Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Tempo

2 comentários

Tempo

Tempo

O verdadeiro Deus

É o Tempo.

Sempre certo,

Sempre isento.

De leis simples

E universais.

Sempre justas,

Sempre benévolas,

E sempre fatais.

Sem piedade, consome

O espírito e o corpo do homem.

E aceita uma única e singular

Oferenda de adoração

Em seu magnânimo altar:

Exige, em regime exclusivo e absoluto,

A entrega do crente

E o seu usufruto.

Não tem catedrais,

Nem mesquitas,

Nem sinagogas.

O templo do Tempo

É a praia

E a sombra generosa

De uma pinheira mansa.

É esta cadeira em que me sento

E a minha pele

Como palco da dança

Da brisa leve que me acaricia.

É o sorriso de uma criança,

E o olhar meigo

De um idoso

Que teve o que quis:

Morreu tranquilo e feliz

E primeiro que os seus.

A esta regra e a esta ordem

Obedecemos todos.

Até mesmo Deus,

Seja qual for o seu credo,

A sua fé,

Ou a sua raça,

Observa o tempo que passa

E curva-se ao seu passar.

Já foram os dias

De não ter consciência.

Já foram as horas

De conquistar a independência.

Já foi o tempo

Das impetuosidades todas.

Já foram as certezas.

Já quis consertar o mundo.

Já foi o tempo

De saber o que quero.

Agora, só e resignado,

Espero.

É o tempo de cada minuto.

É o tempo de descontar.

É o tempo

Do Tempo absoluto.

É o tempo

Do Tempo passar,

Cortante,

Por mim.

É o tempo das rugas.

São os dias do fim.

Não dobram, já, os joelhos,

Como costumavam.

As raparigas que passam,

Não olham

Como olhavam.

Estão mais longe, as distâncias,

Mais pequeninas, as letras impressas.

Não há razão para ter pressas.

Deixa-O passar… devagar.

Evitam-se os espelhos

Que nada têm para espelhar

Que não seja decadência.

Perdi a fé na Ciência

E no Homem também.

Recordo meu pai

E minha mãe

No tempo de antes de mim.

E sei

Que já nem eu

Sou assim.

Esta cadeira, de novo.

O papel.

A tinta deslizando

O desenho das palavras

Como um arado

A rasgar a terra.

Sou mais um capítulo

Que se encerra

Neste poço sem fundo.

Já pouco me resta.

Já só me falta

Erguer

E conquistar o Mundo.

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

2 thoughts on “Tempo

  1. Gosto de vocemeces

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