Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

Saudades

saudades

Tenho saudades
Dos beijos que não me deste.
Tenho saudades
Das carícias que não me fizeste.
E tenho saudades, enfim,
Da tua pele suave sobre mim
Prometendo que não voltava.
E quando voltaste,
Trazendo suplícios de ternura,
Insanidade dos sentidos,
Desvario de mente quase pura
E quase perdida,
Trouxeste ainda mais vida,
Mais transgressão
E absoluta liberdade.
E deixaste no meu corpo
A semente dessa saudade.

jpv

Anúncios


Deixe um comentário

E havia tanto mar…

Não houve…
Não poderia ter havido.
Foi sempre um mar incerto,
Uma embarcação sem rumo
Nem sentido.

Não tem mais
Cavalos selvagens nos teus cabelos.
Não tem mais
Borboletas coloridas nos teus lábios.
Sucumbiste
Aos conselhos sábios
Da razão e da prudência.
Presente…
Só a ausência.

E havia tanto mar.
Havia tanto marinheiro.
Havia um homem por inteiro
E um desejo a saciar.
E agora
Há só este chão queimado,
Este deserto desolado
De ter-te.

Nem me viste.
Nem chegaste a ignorar-me.
Poeta sem poesia.
Modelo sem charme.
Músico sem notas.
Coração vazio
De onde brotas
Sem nunca
Teres entrado.
Só este terreno inóspito,
Este chão queimado.

Não houve…

João Paulo Videira


2 comentários

Fogo

woman-black-and-white

Porque me namoras assim?
Porque me incendeias a alma
E a palavra
E ateias o lume do corpo?
Porque me dás sem pedir?
Porque me prendes
E me libertas?
Porque ofereces tuas formas
Às minhas mãos desertas?
Porque me acaricias a existência
E me abandonas a arder?
Porque me deixas ganhar-te
Se te não posso perder?

João Paulo Videira


4 comentários

Revolta

Muda o tempo,
Muda a gente,
Muda a palavra
E a promessa,
Muda o encanto,
Muda o olhar
E o mudar não cessa.
Muda a luz,
Muda a paisagem,
Muda o piloto
E o destino da viagem.
Muda a intenção,
Muda o imutável,
Muda a geração
E o destino favorável.
Muda o amor,
Muda o corpo
E a sensação.
Muda o sexo,
Muda a cama
E o frio do chão.
Muda o desespero,
Muda a fome
E muda a solidão.
Muda o suor,
Muda o sol
E muda o vento.
Só não muda
Esta revolta cá dentro.

João Paulo Videira


3 comentários

Leve Passada

Não se ouvem teus passos,
De leves que tens as passadas.
Não abres as portas
Que não estão fechadas.
Chegas e és tu,
Tua presença sente-se
Na ausência de ti.
És leve e de leveza
Se faz teu encanto,
Teu princípio
E teu fim.
Teu corpo anuncia desejos,
Teu olhar não esconde tentações.
Trazes nos lábios promessas de beijos
E nas palavras sementes de paixões.
E não invades.
Não me invades.
Danças ao ritmo
De meu peito.
Tens um certo e estranho jeito
De prender-me
E de me libertar.
Ainda agora começaste
E já estás a acabar…
Passas leve,
De leves tens as passadas.

João Paulo Videira


Deixe um comentário

Sedução

IMG_0574

Flui,
Precioso
E venenoso.
Passa
Como se não passasse,
Anuncia-se
Como se não anunciasse.
Escorre
Devagarinho
E corre apressado.
Passa
E mostra-se
Depois de ter passado.
E há algo de belo
E trágico
Nisto tudo.
Suave
Toque de veludo
Sentido na ausência.
O tempo,
Cruel,
Não oferece perdão
Nem tem consciência.
É um sedutor,
Faz magias
De toda a sorte.
Pede a vida
E, na troca,
Oferece a morte.

jpv


4 comentários

África Minha

IMG_20170711_053220_997

Não és terra de partidas.
És terra de chegadas.
Não é fértil, teu chão,
Em despedidas.
És mais de gargalhadas
E brisas volantes.
Não te puxa, o humor,
Para a melancolia.
Cresce melhor, e mais rápida,
A alegria.
Não és terra de planos.
Preferes os esquemas e os improvisos.
E ouço os alertas e os avisos,
Mas encosto-me ao teu ritmo.
Abraço essa poesia sem rima,
Esse olhar atrevido,
Essa facilidade desarmante.
Nunca serás companheira.
Sempre amante!
Nada me prende a ti,
E, contudo,
Choro na partida.
Agarro-me ao nada que és
E hesito na passada.
Sinto pesados, os pés,
Presos a nada.
Tens essa força oculta,
Essa macumba enfeitiçada!
Teu vazio cresce e avulta
Em meu peito.
E fico só e triste,
Sem palavras e sem jeito,
Na hora de ir.

Não és terra de sentir,
És terra de ser sentido.
Não és terra de gritar,
És terra de ouvir o grito.
Não és terra de possuir,
És terra de ser possuído.

Caminhas poderosa,
Altiva e sozinha.
África vaidosa,
Profunda…
África minha!

jpv


Deixe um comentário

Acordar Ausente

toque

Acordar a teu lado
E beijar a tua face.
Olhar o teu sono,
Esperar que o momento não passe.
Acordar o veludo da tua pele,
Ajeitar-te os cabelos em desalinho.
Amar-te a noite toda
E acordar sozinho.
Esperar pela manhã
Para ver-te sorrir
Irradiando encanto e deferência.
Sentir os lençóis frios
E não perceber
A crueldade desta ciência.

Não é a tua distância que me dói.
É a tua ausência.
Não é o silêncio que me corrói,
É a certeza de não estares aqui,
Onde te quero
E desejo,
Onde possa tocar
O que sinto e vejo
E onde sejas minha
Para sempre.
Nenhum corpo
É um corpo
Se não estiver presente.

Vem de mansinho…
Vem devagarinho…
Saciar minha fome
De ti.
Vem deixar-me ajoelhar
E tomar para mim
Teu seio
E teu sexo.
Inaugura teu corpo
No meu
E desenha a carícia.
Rompe teu ímpeto em mim
Sem regras nem fronteiras.
E quando a noite se fizer longa
E teu cheiro de jasmim
Morar na minha pele,
Quando as aves acordarem
E derem vivas ao dia,
Encosta teu corpo ao meu
E adormece.
Meus lábios saberão,
De novo,
Beijar a tua face.

jpv