Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

De Rerum Natura

5 comentários

6deed-jp-04O único princípio realmente genuíno nos seres humanos é o egoísmo.
Até mesmo os gestos altruístas são orientados por um profundo egoísmo. Sobretudo esses.
Nós, humanos, somos visceralmente incapazes de ver além do nosso umbigo. E quando o fazemos, a visão é distorcida pela nossa premência egocêntrica.
Todas as formas de partilha, de companheirismo e solidariedade constituem um exercício racional de hipocrisia.

Na generalidade, não aceitamos isto. Lutamos contra isto e tentamos ser superiores à nossa própria condição. Há nobreza nesse ensaio. Mas só isso. A teia, o vórtex umbilical, é mais forte porque a verdade é que a incomensurável dimensão do universo, os biliões de estrelas e galáxias, não interessam para nada sem que sejam validadas pela singular e ínfima existência de cada um. De cada ser. Humano. A velhinha que se ajuda a atravessar a estrada, o dinheiro que se deposita naquela conta com muitos algarismos que se anunciou na televisão e vai para ajudar crianças carenciadas não se sabe bem onde, um saco de arroz e um pacote de bolacha maria à porta do supermercado, uma esmola num semáforo a um senhor de cadeira de rodas, nada disso é solidariedade. Tudo isso é um enorme pano encharcado de limpar consciências. O ser humano quando ajuda, não ajuda os outros. Ajuda a sua consciência a sobreviver. Ajuda-se a si próprio a convencer-se de que merece a vida que tem, despoja-se de culpas e arrependimentos e respira de alívio até que voltem. As culpas. Os arrependimentos. Nada do que é humano nos é estranho, mas nada, sendo humano ou não, nos rouba à indiferença se não entrar na esfera dos nossos interesses pessoais, na esfera de validações do nosso ego. Egoístas nos confessamos e professamos o egoísmo a cada dia que passa aprisionados na nossa umbilical condição. É terrível, isso. E maravilhoso!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

5 thoughts on “De Rerum Natura

  1. Gostei, mas quando fazemos e não nos vangloriamos de tê-lo feito é o mais importante, na pior das circunstâncias além de um pano encharcado limpado nossas consciências há aqueles que o fazem ser vistos fazendo.
    Tem um dito popular que diz “o que a mão direita faz, nem a mão esquerda precisa saber” . Agora o egoísmo, egocentrismo e a incapacidade de ver além do próprio umbigo tudo isto é um triste retrato do que o Ser dito “humano ” está se tornando. Obrigado por mais esta boa leitura.

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  2. JP,
    Fazes-nos refletir….
    É verdade que qualquer acto altruísta não o é na realidade… Mas, digamos assim, se não fosse esse alívio que procuramos para a nossa consciência, que seria de todos nós?
    Mas há casos, raríssimos, de abnegação verdadeira! Mas esses, são tornados Santos pelos que restam e não conseguem fazer o mesmo…
    Beijinhos!

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