Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Quadras satírico-humorísticas de timbre antigo e desusado escritas enquanto não estavas a ver…

vamos-fazer-uma-coisa-gostosa

Hoje fiz amor contigo,
É pena que não estivesses presente.
Ficas a saber, para castigo,
Que posso amar teu corpo ausente.

Sei que dirás, com desdém,
Que são devaneios de um pobre coitado.
Pois fica a saber, também,
Que deixei teu corpo deliciado.

Não te dês ares de superioridade,
Superior é coisa que não és.
Aqui, do alto da minha humildade,
Ainda te hei de ver a meus pés.

És vaidosa e usas roupas finas,
Para te passeares pela rua,
Enquanto vês montras e cruzas esquinas,
Eu fico em casa a imaginar-te nua.

Já vai longo este fado incerto,
De rumo sinuoso e complexo,
Quem dera ter-te por perto
Para intenso e despudorado sexo.

Será teu corpo uma plantação
De envolventes e suaves carícias,
Onde hei de ir colher à mão
Uma sementeira de malícias.

Vá lá, diz que sim,
Ao menos uma vez.
Não queiras apressar o fim
Do coração que tão bem te fez.

Hei de ver-te, finalmente,
Em minha cama deitada,
Corpo esguio e presente
Desde a noite até à alvorada.

E do que ali se passar
Faremos inviolável segredo,
Até ao dia em que subas ao altar
Com uma aliança de oiro no dedo.

jpv

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Talvez Tourada

Quando a farpa
Entra na carne do touro,
Não é na carne
Que mais lhe dói.
É no êxtase da surpresa,
Na desilusão que corrói.
Quando investes
E te entregas
À volúpia da carícia
E da harmonia imaginada,
Não percebes
A origem da perícia,
Sentes, só,
O gume da espada.
Quando dás
Sem te pedirem,
O corpo à festa
E à multidão,
E sentes os pés fugirem
À gravidade
Que te prende ao chão,
Percebes, finalmente,
A verdade crua e ensanguentada:
Era para ti a mentira,
Era para ti a espada.
Eras tu, besta insana,
A vítima da tourada!

jpv


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Amanhece… 

Amanhece.
E com o amanhecer,
Até parece
Que vale a pena viver.
A Natureza,
Em sua pujança matinal,
Renova a luz,
Renova o espírito,
Renova o Universo,
Em cada aurora inaugural.
E cria em mim
Esta turva ilusão
De que cada dia
É um dia novo,
Uma nova canção.

E tudo isto é belo,
E tem seu sentido,
Mas anda um poeta
Pelas noites da alma
Só…
E quase perdido.

Que amanhecer é esse
Em que te não vejo
E te não ouço?
Que poder é esse
Em que tu podes
E eu não posso?

Entardece minha vida.
Aproxima-se a partida.
Neste breve entardecer
Não há manhã
Que me resgate
À fortuna de morrer.
Uma palavra que fosse,
Uma palavra e um gesto sereno…
O tempo esgotou-se.
Para tanto desejo,
Meu desejar é pequeno.

Anoitece.
O céu imenso escurece
E com ele meu peito.
Resta um homem só,
Refugiado
Num corpo imperfeito.

Vem de novo o silêncio,
Esfumam-se os traços do teu rosto,
Tuas expressões já esqueço.
Invade-me o breu
E anoiteço.

jpv


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O que fica…

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Fica só a dor.
No fim do amor.
Fica só o desespero
Da indiferença
E da rejeição.
No fim da paixão.
Fica só essa viagem
longa e interminável
Pela noite escura.
Fica só a sepultura
Das palavras todas
E de todos os abraços.
Fica o timbre da tua voz.
Fica a impotência,
Absurdo inexplicável,
Dor atroz.
Fica só a cinza.
Do lume,
Nem chama,
Nem calor.
Fica só a memória distante
Do amor.
Fica o muro
Intransponível
E escuro
Onde rebento os punhos.
Fica a folha branca,
refém do vazio
E de imperfeitos rascunhos.
Não conheço esse traço, já!
Não sei porque vives sem mim,
Se em mim nasceste
E em mim cresces
Despudorado.
Tem travo a fim
Este fim desenhado
Nos teus gestos.

Fica só…

jpv

 


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Bob Dylan

bob-dylan

Não oiço, já,
A voz rouca
E evocativa
Do Bob Dylan.
Deixei de cruzar-me
Com os seus versos.
Sobram, em meus dias,
Sons amargos e dispersos,
Primitivas melodias
De meus erros
E meus pecados.

Quando o ouvia cantar,
Como se fosse
O único gesto possível,
Like a rolling stone…
Acreditava nas palavras.
Na dor,
Na ironia,
E na verdade
Que vinha com elas.
Havia, afinal,
Músicas paralelas,
Havia outros versos,
Outros poemas,
Muitos intérpretes,
E temas
De surpresa
E traição.

Já não oiço Bob Dylan…
Perdi-me a meio da canção.
Desconheço o destino
E a condição
Do que vim a ser para ti.
Talvez o fim…

Hey, Mr Tambourine man, play a song for me…

jpv


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Desabrigo

dhow

Essa palavra
Forte e curta.
Início da dor,
Fim da luta.
Esse gesto
Lento e demorado.
Princípio do caso,
Caso encerrado.
Essa ausência
Súbita e inesperada.
Temor do peito,
Intenção adiada.

