Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Histórias a Preto e Branco – A Lenda de Dona Gita e Senhor Machado

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Histórias a Preto e Branco – A Lenda de Dona Gita e Senhor Machado

Não é uma ilha. É um banco de areia que o mar nunca cobre. Parece milagre. Talvez seja. Não tem mais de trezentos metros de comprido. Não é uma ilha. É um banco de areia ao largo de Vilankulos.

Ninguém sabe ao certo de onde veio o Senhor Machado. Nem nunca ninguém se preocupou em saber o seu nome próprio. Foi sempre o Senhor Machado e isso bastou para que o chamassem, para que o conhecessem, para que se enamorasse dela e foi com esse nome que a desposou. Meio português, meio chinês, o Senhor Machado traz no nome e no olhar rasgado a mistura étnica que o caracteriza. Foi sempre um homem de gestos simples, de palavras cordatas e atitudes gentis. E foi essa gentileza que a cativou. Quem o vê, hoje em dia, sair da missa de domingo ou passear os seus noventa anos pelas ruas de Vilankulos com o cabelo liso e todo pintado de branco como uma imensa nuvem dessas que bordejam a vila, não imagina a força e o negrume que esse cabelo teve noutros tempos.

O Senhor Machado ainda não tinha vinte anos quando chegou a África. Era um rapaz robusto e atarracado com o corpo cheio de energia e a mente repleta de planos. Procurava uma vida. E deu com um mar calmo e sereno a abarrotar de peixe lá dentro e uma sereia nas suas margens. Eram águas mágicas, de azuis infinitos, ora escuros, ora cristalinos, matizados de safira ou quase brancos. E mudavam a cada maré e traçavam linhas. Todos aqueles azuis, aprendeu com o tempo e a experiência, eram um imenso mapa marinho só possível no Índico. Duas coisas súbitas lhe aconteceram à chegada a Vilankulos. Fez-se pescador. E pediu-a em casamento.

 Casa Machado - VilankulosDona Gita, meio indiana, meio moura, chegou aqui em família de comerciantes. Caminhava ao longo da praia contando as conchinhas e respondendo aos corvos marinhos. Era uma jovem de traços definidos, quase pareciam desenhados a lápis, lábios finos, olhos vivos e as mãos esguias no extremo dos braços caídos ao longo do corpo mais esbelto de Vilankulos. Adorava flores, plantas e árvores. Esse universo miraculoso da sementinha que se põe e brota e dá flor que se converte em fruto que se come e tem lá dentro nova sementinha. Coleciona as plantas. Fala com elas, respira com elas. Os seus cuidados com essas criaturas parecem desvelos de mãe. Quando o viu, quis que ele se enamorasse dela. E ele enamorou. E quis que ele se apaixonasse por ela. E ele apaixonou. E quis que a pedisse em casamento. E ele pediu. E quis que a desposasse. E ele desposou. E quis que a levasse consigo para o mar. E ele levou. Uma ocasião, preveniu-a de que se demoraria por lá várias noites. Ela foi com ele. Usou simples, terno e contundente argumento. O argumento que desarma os homens. Preferia ver-se privada dos confortos que tinha nas margens seguras e firmes do continente do que ficar longe dele. E rematou sorrindo:
– Dormiremos ao sabor das ondas.
– Não é preciso. Tem um banco de areia.

O Senhor Machado aparelhou o dhow, as redes, os apetrechos de pesca, as armações para colocar na areia com o peixe a secar e velejou a embarcação de vela triangular com perícia até ao banco de areia ao largo de Vilankulos. Quando chegou, deslizou o barco para a areia, retirou as armações e abriu-as. Formavam uma espécie de mesas longas com as pernas mais altas numa extremidade. Assim, o peixe ficaria exposto ao sol e inclinado para que perdesse a humidade mais rapidamente. O Senhor Machado fazia as suas investidas pelo mar calmo e azul e trazia o peixe que Dona Gita amanhava e escalava e estendia, aberto, ao sol. E atirava as entranhas para perto e ficava a ver o bailado das aves na disputa pelo alimento. Certo dia, o Senhor Machado demorou-se mais. Tinha avisado Dona Gita que iria mais longe e ela esperou-o contando os azuis, cantando às aves e suportando o sol sob o seu lenço colorido. E começou a deambular pelo banco de areia e levou as mãos aos bolsos da saia e aí encontrou sementes esquecidas. Estranhas e raras por estas paragens. Eram sementes de pinheiro que um português lhe havia trazido de longe por lhe conhecer o gosto por todas as plantas, por todas as flores e pelas ervinhas todas. Distanciou-se do mar e quando percebeu que a areia era seca, sempre seca, foi com gestos simples e gentis que abriu sete covas para as sete sementes que tinha no bolso. E depositou-as uma a uma. Não havia nos seus gestos esperança pois que as condições eram adversas. Um banco de areia rodeado de água salgada, terreno árido, infértil e fustigado por ventos e sóis. Havia certeza! A certeza que põem os loucos e os amantes em tudo o que fazem.

