Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Rouxinol

rouxinol-de-pequim-04.jpg

Na manhã fresca
E revigorante
Veio um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

Em meu peito cinzento
E dorido
Ouviu-se um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

Sobre tua ausência
E tua distância
Pairou um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

À volta de nosso silêncio
E obstinação
Bailou um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

E havia no seu canto
Simples e singular
Lição.
Em meio de todo o cinzento
Pode sempre ecoar
Uma canção.

jpv

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Religião

couple

Gosto da tua voz serena
E do teu olhar sem pressa.
Gosto de sentir na tua pele
O nascer de uma promessa.
E gosto quando me tocas
E finges não ter tocado.
Gosto desse sorriso despercebido
Por cima do colo decotado.
E gosto dos teus seios firmes
Quando me roçam devagarinho.
Gosto das tuas palavras quentes
Quando me pressentes sozinho.
E gosto quando à noite
Te chegas a mim
E me sussurras ao ouvido
Que retome no altar do teu corpo
O ritual todas as noites repetido.

És minha deusa profana,
Senhora da minha oração.
És minha virtude e meu pecado,
Minha fé e minha religião.
E gosto quando me despes
Das roupas e do pudor.
Gosto quando me incendeias no sexo
A insana chama do amor.

E quero ter-te, então,
Sob meu corpo e meu suor,
À procura do momento
Em que o grito se faz maior.
Ouve, meu amor…
Descansemos agora,
Faz frio lá fora
E o mundo foi dormir.
De tudo o que resta viver,
Já pouco falta cumprir.

Gosto da tua voz serena
E do teu olhar sem pressa.

jpv


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Versos Imperfeitos

sensual

São pobres, os meus versos,
Fracos e dispersos,
Repetindo meu desejo
E meu amor.
São imperfeitas, as minhas rimas,
Faltam-lhe sonoridades finas
Cantando tua figura,
Nosso despudor.
É desajeitada, a minha poesia,
Falta-lhe génio e fantasia
Desenhando nossos corpos
Em desatino e suor.

Mas, meu amor,
Para que servem os versos
Senão para cantar-te?
Para quê as rimas
Senão para amar-te?
E para quê a poesia
Senão para inaugurar-te
O desejo e o desalinho?
Sem as palavras
Sou um homem sozinho,
Sem a imperfeição
Destes versos,
Não há perfeição
Que me satisfaça.

É a ti que canto!
És minh’ alma
E meu espanto,
Minha ousadia
E meu encanto.
E se não servirem
Estes versos
Para gritar o desejo e o prazer,
Mais vale fechar os olhos
E morrer.

jpv


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Transgressão

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Transgride em meu corpo!
Vem conhecer as fronteiras
E inaugurar os limites.
Vem amar-me noites inteiras
Antes que eu me perca e tu fiques
À beira do nada.

Vem usar-me!
Vem despir-me de mim.
Vem castigar-me.
E vem devorar-me no fim!

Vem oferecer-me teu corpo.
Traz-me esse tesouro.
Traz-me a loucura e a ousadia.
Traz-me o suor e a vertigem
Até ser outro dia.

Esse amanhecer em doce pecado,
Esse amor mal jurado,
E essa entrega absoluta.
Vem saciar-me da luta
Que é debater-me  com a tua ausência.
Há nisto tudo
Muito de impulso
E quase nada de ciência.

Vem desacertar-me as horas,
Vem destruir-me os caminhos feitos.
Atira-te ao corpo
E aos preconceitos
E despe-nos ambos.

Vem para junto de mim!
Ser meu princípio
E meu fim.

Vem começar
E vem terminar.
Vem inaugurar
E vem encerrar a sessão.
Inquieta-se-me a alta
E agita-se-me o corpo
Por não ver tua roupa no meu chão.

Anda cá!
Transgredir todas as leis.
Anda cá!
Ser tu em mim.
Vamos os dois construir a culpa
E viver juntos e apaixonados
O remorso dos culpados.

jpv


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Jogo Mal Jogado

a-pensar-em-ti

Quando tua pele me toca,
Não é o mesmo que deixar-se tocar.
Quando teu corpo me convoca,
Não sou eu que te estou a convocar.
Quando teu olhar me olha
E me atira lanças de desejo,
Não sou eu a suplicar-te
Húmido e despudorado beijo.
Quando teu corpo chama pelo meu,
Em seu jeito desajeitado,
Não sou eu a imaginá-lo
Em cama de luxúria deitado.
E quando me chamas e me suplicas,
Com teu olhar tímido e tentador,
Não sou eu a convidar-te
Para o doce enlevo do amor.

E é por isso que não percebo,
Neste jogo mal jogado,
Quem seja o anfitrião,
E quem faça de convidado.

jpv


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Parabéns Atrasados e Gratidão em Dia.

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“Mails para a minha Irmã” fez anos na passada sexta feira. Oito!

Oito anos de fé e esperança nas palavras escritas com devoção, oito anos de rasuras e emendas, oito anos de riscos e aventuras.

Sempre, e só, por mim e por vós, aí, desse lado.

Tantos poemas depois, tantos contos e crónicas e até alguns romances depois, ainda o mesmo gosto pelas palavras e a certeza única de que, se não for por mais nada, será sempre por vós!

Obrigado!

jpv