Se tu me quiseres
Como eu te quero,
Se tu me esperares
Como eu te espero,
Será mais curto
O desespero
E mais rápida
A decisão.
Nunca senti
A tua mão
Em meu corpo,
Nem teu desejo
No meu olhar.
Só as palavras
Como último lugar,
Única e longínqua
Forma de estar contigo.
Meu porto inseguro!
Meu desabrigo!

jpv


1 Comentário

Luz

20170412_062528

É tão pouco
E tão ténue
O que nos divide.
E é tão clara
E tão forte a divisão.
A minha vida
Não é Bíblia
Nem Corão.
É só o ar que respiro,
O vôo da ave
Que vejo e admiro.
A minha vida
Não é Norte
Nem Sul.
É só o morrer das ondas
Na areia,
Sob o céu azul.
A minha vida
Não é Grande
Nem Pequena.
É só o sentir
Da brisa serena
Acariciando-me
Os pelos nos braços.
E é ter-te junto a mim
Num longo
E emocionado abraço
E acreditar
Que isso é todo o Universo.

Entre o aroma
Da tua pele macia
E o madeiro que desliza
Sob a ponte
Não há diferença alguma.
E, se a houver,
É só uma.
Tu és a fonte
De todos os rios,
O raio que provoca
Todos os arrepios,
A luz que rasga os céus
Antes da explosão
Que derruba
A árvore ao chão
De onde se desprende
O madeiro
Que desliza na corrente.
Tu és alma
E és gente,
Fogo incessante
De dúvida e esperança.

Por ti,
Meu mundo balança.
Por ti,
Rasgo a Bíblia e o Corão.
Por ti,
Abjuro o Norte e o Sul.
Por ti,
Não quero senão
A imensidão
De uma vida pequena.

Abraço.
Aroma.
Madeiro.
Ponte.
Alma.
E Luz.

Que seduz.

jpv


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Retrato em Quatro Quadras

Quando me estendeste a mão, 

Tinhas os olhos humedecidos

E havia uma aura de ilusão

Que nos trazia envolvidos.

 

O brilho desse olhar,

Adocicado pela tua voz,

Quase me fez acreditar

Que nascera algo entre nós.

 

E antes que chegasse a ternura

E a voracidade da paixão,

Soubemos acordar da loucura

Que entreteve nosso coraçào.

 

Um suave adeus,

Teus olhos nos meus

E um breve abraço

Dão sentido aos versos que faço.

jpv


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Tenho Poemas

palavras

Tenho poemas inteiros
Escritos a sangue
No peito.
E tenho poemas inacabados
No peito rasgados
A sangue.
Tenho palavras soltas
Sem destino nem jeito.
Restos de vida,
Gotejar impreciso
De um ideário morto.
Tenho linhas a direito
Com sentimentos a torto.
E tenho este grito
Que não sai.
Este mudo vociferar
Contra mim
E contra o fim
Que tarda em chegar.
Tenho palavras salgadas
E doces mentiras.
Tenho musas inspriradoras
E suaves liras.
E tenho este muro de impotência,
Esta coisa que não é Deus
E também não é Ciência.
Um sacrifício absurdo,
Um caminho doloroso.
Um querer tanto,
E tanto brilho,
Que torna mais penoso
O trajeto na escuridão.
Tenho tanto Sim
E vivo tanto Não.

jpv


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calendário

nessa manhã cinzenta de março
em que o silêncio se fez sentir,
morri de muda morte
e da fraqueza
renasci mais forte
ao ver-te partir.

veio um abril incerto.
o meu peito
era um campo aberto
e pressentia as tuas passadas.
caíram chuvas
e as gotas de água
abriram linhas molhadas
na minha face.

em maio pressenti o desfecho.
um arrepio de incerteza.
vi o medo e o fim.
naveguei ondas de fraqueza
e procurei um horizonte.
estava escuro.
não tinha brecha
esse muro
que ergueras entre nós
com a ausência da voz.

em junho,
cravei de raiva
lâminas de dor
no meu peito.
desesperei à procura
de desfazer
o que estava feito,
e não encontrei palavras
nas palavras que te escrevi.

acreditei e vi,
em meados de julho quente,
que era eu o ausente
do novo mundo
e da ordem nova
que desenharas.
sem saber onde foras,
sabia que por lá ficaras.

rebentaram em profusão
Nesse agosto de estio
cearas de solidão
colhidas em noites de frio.
fui ao engano,
à procura da luz.
ficou um poema por escrever
no meu grito calado.
jazia em meu peito
um homem tombado
e o homem era eu.
nada em mim reconhecia de teu.

ainda me lembro
da chegada de setembro
e as mãos a sangrarem súplicas.
linhas tortas de palavras inúteis
e o olhar perdido no nada.
Estava consumada
a negação.
a viagem era tua.
para mim não sobrou, sequer, o chão.

outubro.
mês do meu aniversário.
tempo ideal para uma revolução
no calendário.
a revolta foi só a minha,
e a desilusão.
não houve
estender de mão
nem ventos de mudança.
não houve palavras de anunciação
nem gestos de esperança.

o calor chegou
no mês dos santos
e tu ofereceste-me outros tantos
silêncios
e umas quantas mágoas.
choveram abundantes águas
e silvaram ventos destruidores.
Na sozinhês de mim
nasceram novas dores
e algumas certezas.

finalmente,
como em todos os calendários,
chegou o mês do menino jesus,
das promessas novas,
dos presentes vários
e coloridos
da esperança e do natal.
nada ficou igual.
e tudo ficou na mesma.
a tua face, sim, e o teu corpo cingindo o meu.
a mesma solidão,
o mesmo desespero,
o mesmo breu…

o tempo passou.
nada do que foi ficou,
a não ser
este informe e nefasto sumário,
de vida negada e silêncios profundos,
marcado nos quadradrinhos do meu calendário.

jpv