Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

O Ofício da Memória – 3

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oficio-da-memoria-3-logoO Ofício da Memória – 3 O Livro

Há uma altura das nossas vidas em que tudo parece estar relacionado com a escola. Quase como se ela fosse a fonte de toda a vida, o mar onde todos os rios de afetos vão desaguar. Esta história nasce na escola, vive na escola e adormece com a escola.

Era um miúdo bem disposto. Um tanto inconsciente. A inconsciência própria da idade. E queria poucas coisas naquela altura. Salvar o mundo, amar todas as mulheres e ser poeta. A descoberta das palavras e do poder delas traziam-no encantado. Deixou-se entusiasmar, até porque era de entusiasmos fáceis, com as palavras que a professora escolhera para apresentar aquele livro. Um livro sobre a Liberdade. E lá foi à procura do livro, carteira de cabedal no bolso com o B.I., uma nota de vinte escudos, um bilhete de elétrico e o cartão de leitor da Biblioteca Municipal. Como sempre fazia, passou as mãos no imenso balcão de madeira maciça a sentir-lhe o toque e o odor a lenha e a livros. Estendeu o cartão de leitor e o papelinho da requisição onde já ia escrita a quota do livro para que pudesse ser encontrado com facilidade. Muito requisitado devia ser o livro porque a senhora demorou poucos segundos a trazê-lo. Era pequeno, pintado de negro como a vida das pessoas nele, uma estrela de David em rosa forte a ocupar o centro da capa, o título e o autor. “O Judeu”. Bernardo Santareno.

Ainda bem que leu o livro todo. Se não o fizesse, esta história não teria acontecido. Gostava de ler na sala da biblioteca. Fazia-o sentir-se importante, como se tivesse acesso a um clube restrito de privilegiados, e gostava da sensação de ler um livro rodeado de livros antigos, amarelecidos pelo tempo e desgastados pelo uso. Até que foi surpreendido. Ia algures pelo meio do livro, e sempre há aquelas páginas que ficam em branco porque acabou um capítulo ou, neste caso, uma cena, um ato, e nessa página em branco alguém tinha escrito um poema. Ocupava toda a página. Estava escrito à mão, com uma caligrafia ímpar, ornada de voltas retorcidas a começar e a acabar as letras e, sendo complexa, havia nessa complexidade certa harmonia. Era belíssima.

Preocupou-se. Era um texto muito bem construído, mas perturbante. Falava do aprisionamento da alma, de lobos e unhas sangrentas e anunciava um fim. Um suicídio. Será que acontecera? Teria aquela alma perturbada entregado o livro à mesma senhora que lho dera a ele e partido a cumprir o destino que escrevera? Custou-lhe separar-se daquele texto. Não conseguiu. Decidiu fazer uma requisição domiciliária e saiu da biblioteca com “O Judeu” debaixo do braço. Versão aumentada com um poema que obliterara a luta e o destino do António José da Silva.

Trabalho de Grupo

Desde que me conheço, sei, por experiência, que tudo, ou quase tudo, seja bom ou mau, é culpa dos professores. Enfim, substitua-se culpa por responsabilidade e a versão fica mais intrigante e… polida. A professora queria um trabalho de grupo sobre “O Judeu” de Bernardo Santareno e teve a impertinência de pré-selecionar os grupos de trabalho. Como sempre, o moço de que aqui se fala estava entusiasmado e queria saber quem lhe calharia em sortes. Eram grupos de três ou quatro que começavam a dispor-se na sala com o burburinho animado de quem se prepara para trabalhar em conjunto. Foi isto no tempo em que uma aula com trabalho de grupo era diferente. Para seu espanto, a professora distribuiu-os todos até que restaram só eles. Mais ninguém. Só os dois. Ele nem tinha bem a certeza de que dois poderia ser um grupo. Um ajuntamento não era, por certo, desde que Salazar definira que para haver um eram precisas três ou mais pessoas. Era uma moça discreta. Participava pouco. Preferia o silêncio das palavras. Parecia ter uma maturidade superior à generalidade dos colegas. O cabelo farto a emoldurar a face oblonga donde emergiam uns olhos redondos e enormes, marejados de curiosidade e, descobriria mais tarde, atrevimento. Um semblante triste de onde despontava de quando em vez a luz de um sorriso. Não reparou de imediato noutros atributos. Seria ela a acordá-lo para eles. Chamava-se C. Começaram por reler o livro, pelo menos, as partes mais importantes. Ele trazia consigo há vários dias o exemplar da biblioteca e o seu misterioso poema de sangue e morte anunciada. Ela tinha fotocópias. Depois, discutiram as ideias. A rapariga inteligente e sensível por trás da máscara da colega tímida e contida começou a revelar-se. Era contundente nas palavras e agarrava-se às suas opiniões como se as não quisesse largar. E debateram um debate aceso e entusiasmado, discordante e concordante, e acertaram no caminho a dar ao trabalho. Quando decidiram escrever, ela puxou de uma caneta, começou a tomar notas e ele fez o que  nunca fizera antes na sua vida de estudante. Pediu para ir à casa de banho.

