isso acontece, está na hora de partir.

Tenho dito!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

One thought on “Crónicas de Maledicência – O Facebook e Eu

  1. … e pior do que tudo isso, o Facebook, entre muitas (in)conveniências, vai matando a arte e o encanto de as pessoas se irem conhecendo. “Graças” ao Facebook, em menos de nada, fica-se a saber quem é quem, estado civil, se tem filhos, onde trabalha, os familiares, que música gosta, o que gosta (se for o caso) de ler, a música e os filmes de que gosta, onde foram passadas as últimas férias, com quem se relaciona, como se diverte, muitas vezes até traços de personalidade… Chega a ser assustador a quantidade de informação que se pode colher de uma pessoa de quem se sabe apenas o primeiro e último nome, com meia dúzia de cliques e sem que ela suspeite. Que dizer-se de marido e mulher que vivem na mesma casa, dormem na mesma cama, mas têm “necessidade” de ser “amigos” no Facebook? E pais e filhos “amigos” no Facebook? Pode ser giro. Mas há relações que dispensam as (in)conveniências típicas do Facebook em determinados aspectos.

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