Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Crónicas de Maledicência – Daqui, eu vejo um país…

2 comentários

portugal

Crónicas de Maledicência – Daqui, eu vejo um país…

Daqui, eu vejo um país…
Preparado para o ébola, mas incapaz de resistir a um surto de legionella, nem tão pouco a perceber a sua origem.
[Nós, emigrantes, por aqui mais comummente designados de expatriados, não só temos uma visão distante da nação, como, mais do que por vezes os nossos irmãos pensam, sofremos na pele as consequências do que se passa em Portugal. Seja porque sofremos consequências diretas, seja porque as sofremos de forma indireta, nomeadamente, pela confrontação das misérias da nação. Viver no estrangeiro não é estar mais longe. Bem pelo contrário. É ser um símbolo, alvo fácil, de tudo o que se diz e faz em Portugal. Desde os resultados do futebol, às politiquices caseiras ou às opções e atitudes de política externa. Recentemente, ouvimos com espantado agrado que Portugal estava preparado para um surto de ébola, caso o mesmo viesse a registar-se. Afinal, dizem-nos por aqui, viver na África subdesenvolvida é mais seguro. A água até pode nem ser potável, mas a população sabe! A incapacidade para lidar com o fenómeno legionella deixa-nos preocupados com os nossos familiares e apreensivos em relação às verdadeiras capacidades do país para reagir ao que quer que seja.]

Daqui, eu vejo um país…
Decente e civilizado, mas a transformar a casa da democracia num circo sem dignidade.
[A chocarreira pouco digna em que se transformou a Assembleia da República de que foi protagonista o Dr. Pires de Lima, infelizmente, não é um fenómeno próprio de um partido. É uma recorrência transpartidária que, de quando em vez, envergonha os portugueses um pouco por todo o mundo. A Assembleia da República não é um bordel, não é um café, não é uma discoteca. É a casa onde se asseguram os nossos direitos e definem os nossos destinos. Nem se coloca a questão de ter razão ou não. Perdeu-a de imediato. Não pode habitar a AR quem age assim, seja de que partido for.]

Daqui, eu vejo um país…
Muito democrático, mas onde a Assembleia da República se preocupa mais com o Orçamento da Câmara de Lisboa do que com o Orçamento Geral do Estado.
[A discussão do Orçamento da Câmara de Lisboa, tenha a importância que tiver, emane de quem emanar, nomeadamente, no caso presente, do homem que ensombra a continuidade do atual Governo, não pode sobrepor-se àquilo que nós, portugueses, realmente precisamos: que se discuta e esclareça o Orçamento Geral do Estado. Quem está de fora pensa: ‘O Costa já ganhou. Até consegue ofuscar o OGE com o Orçamento da Câmara de Lisboa!’, mas a verdade é que o facto é preocupante porque é um sinal inequívoco de que as políticas se exercem em nome da continuidade do poder e não pelo debate e aplicação das ideias.]

Daqui, eu vejo um país…
Que anuncia, ao mesmo tempo, como se fossem fenómenos desligados, a diminuição da taxa de desemprego e o aumento do abandono dos seus jovens para o estrangeiro.
[Apareceu uma figura a provar com matemáticas diversas que a Taxa de Desemprego tinha baixado. Aceito sem discutir. Não sou, nunca fui, bom a Matemática. Mas penso. E não ouvi nesse arrazoado falar dos milhares de jovens que não estão em Portugal porque não conseguem lá viver. Esses, quer queiramos, quer não, são desempregados do nosso país. Ninguém abandona a Pátria como primeira opção de vida. Abandona-se a Pátria quando a vida se torna, nela, insuportável, sem esperança, prenhe de barreiras e cega de oportunidades. E essa é a mais grave e doentia forma de desemprego. É aí que habita o cancro. Passar por cima desses números, é ignorar os sacrifícios dos que partem com a esperança de um dia voltar. Essa esperança tombou pesada e teima em não reerguer-se.]