Revelações

Enquanto lavava a cara com água fria, vários pensamentos lhe cruzavam e baralhavam a mente. Seria impressão sua ou, efetivamente, a caligrafia da C era a do poema com lobos e desespero nas páginas intermédias de “O Judeu”? Se fosse, o que fazer com essa informação? Como agir? Dizer-lhe? Não lhe dizer? E, por fim, o que mais o perturbava era o significado daquela imensa coincidência. Tantas escolas na cidade, tantos livros na bilbioteca e nas livrarias, tantas turmas naquela escola, tantos alunos naquela turma… tinham de ser dois leitores da mesma biblioteca a quem calhou o mesmo exemplar, que andavam na mesma escola, ficaram na mesma turma e foram unidos pela professora num inusitado grupo de dois! Dois e um livro. Dois e um poema. Talvez, afinal de contas, fossem um ajuntamento.

-Essa letra é tua, certo? – Hã?! Sim, é. – Fazes sempre a mesma letra? – Sim faço. Avançamos nisto? – Claro. Mas preciso mostrar-te uma coisa. Foste tu que escreveste isto? – Fui. Estava num dia mau. – Isto é muito bom. Escreves muito bem. – Achas? – Tenho a certeza. – Eu não acho. – É triste… – Pois… – Pensaste mesmo… – Estou sempre a pensar. Não é que o vá fazer, mas penso nisso. A escrita é um desabafo.

O trabalho fez-se. Apresentou-se, entregou-se, não me lembro da nota que tivemos nele. Lembro-me do olhar dela, sorrindo na minha direção enquanto eu o apresentava. E lembro-me de que a professora também sorria. Lembro-me que continuámos a conversar e a debater ideias. Lembro-me de que gastávamos todo o tempo livre nisso. E lembro-me, neste delicioso ofício da memória, de que não acordei para ela de outra forma. Foi ela que fez a gentileza de despertar-me. À bruta! Talvez por eu ter o sono pesado.

O A e a R andavam a acercar-se um do outro. Devagarinho. E convidaram-me para um baile temático numa paróquia da cidade. Perdoai-nos, Senhor, se for pecado, o que estamos prestes a fazer esta noite. Eu fui. E quando lá cheguei, encontrei a C, sentada a um canto, mais entediada que as coisas entediadas. Soube depois que ela estava ali para fazer o jeito à avó. Assim que pude, despachei o A e a R, ou foram eles que me despacharam a mim, já não sei, e fui ter com ela. Pedi-lhe para dançar. Era o que se fazia naquele tempo, mas em abono da verdade, nenhum de nós fazia muita justiça ao verbo. Estávamos às voltas na pista, agarrados um ao outro, mais conversando do que dançando, quando ela perguntou sem mais avisos nem rodeios:

– JP, tu és potente?

O moço ficou ali parado, quase engasgado, engolindo em seco e pensando se a pergunta teria alguma coisa a ver com carros. Era óbvio que não tinha. Naquele caso, o motor era outro. E sentiu-se dividido entre a obrigatoriedade máscula de dizer que sim e a honestidade de não saber a resposta para aquela pergunta. Sabia lá se era potente! Sabia lá o que era ser potente! Nunca ninguém se queixara, mas não sabia, sequer, que isso se media ou que a questão podia colocar-se assim. E também não sabia se nunca ninguém se queixara por satisfação ou pudor crítico. E, isto lembro com precisão, a resposta saiu-lhe o mais honesta possível sem que, contudo, criasse barreiras ao que parecia anunciar-se.

– Quer dizer, não sou nenhum super-homem, mas cumpro a minha parte. – Está bem, mas quantas?

