Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

A Paixão de Madalena – Capítulo 15

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[Aqui se apresenta o 15º de 35 capítulos do romance que publicaremos em breve em livro. Neste blogue publicaremos ainda mais dois capítulos como forma de oferecer aos nossos leitores uma avaliação do mesmo. Depois… convidá-los-emos para a sua apresentação pública]

A Paixão de Madalena

Livro II – O Cordeiro de Deus

15. Quanto valem cinco anos? Quanta vida cabe nesse tempo? Quantas mudanças? Há cinco anos, Madalena reclamou para si a custódia de Mariana e lhe fez uma festinha pelo seu décimo aniversário. Há cinco anos, Madalena reencontrou Pablo Sentido e com ele iniciou um caminho de estabilidade, de progresso e sucesso. Há cinco anos, Jacob tinha cinco. E agora, que corre o ano da Graça do Senhor de dois mil e cinco, Madalena sente-se feliz por ter sido presenteada com o dom da contemplação. E por isso ficará para sempre grata a Pablo. Madalena vive com desafogo e conforto e tem podido contemplar o crescimento dos seus filhos. Acompanha Mariana na escola, esteve com ela na primeira menstruação, Não minha querida, não tens um cancro e não vais morrer, escolheu os materiais escolares com ela ano após ano, foram às compras, deram passeios só para meninas e ficaram cúmplices. Para sempre. Aprendeu a viver colm Jacob. Com a ajuda de Pablo, tentou perceber exatamente onde se localizava a doença como se, ao identificar a sua localização, pudsesse combatê-la melhor, pudesse olha o mal nos olhos e fazer-lhe frente. Rapidamente percebeu que não poderia ser esse o seu papel. O seu filho tinha nascido com uma deficiência, mas ele era a herança de Kyle,m era o centro do seu universo. Na sua forma de ver as coisas, Madalena não queria que Jacob se adaptasse ao Mundo, pelo contrário, faria todos os possíveis para que o Mundo se daptasse a ele. Controu-lhe a medicação até interiorizar o processo, até o próprio Jacob interiorizar os rituais. Mandou-o sempre à escola, só para estar com outras crianças, para ter amigos. Percebeu que aprender, no caso do seu menino, seria uma processo com ritmos, conquistas e sucessos diferentes da maioria das crianças. Estudou-lhe os gostos, os ambientes que o tornavam mais calmo, as pessoas que o faziam sentir-se mais tranquilo. Jacob sentia-se bem no seu pequeno universo. Dispensava com facilidade a escola. Mariana, Madalena, a avó Bá e Pablo já eram muita gente, mas eram gente com que aprendera a contar. Pablo cumpriu a promessa que fizera a si mesmo, foi um apoio incondicional e determinante para Jacob. O miúdo aprendeu a confiar nele e foi com ele que teve algumas das conversas mais complexas que uma criança com aquele problema consegue ter:

– Pablo…

– Sim, jacob, diz-me…

– Há pessoas boas, não há?

– Claro, Jacob.

– E há pessoas más, não há?

– Sim, Jacob, mas as pessoas más são menos.

– Tens a certeza?

– Sim, tenho.

– Então, porque é que aparecem tantas pessoas más na televisão?

– Ora, porque as pessoas más não têm muito que fazer e gostam de aparecer na televisão.

– E as boas?

– Estão a fazer coisas boas enquanto as pessoas más aparecem na televisão.

– Já percebi, Pablo.

– Claro que percebeste, Jacob.