Daqui, eu vejo um país…
Com excelentes condições para se viver, mas onde se não consegue viver.
[Sempre que os portugueses expatriados comparam Portugal com qualquer outro país, nomeadamente, aquele em que estão a viver, a nossa terra sai a ganhar. É sempre o melhor sítio para se viver, é sempre o local onde tudo é melhor. E é! Mas já vamos evitando falar nisso porque, não raro, surge a pergunta, ‘Então porque é que não está lá?’ O irónico é que ninguém percebe a resposta ‘Porque não posso’. A verdade, é que Portugal tornou-se tão evoluído, os seus equipamentos sociais são tão bons, as condições de vida são tão fantásticas, que o país deixou de estar ao alcance do português comum. E nasce aqui o paradoxo social do ‘País demasiado desenvolvido”. O país são as pessoas, antes de mais. E as pessoas ou sofrem imenso por estar em Portugal, ou não conseguem lá estar. Depois há os outros, aqueles para quem o Paraíso foi erguido. Mas esses são um minoritário grupo de privilegiados…]

Daqui, eu vejo um país…
Com excelentes trabalhadores, mas cujo mérito é sempre reconhecido no estrangeiro.
[A malta aqui até já se ri. E gozam connosco! Sempre que um português tem um sucesso estrondoso, sempre que o seu mérito é social e profissionalmente reconhecido, isso acontece fora de Portugal. Das duas uma, ou os portugueses só têm comportamentos de excelência fora da terra natal, ou os portugueses de excelência estão todos fora do país, ou o país não vê e não reconhece o mérito dos seus cidadãos. É um penoso motivo de orgulho ler as notícias de grande sucesso dos portugueses e constatar que ou são notícias de reconhecimento de terra aliena, ou são notícias de reconhecimento em terra aliena.]

Daqui, eu vejo um país…
Muito preocupado com o estado da Nação, mas onde as casas políticas se digladiam pelo poder através do insulto pessoal, sem debate real de ideias e onde a tal Nação é preterida em nome de jogos de interesses.
[Quando as situações de crise se agravam, seria de esperar uma espécie de toque de recolher armas e trabalhar em prol de um bem maior, o estado da Nação. Não acontece. A primazia é invariavelmente a da divisão, a procura, antes de mais, do que divide os responsáveis pelo país e não aquilo que os deveria unir. Não há inocentes. O primeiro que se auto-proclamar inocente constitui-se, ato contínuo, culpado. Quem está de longe, não de fora, olha com desespero e incredulidade para as opções discursivas, os insultos, as picardias e a confrangedora falta de soluções que os políticos apresentam.]

Daqui, eu vejo um país…
Preocupado, tão preocupado, que os reality shows ganham nas sondagens logo seguidos das transmissões de futebol.
[Ou é o Sporting que perde, ou é o Porto que empata, ou é o Jesus que dá uma entrevista, ou são as diversas Casas com poucos segredos, ou são as tardes da Maria e as maratonas televisivas em que é sempre possível fazer fortuna com uma simples SMS, tudo isso invade as televisões e as notícias cibernéticas. Quando se tenta fugir a essas rotinas, embate-se no sensacionalismo vazio do homem que se suicidou com dois tiros de caçadeira e anda a monte! Cultura… Educação do gosto… O primado da qualidade na produção, isso são coisas raríssimas. Quase parece que alguém anda a entreter alguém… Uma coisa é certa, e disso não nos podemos queixar, todos sabemos em tempo útil e atualizado, como vai a vida emocional, gastronómica e a saúde física do CR7. Mai nada.]

Daqui, eu vejo um país…
E o que vejo é-me livremente oferecido pela televisão… ao longe. Imaginem, se olhasse de perto…
[Olhar de longe não é ver menos, mas, admito, pode falhar-nos o pormenor. O mais grave, penso, é que nós, portugueses, não sabemos da missa nem a metade. O que nos chega é escrutinado, selecionado, tratado e apresentado, na maior parte dos casos, já com os juízos de valor construídos. Aqui, longe, mora a preocupação e a impotência. O desespero. E mora, também, a certeza de que a verdade nos é servida às fatias, só aquelas que conseguimos engolir e pagar, à vez, e depois surgem outras, e outras, e outras, e acabamos a perguntar-nos, todos, porque pensamos nos nossos filhos e nos nossos netos, ‘Mas isto não tem fim’? É preciso que estas trevas, é preciso que este tolhimento tenham fim. É preciso que os nossos descendentes herdem um pouco mais do que esta trapalhada sócio-económico-política em que se transformou um país que em tempos valeu a pena. Olhamos em volta e não vemos as almas grandes. As maiores. E somos portugueses… todos…]

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “Crónicas de Maledicência – Daqui, eu vejo um país…

  1. e, quem aqui está vê tudo isso muito perto e nem sabe se há de sentir só vergonha, ou também muita tristeza: as duas coisas, com certeza, e muito mais!

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