Ele refugiara-se numa formulação genérica, à laia de um descritor impreciso de boas práticas, mas ela avançava pelos objetivos específicos dentro com a mania da mensurabilidade. Não ficou sem resposta.

– Sei lá, duas, três… também depende da outra pessoa.

Nunca soube o que a C pensou da resposta, mas lembro com clareza o que ela disse a seguir:

– Vamos embora daqui? – Vamos.

E não fomos para longe. Os beijos apaixonados e as carícias voluptuosas começaram no jardim atrás da igreja, prolongaram-se calçada acima e vieram a fazer-se mais confortáveis no que restava de um mosteiro abandonado. Foi toda uma descoberta, todo um desvendar, toda uma volúpia e uma sedução. Não havia dúvidas, aquela pessoa desfolhava-o a uma velocidade impressionante e ensinava-o a ser melhor do que sabia. E ele fez-se generoso na entrega e na investidura e perdeu o conto às contas que planeara fazer.

– Amanhã é domingo, a minha mãe não está. Queres ir passar a tarde lá a casa?

Ele andava há muito a preparar-se para o Académica-Sporting do dia seguinte e homem que é adolescente não falta a esses compromissos. Demorou um segundo a decidir-se.

– Quero. Claro que sim.

Quando se despediram, ele voltou ao salão de baile, encontrou o A, estendeu-lhe o cartão de sócio da Briosa e disse, Toma, vai tu ver o jogo! Então, já não vais? Não, surgiu uma coisa mais interessante. O A era parecido na fisionomia consigo e tinha-lhe pedido o cartão de sócio para ir ver o jogo sem pagar. Ficou com um sorriso nos lábios. Não sei o resultado. Sei que disse em casa que ia ao jogo, não porque costumasse mentir, só para evitar perguntas, e quando regressei dos meus jogos com a C perguntei o resultado final a alguém na rua não fosse a pergunta ser-me atirada em casa…

Foi uma das mais memoráveis tardes da minha vida. Todo um dar, todo um receber, toda uma diversão e um despudor. Ter o tempo todo do mundo para descobrir aquele mundo todo. Aconteceram outras tardes, manhãs, noites, conforme a oportunidade se nos apresentava. Às vezes conversávamos, vasculhávamos as gavetas da mãe da C à procura de anticoncetivos, quaisquer que fossem, e usávamos tudo. E olhávamo-nos nos olhos. E ríamo-nos. Lembro-me das manhãs tórridas de terça-feira, cada segundo contava, cada loucura parecia querer estender-se para além do tempo possível. E eu ficava até ao limite dos segundos necessários para estar a horas na aula de Grego, pelas catorze. E chegava suado dela e do elétrico, atrasado, claro, e sentava-me e cheirava a prazer e a sexo e a minha mente não entrava comigo. O professor olhava-me curioso assim como quem se pergunta, Mas donde é que este saiu? E só eu sabia de onde tinha saído… e era para lá que queria regressar o quanto antes.

Nunca poderei agradecer o suficiente à C por aquele abrir de olhos, por aquela passagem do missionarismo à descoberta plena do corpo e do prazer. Um dia levei comigo um objeto dela. Era um skate. Meses mais tarde devolvi-lho. Beijámo-nos. Dissemos adeus como tínhamos dito olá. Vi a C na faculdade. Poucas vezes. Depois disso, nunca mais. E, contudo, a memória desses dias une para sempre o menino à rapariga dos olhos grandes.

A Troca

Chegou o tempo da C fazer anos. Claro que queria dar-lhe um presente bonito e com significado. Fazíamos isso, naquele tempo, construíamos os presentes, mais do que os comprávamos. Fui à Livraria 115, comprei “O Judeu” de Bernardo Santareno, escrevi uma carta à Biblioteca Municipal dizendo que pretendia trocar um livro velho por um novo e prontifiquei-me a oferecer o novo. A troca foi aceite com um obrigado e o poema voltou à sua origem, à sua criadora. Reuniu-se com a poetisa. Ela desembrulhou o livro, fez um sorriso, agradeceu-me e beijou-me nos lábios. Às vezes, tenho a sensação de ainda ver esse sorriso a esboçar-se sob o olhar redondo e grande onde uma lágrima viera espreitar. Às vezes, neste complexo e conturbado ofício da memória, já não sei bem o que aconteceu e o que fui eu que inventei, mas sei sempre que a memória da C é quente e acolhedora e repleta de gratidão e revelações.

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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