Havia, contudo, um universo que Jacob adorava para além do conforto da sua casa e dos afetos que habitavam nela: o jardim zoológico. O miúdo adorava animais e entusiasmava-se a percorrer a via sacra das aves, dos répteis, dos mamíferos, o aquário. Tudo o que fosse animal parecia exercer sobre ele um fascínio particular, iluminava-se-lhe o rosto e o peito enchia-se de felicidade. Madalena visitava o zoo com frequência, chegara mesmo a ter rotinas e ciclicamente passava por lá um sábado com o filho, levava um lanche e depois pedia-lhe que fizesse desenhos, mas o que Jacob adorava fazer e foi considerado pelos especialistas como um significativo progresso, era imitar os animais. Os ruidos e os movimentos deles. Os livros e os filmes sobre a vida animal começaram a cair-lhe no colo com grande frequência. Qualquer pretexto servia, um aniversário, o Natal, um anúncio na televisão… em pouco tempo tinha uma assinalável biblioteca e uma considerável coleção de filmes, tudo sobre a bicharada. Madalena preocupo-se em proporcionar-lhe a estabilidade afetuosa que lhe haviam dito ser benéfica, dedicava-lhe muito tempo, tempo de atenções redobradas, tempo de qualidade. E a criança cresceu conversando mais do que é costume nestes casos, interagindo mais do que é costume nestes casos, e tudo isso o roubou aos grandes silêncios, aos dias consecutivos sem sair do seu casulo de pensar. Não se entusiasme, caro leitor, não houve, não haverá, nunca, cura para o mal de Jacob, mas o ambiente que Madalena construiu à sua volta fez dele um menino curioso e dinâmico, desperto para a vida. E na vida, por improvável que pareça, Jacob encontrou o seu lugar, encontrou acolhimento. Em tempo oportuno contaremos como veio tal a suceder.

Precisamente em dois mil e cinco, Madalena seria confrontada com um desafio. Nada a que estive ou ficasse obrigada, mas algo a que não resistiria por duas razões. O compromisso com dar o melhor a Jacob, e certo saudosismo adormecido no seu peito. Certa manhã de domingo, depois de folhear calma e pacientemente um livro sobre animais, de ter visto o mesmo filme uma vez mais, Jacob perguntou:

– Mamã, África é longe?

– É sim, bebé.

– Muito longe?

– Longíssimo!

– Nós podemos ir a África?

– Acho que não, bebé, é mesmo muito longe. Tu querias ir a África?

– Queria. Os animais estão quase todos lá. Podemos ir a África, mamã?

Acho que não, bebé, é mesmo muito longe.

– Mamã…

– Sim, bebé, diz-me…

– Podemos ir a África de prenda de anos?

Dizer-lhe que não foi fácil. O difícil foi viver com a consciência de que aquela criança raramente lhe pedira algo, era um menino satisfeito por natureza, tranquilo de caráter, sem solicitações, nem problemas causados. Acordara-lhe um gosto, despertara-lhe uma razão para entusiasmar-se com a vida, havia conseguido isso, que sentido faria, agora, recusar-lhe o alimento para o espírito? Sim, era isso que Jacob acabara de pedir-lhe, alimento para o espírito.

Estava há quatro anos na empresa. Não tinha faltado um único dia. Apresentou a ideia de se ausentar por nove meses em missão humanitária com a Cruz Vermelha que aceitara a sua candidatura e o primeiro critério fora tratar-se de alguém que já tinha estado em missão antes. Iria para os arredores de Joanesburgo, no High Veld, para uma missão cuja tarefa principal consistia em prestar cuidados a vítimas do HIV, sobretudo crianças que já nasceram infetadas. Escreveu longos e-mails a Mark e Marcelle contando tudo acerca do seu projeto. Ambos lhe deramimenso apoio. Pablo Sentido prontificou-se a ficar com Mariana e acompanhá-la nos estudos. Ainda ponderaram ir os quatro, mas Pablo não podia. Eram muitos os compromissos de trabalho e, além disso, Madalena percebeu que após cinco anos de vida conjugal, Pablo ia apreciar aquele tempo só para ele. Assim que a empresa lhe deu luz verde, confirmou tudo com a Cruz Vermelha e poucos meses depois estava a embarcar.

