Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."

Místicas

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Quando ela me olhou, quando me sorriu e estendeu os braços para mim, eu estava a milésimos de segundo de ser surpreendido e, ainda assim, a milhas de distância de saber o quão feliz ela me faria hoje.

Passa um pouco da uma e trinta da manhã, estou na minha cama e escrevo para os meus leitores a história do dia em que a vida me surpreendeu e sorriu. Mas… vamos lá a contar a história pela ordem correta, que é como quem diz, do princípio para o fim.

A Páscoa, este ano, foi em Portugal. Todo o tempo com a família é pouco. Ainda por cima e por causa de um contratempo que houve pelo meio, só foi possível estar nove dias em Portugal. Quando se é emigrante a dez mil quilómetros de casa, em Moçambique, neste caso, todo o tempo que se passa aqui é pouco. Chega para quase nada. É preciso estar com a família, é preciso dar atenção aos mais chegados, é preciso ir ao médico, comprar medicamentos, tratar dos impostos, de inúmeros pormenores de manutenção da casa, comprar bens que fazem falta em Maputo, levar coisas que alguns colegas pediram… muito movimento… muita azáfama.

É evidente que, benfiquista apaixonado e saudavelmente doente pelo Glorioso, não pude deixar de reparar que, durante a minha estadia em Portugal, jogava-se o Benfica – Braga. Jogo a prometer emoções fortes, o estádio a ameaçar encher… Pensei que, se pudesse, se sobrasse tempo, iria… claro. Acontece que só na quarta feira me lembrei de comprar bilhete para sexta feira, 1 de abril… o que me disseram na casa do Benfica de Torres Novas parecia mentira:

– Não há bilhetes. Está tudo esgotado!

Contactei várias casas do Benfica. Entroncamento, Fátima, Alpiarça… nada, sempre em vão, sempre a mesma resposta. Não há bilhetes. Ainda na quarta feira, a comunicação social informou que no dia seguinte seriam vendidos os últimos dois mil bilhetes. Contactei uma amiga que trabalha em Lisboa, pedi-lhe que fosse ao estádio à hora de almoço e tentasse comprar-me dois bilhetes. Um para mim, outro para o meu cunhado. Ela ligou-me a dar a triste notícia. Os dois mil bilhetes esgotaram em vinte minutos.

Decidi não ir hoje a Lisboa. Não valia a pena estar nas imediações do estádio e não ter como entrar. De manhã, levantei-me, tratei de diversos aspetos relacionados com a manutenção da casa, escrevi um pouco, virei-me para o sol primaveril e senti-o aquecer-me a pele. Pela hora de almoço, a minha mulher diz-me que se esquecera de comprar umas coisas em Lisboa que precisava de levar para Maputo:

– Sempre podes tentar encontrar os bilhetes…

– Os bilhetes esgotaram! Qual parte da palavra esgotados é que tu não percebes?!

Mas fiz-lhe a vontade e levei-a a Lisboa. Happy wife, happy life…

Estar junto ao Estádio da Luz fez renascer a esperança até a esperança se esmurrar de encontro à realidade. Na primeira bilheteira que visitei, disseram-me que estava tudo esgotado, na segunda, tudo esgotado, fui à MegaStore do Benfica, tudo esgotado. Não gosto de comprar bilhetes na candonga. Normalmente são falsos. Não perdi tempo com isso. Resolvi aceitar o destino e o destino não queria que eu visse o jogo na Catedral. Aparentemente. Fui a uma loja de roupas e artigos desportivos lá no estádio e decidi recompensar-me comprando a camisola do Benfica. Sorri à menina que me atendeu e pedi-lhe que gravasse jpvideira nas costas.

– Jota, ponto, pê, ponto, Videira?

– Não, não. Não leva pontos. Só as letras.

– Com espaços entre as letras?

– Não. Tudo junto, por favor. JPVIDEIRA tudo junto, sem pontos, nem espaços.

– Muito bem. Volte daqui a quinze minutos.

Durante esses quinze minutos fui a mais uma bilheteira, mas era inútil. Vagueei por ali, cumprimentei o Eusébio e fui, por fim, buscar a camisola. Sorri à menina, perguntei se já estava, que sim, que estava. Agradeci-lhe simpaticamente e foi então que ela me olhou como se me quisesse dizer algo especial, como se procurasse em mim uma história e disse só estas palavras:

– Aqui tem a sua camisola. Tenha um bom jogo.

– Oh… muito obrigado, mas eu não vou ver o jogo. Vim de Maputo para passar uns dias e queria ver o jogo, mas os bilhetes esgotaram…

Ela abriu a caixa registadora, tirou de lá dois bilhetes, estendeu-me a mão com eles e disse:

– Vai ver o jogo pois. Tome divirta-se! São os últimos!

Eu estava incrédulo. Tentara tudo por dois bilhetes, caros que fossem e aquela moça de olhar meigo e sorriso a iluminar a face estava a oferecer-me dois bilhetes… Fiquei sem saber como reagir.

– O que posso fazer por si? Sabe a alegria que me está a dar?

– A única coisa que pode fazer por mim é ir ver o jogo e divertir-se!

– Se não fosse homem chorava…

– Chorar não é vergonha… Ah e já agora… que ganhe o Benfica!

– Que ganhe o Benfica.

Empoleirei-me no balcão, dei-lhe dois beijinhos e fui tirar uma foto com o Rei Eusébio, desta vez eu tinha JPVIDEIRA escrito nas costas e dois bilhetes no bolso!

O resto foi o que se sabe. Uma noite farta e generosa. Cinco a um no marcador, alegria, cânticos, 61042 pessoas a encherem o estádio e… a memória da S. sempre comigo… o seu sorriso, no momento em que me entregou os bilhetes, era mais do que um prognóstico, era a certeza de que a mística benfiquista existe, era a emoção de uma vitória linda a anunciar-se.

E agora vou dormir… mais feliz… com pouca coisa me faço feliz… umas palavras, uma bola jogada na incerteza do resultado, um sorriso, um olhar… um momento mágico à Benfica!

jpv

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Autor: mailsparaaminhairma

Desenho ilusões com palavras. Sinto com palavras. Expresso com palavras. Escrevo. Sempre. O resto, ou é amor, ou é a vida a consumir-me! Há tão poucas coisas que valem a pena um momento de vida. Há tão poucas coisas por que morrer. Algumas pessoas. Outras tantas paixões. Umas quantas ilusões. E a escrita. Sempre as palavras... jpvideira https://mailsparaaminhairma.wordpress.com

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