Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Paisagem em Vão

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Daqui,
Vejo o Mundo
Em todo o seu esplendor.
O mar imenso
Rebrilhando o sol,
Uma embarcação
Traçando destinos,
O céu beijando o oceano
E a urbe
Em tamanho pequenino.
As aves
Cruzam o meu olhar,
Suspensas
E velozes.
Ao longe,
Soam doces vozes
Entoando uma canção
Dolente.
Aqui, está Deus.
Ausente.
Presente.
E está aqui o Homem.
E tudo o que é humano
Aqui se sente
E aqui se suspende.
É um lugar de paz
E de gente.

E surgem, invasivas,
As palavras,
E teimosas.
Crescem versos,
Nascem prosas,
E tudo faz sentido.
Rasgam o pensamento
E a imagem,
Desenham a moldura
E a ideia.
Sem palavras…
Só noite escura,
Um barco perdido
Na imensidão,
Uma paisagem em vão.

jpv

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Vidraça

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Não tem mais poesia
No vento que passa.
Os meninos da rua
Já não riscam corações
Na tua vidraça.
Essa aura tanta,
Esse sorriso
E a emoção que ardia…
Nada ficou.
Nada mais que a fantasia.
Nada mais que o leve ensejo…
Nunca se fez beijo…
O destino de teus lábios
Nunca foi os meus.
A vida tem misteriosos caminhos
E são sempre sábios
Os conselhos da razão.
Mas está só
E imaculada
A vidraça.
Não tem luz,
Nem cor,
Nem risco,
Nem nada que faça
Vibrar um coração.
É só um vidro,
Limpo e sem alma.
Uma transparência vazia.
Uma noite solitária
Que não viu o dia.
Os meninos cresceram
E foram noutro lugar.
No meu peito
Ficou a rua vazia
E uma vidraça por riscar.

jpv


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Prece

suor

Ó senhora!
Ó deusa!
Ó musa maior!
Aceita minha dádiva,
Minha prece,
Meu suor.

Seja feita em mim
Tua vontade.
Envia pelo anjo
A sublime e espantosa
Novidade
Que há de surpreender
O Universo perplexo:
Tombou ajoelhado,
Perante tua figura,
O servo do sexo.

Deste forma
Ao meu desejo
E alma
À minha loucura.
És tudo
O que sinto e vejo,
Seio,
Colo,
Sepultura.
Teu corpo
É meu altar,
Teu gemido
Minha devoção.
Em ti
Procuro o grito sentido
Que completa minha oração.

jpv


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Fado

solitude

Sou o apátrida
Dos teus afetos.
O banido
Dos desejos secretos
Onde escondes
O teu ser.
Amar-te
É morrer!
Sou a ferida
No teu corpo,
Ser estranho
E morto
Que rejeitas
Sem olhar.
E é porque sou tudo isso,
Oração e Feitiço,
Que não me consegues abandonar.

Nasceste onde terminei,
Vives onde me acabo.
És tudo o que tenho e sei,
Meu príncipe, meu rei,
Minha canção,
Meu fado.

jpv


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Recusa

recusa-sensual

Gosto quando me recusas
E as palavras
Que usas
Chamam por mim.
Gosto quando anuncias o fim
E tudo me soa
A desejo.
Gosto do teu beijo
Zangado
E refilão.
Gosto dessa tua
Negação
Sensual e atrevida.
Contigo,
A vida
É mais vivida.
E gosto quando
Me viras as costas
E tuas mãos
Continuam postas
No meu corpo.

Não mudes, meu amor.
Esse teu desatino
Traz som e cor
Ao filme
Da minha vida.
Gosto de ti,
Sempre,
Até na partida.

E quando já não puder amar,
Em meus dias longos e envelhecidos,
Quero entregar no teu regaço
O que sobrar dos meus sentidos.

jpv


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Doce

08bad-pes

Gestos redondos
E suaves.
Olhar curioso.
Sorriso feiticeiro
Onde trazes
A tentação
E a doçura.
Tua distância
É tortura
E teu não
Desespero.
Negas-me com delicadeza
E esmero.
E não sei
Como conquistar-te.
Teu território
Exige tempo
E arte.
Não me tentes!
Não me digas
Não!
E não me digas
Sim!
Deixa morrer
Em mim
A esperança de ter-te.
Um dia
Não é mais que um dia.
Um olhar
Não é mais que um olhar.
É o desejo de tocar-te
Que me consome.
É de ti
Esta imensa
E insana fome
De prazer.
Se não me queres,
Afasta-te de mansinho
E deixa-me
Morrer.

jpv


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Rouxinol

rouxinol-de-pequim-04.jpg

Na manhã fresca
E revigorante
Veio um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

Em meu peito cinzento
E dorido
Ouviu-se um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

Sobre tua ausência
E tua distância
Pairou um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

À volta de nosso silêncio
E obstinação
Bailou um rouxinol.
Não havia sol,
Mas cantava alegre
E cistalino,
O rouxinol.

E havia no seu canto
Simples e singular
Lição.
Em meio de todo o cinzento
Pode sempre ecoar
Uma canção.

jpv


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Religião

couple

Gosto da tua voz serena
E do teu olhar sem pressa.
Gosto de sentir na tua pele
O nascer de uma promessa.
E gosto quando me tocas
E finges não ter tocado.
Gosto desse sorriso despercebido
Por cima do colo decotado.
E gosto dos teus seios firmes
Quando me roçam devagarinho.
Gosto das tuas palavras quentes
Quando me pressentes sozinho.
E gosto quando à noite
Te chegas a mim
E me sussurras ao ouvido
Que retome no altar do teu corpo
O ritual todas as noites repetido.

És minha deusa profana,
Senhora da minha oração.
És minha virtude e meu pecado,
Minha fé e minha religião.
E gosto quando me despes
Das roupas e do pudor.
Gosto quando me incendeias no sexo
A insana chama do amor.

E quero ter-te, então,
Sob meu corpo e meu suor,
À procura do momento
Em que o grito se faz maior.
Ouve, meu amor…
Descansemos agora,
Faz frio lá fora
E o mundo foi dormir.
De tudo o que resta viver,
Já pouco falta cumprir.

Gosto da tua voz serena
E do teu olhar sem pressa.

jpv


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Versos Imperfeitos

sensual

São pobres, os meus versos,
Fracos e dispersos,
Repetindo meu desejo
E meu amor.
São imperfeitas, as minhas rimas,
Faltam-lhe sonoridades finas
Cantando tua figura,
Nosso despudor.
É desajeitada, a minha poesia,
Falta-lhe génio e fantasia
Desenhando nossos corpos
Em desatino e suor.

Mas, meu amor,
Para que servem os versos
Senão para cantar-te?
Para quê as rimas
Senão para amar-te?
E para quê a poesia
Senão para inaugurar-te
O desejo e o desalinho?
Sem as palavras
Sou um homem sozinho,
Sem a imperfeição
Destes versos,
Não há perfeição
Que me satisfaça.

É a ti que canto!
És minh’ alma
E meu espanto,
Minha ousadia
E meu encanto.
E se não servirem
Estes versos
Para gritar o desejo e o prazer,
Mais vale fechar os olhos
E morrer.

jpv