“Os outros chamam-lhe África, nós chamamos-lhe a nossa casa”. Era assim que estava escrito no aeroporto internacional de Joanesburgo. E Madalena sentia-se em casa. Nunca percebera porquê. Já da primeira vez, com Kyle, se sentira acolhida não obstante as dificuladades da viagem. Agora via-se envolvida num projeto menos ambicioso. Seria menos tempo e teria um objetivo único e muito preciso. E, contudo, sentiu-se de novo em casa. Havia qualquer coisa na atitude dos africanos, qualquer coisa no clima, qualquer coisa na organização ou na falta dela, que a atraía e lhe fazia medo ao mesmo tempo. Mais atração. Estava há pouco tempo no acampamento, ainda a aprender os ritmos e em que poderia ser útil, haviam passado meros cinco sóis e outras tantas luas, quando a chamaram da enfermaria improvisada à entrada do acampamento. Alguém queria falar com ela. Eram Mark e Marcelle. Foi um longo abraço a três, foram beijos incontáveis, foram lágrimas escorregadias, foi ouvirem-se a voz. Tinham passado três anos desde que estiveram juntos e parecia que fora ontem. Trocavam e-mails e com eles fotos e vídeos e acompanhavam-se de perto, mas nada disso substituía um abraço verdadeiro com o calor do corpo do outro estreitado no nosso. Não puderam todo o tempo da missão, mas estiveram três meses juntos. Quase juntos. Mark comprou uma máquina fotográfica e um jogo de lentes para Jacob e foi com ele explorar o interior e ver os animais. Saíam num dia, voltavam no dia seguinte, dois dias depois, ou mesmo uma semana mais tarde. Por vezes Marcelle acompanhava-os, outras vezes ficava com Madalena. Tiveram conversas infinitas e por esses dias voltaram a ser o inseparável grupo dos três emes. Aos fins-de-semana estava juntos. Sobretudo ao domingo. Um dia Mark desafiou-as:

– Este sábado vai haver um bush fire na Suazi. Devíamos ir.

– Devíamos? Perguntou Marcelle.

– Claro. É o melhor de África. A noite imensa, uma fogueira a arder, carne assada, música, conversa.

– Eu concordo com o Mark – disse Madalena – não há nada como uma fogueira na noite africana.

E foram. Dançaram, beberam, conversaram até quase de manhã. Enrolaram-se em mantas leves e ficaram a riscar o chão com um pau, a traçar loucas teorias de vida. Jacob dormiu enrolado em mantas e sentiu-se confortado pelo ruido à sua volta. Era já quase madrugada quando regressaram à cabana que haviam alugado num lodge ali perto. Madalena foi aconchegar Jacob e juntou-se aos outros dois na sala onde a luz que havia emanava de dois candeeiros a petróleo.

– E se jogássemos o nosso indiscreto jogo das apostas?

– A menina gostou!

– Claro. E agora estou mais preparada.

– Ah, quer dizer que andou a pensar em indiscrições?

– Claro que sim! Não é o que toda a gente faz?

– Não temos cerejas com chocolate.

– Mas temos chocolate, ando sempre com chocolate, parte-se aos bocadinhos e vai ter de servir.

Marcelle começou. E o jogo não viria a ter mais do que uma pergunta. Escolheu Madalena como alvo:

– Aposto em como já fantasiaste fazer amor comigo e com o Mark…

Madalena colocou um pedacinho de chocolate entre os lábios e estendeu o pescoço para a amiga que o veio buscar demoradamente, com saudade e volúpia e, enquanto o fazia, Madalena estendeu uma mão para Mark, encontrou a mão dele e encaminhou-a para o seu sexo. Ele percebeu e acariciou-a e depois quis compensar Marcelle e ela deixou e quando a aurora despontou e a luz natural começou a enfraquecer a dos candeeiros, três corpos cúmplices tombaram no chão da sala enrolados em mantas e sacos-cama, semi-nus e semi-cobertos. Saciados para a vida.

Não espere o leitor que esta comunhãi se repita. O improvável e inseparável grupo dos três emes vai separar-se dentro de dias e os três nunca mais estarão juntos. A vida não quererá. O Mundo não está preparado para pessoas como Madalena, Marcelle e Mark. E muito menos está preparado para que se encontrem e fiquem juntos. Serão inseparáveis nos seus corações. Mas só isso. A seu tempo saberemos o que reservou o Destino para cada um deles, mas sabemos já que não lhes reservou mais nenhum momento em conjunto. Onde há demasiado amor, onde há demasiada ausência de preconceito, costuma vingar o próprio preconceito. Estranha condição… disse o poeta e essas palavraslhas roubamos agora precisamente porque o amor que unia estes três sufocou em si mesmo, impediu-se antes de se ter tentado, nunca foi mais do que um desejo reprimido. Impedido. Impossibilitado para que cada um pudesse, por si, ter uma vida. E, contudo, de que vale a vida sem esse mesmo amor? Por mais que nos amemos e nos lavemos os pés e nos purifiquemos, há sempre um pó que se agarra à pele, se cola à carne, às roupas e nos mancha a existência.

—————————— jpv ——————————

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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