Corria a década de quarenta. Noutras paragens, terminava uma guerra sangrenta e aqui nasciam as sementes do amor. Vingaram todas. As sete. E foram crescendo devagarinho. E Dona Gita e o Senhor Machado acompanharam esse crescimento. Fosse por que sortilégio fosse, as árvores do norte da Europa resistiram e cresceram fortes e altivas por entre azuis inimitáveis num banco de areia no meio do mar Índico ao largo de Vilankulos. E cresceram a dar sombra para pescadores e ajudantes de pescadores, tornaram-se num ponto de referência à navegação e, sobretudo, ergueram-se como um símbolo do amor que perdura, das pessoas que não se separam, dos amantes que colhem juntos o fruto dos seus afetos e o do mar também.

Já tinha visitado Vilankulos antes, mas nunca ouvira esta história. Na Páscoa de 2015 regressei e fiquei alojado no lodge “Dona Soraya” e foi a própria Soraya que ma contou. Era um fim de tarde turquesa, sentámo-nos numa mesa com vista sobre o mar e enquanto repetia o gesto quase obsessivo de dobrar um guardanapo pelo vinco, Soraya contou com emoção o conto de fadas verdadeiro que presenciou. Continuemos, que a história ainda não terminou.

O Senhor Machado e a Dona Gita acabaram por abandonar a pesca. Dedicaram-se ao comércio. O Senhor Machado abriu a “Casa Machado” junto ao mercado central a aí trabalhou até ao ano passado. Ao domingo à tarde, após a missa e o almoço, o Senhor Machado e a Dona Gita caminhavam pela praia, erguiam uma mão aberta sobre o olhar e vigiavam os pinheiros do seu amor. Em 2005 fizeram sessenta anos de casados, toda a vila se reuniu numa festa e numa homenagem ao estranho casal que veio de longe para se amar em Vilankulos e plantar pinheiros num banco de areia ao largo da vila. Cresce o amor em estranhos locais e adversas condições. Soraya fez com suas próprias mãos um vestido para Dona Gita celebrar a ocasião. Em suas infinitas diferenças e matizes de vida, as gentes de Vilankulos encontraram espaço para acolher Dona Gita e o Senhor Machado. E para os respeitar e venerar o seu amor. Esse mesmo imorredoiro amor que sustenta os pinheiros no meio do mar. Esse amor que haveria de manifestar-se e mostrar a sua força. Pouco depois do aniversário de casamento, veio instalar-se na área um moderníssimo e reputadíssimo resort turístico. Captou a atenção dos gestores o elegante banco de areia, local ideal para levar turistas em passeio a beber um leite de côco por alva palhinha. Mas que faziam ali pinheiros? A árvore tropical, por excelência, é o coqueiro. E tomaram a intenção de cortar todos os pinheiros e plantar coqueiros adultos com ar exótico e tropical como aparece no postal, debruçados sobre o azul marinho onde outrora o Senhor Machado havia pescado. Mas naquele banco de areia havia mais do que pinheiros do norte. Havia essa força invisível que os tinha sustentado por mais de sessenta anos.

Dona Soraya é uma mulher alta, determinada, de palavra fácil e clara, doa a quem doer. E foi ela quem liderou a vila no complexo processo de demonstrar às autoridades que não podia perpetrar-se aquela intenção. Documentos, relatos, reuniões e até uma embaixada de gente entusiasmada na defesa da sua história, do seu casal incomum. Aqueles pinheiros eram o símbolo vivo de um amor inquebrantável, de um companheirismo sem igual, mas eram algo mais do que isso. Faziam parte da história e da memória coletiva de Vilankulos. Com surpresa de muitos, mas não de Soraya que nunca duvidou do triunfo, foram sustidas as intenções reformadoras e arrasadoras do resort. E quando Dona Gita morreu, há dois anos, deixou para trás sete pinheiros num banco de areia ao largo de Vilankulos. E há quem diga que, todos os dias, antes de iniciar os seus inúmeros afazeres, Dona Soraya se abeira do limiar do esplêndido terraço do seu lodge, ergue os binóculos para o horizonte marinho e conta, vigilante, como quem reza:
– Um, dois, três, quatro, cinco, seis, sete.

jpv
Vilankulos, março de 2015

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “Histórias a Preto e Branco – A Lenda de Dona Gita e Senhor Machado

  1. A mais bonita forma de magia, talvez seja o amor incondicional e eterno… e se são pinheiros em solo tropical que o representa, pois que sejam, porque nada há-de impedir a semente de crescer 🙂
    Bjinho, JP!

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