Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


4 comentários

África Minha

IMG_20170711_053220_997

Não és terra de partidas.
És terra de chegadas.
Não é fértil, teu chão,
Em despedidas.
És mais de gargalhadas
E brisas volantes.
Não te puxa, o humor,
Para a melancolia.
Cresce melhor, e mais rápida,
A alegria.
Não és terra de planos.
Preferes os esquemas e os improvisos.
E ouço os alertas e os avisos,
Mas encosto-me ao teu ritmo.
Abraço essa poesia sem rima,
Esse olhar atrevido,
Essa facilidade desarmante.
Nunca serás companheira.
Sempre amante!
Nada me prende a ti,
E, contudo,
Choro na partida.
Agarro-me ao nada que és
E hesito na passada.
Sinto pesados, os pés,
Presos a nada.
Tens essa força oculta,
Essa macumba enfeitiçada!
Teu vazio cresce e avulta
Em meu peito.
E fico só e triste,
Sem palavras e sem jeito,
Na hora de ir.

Não és terra de sentir,
És terra de ser sentido.
Não és terra de gritar,
És terra de ouvir o grito.
Não és terra de possuir,
És terra de ser possuído.

Caminhas poderosa,
Altiva e sozinha.
África vaidosa,
Profunda…
África minha!

jpv

Anúncios


2 comentários

Chão de Vida

d832f-africa-paisagem-3

Chão de Vida

Estes são os meus dias,
As minhas cores,
Os meus pássaros,
Os meus animais selvagens,
Os meus ritmos,
As minhas manhãs,
Os meus perigos,
O meu peito cheio de esperança,
A minha paisagem,
A minha música
E a minha dança.

É aqui que pertenço em vida.

Cada hora vivida,
Doce ou amarga,
De chegada
Ou de partida,
É aqui o seu tempo.

É aqui o Paraíso
E a falta dele.
A liberdade
E o medo.
A revelação
E o segredo.

São daqui os momentos
Que vale a pena viver.
A minha família é este chão.
Este sentir que há tempo
Para além do tempo.
Este ir e voltar,
Partir e regressar
Sob a pele marcado.
Minha vida é uma viagem
E este é o porto
Que vê chegar o nauta cansado.

jpv


3 comentários

Crónicas de África – Questões Culturais

96ec1-cronicas-de-africa-img-2

Crónicas de África – Questões Culturais

Maputo, 1 de fevereiro de 2015

À medida que o tempo passa, as interações em Moçambique, com os diversos e extraordinários agentes das muitas culturas que aqui coabitam vão-se sedimentando e a novidade desvanece-se. Talvez por isso, menos crónicas vêm ver a luz dos vossos olhos.

Ainda assim, reúnem-se diversos aspetos e pormenores e, de quando vez, amanha-se uma Crónica de África.

Ébola.
Estivemos em Portugal pelo Natal. Por um voo Maputo – Lisboa – Maputo, a TAP, de que tanto se fala agora, pediu-me em setembro, quatro mil euros por pessoa. No mesmo dia, comprei dois bilhetes de avião, na South African Airways, Joanesburgo – Lisboa – Joanesburgo, por oitocentos euros cada. Eu quero que a TAP seja portuguesa. Mas a TAP não parece querer que eu utilize os seus serviços. Quando regressámos, em Lisboa estavam zero graus, em Joanesburgo trinta e dois. Com a preocupação de trazer as malas de mão e ver qual o tapete onde estariam as outras, esqueci-me de despir o casaco e comecei a suar. Estava à espera que me carimbassem o passaporte, quando reparei que uma câmara olhava para mim com ar suspeito. Uma luz vermelha acendeu. O funcionário do aeroporto veio ter comigo e perguntou, O senhor sente-se bem? Sinto-me muito bem. Mas o senhor está doente. Não estou não. Está, está, o senhor está todo suado. Sim, tenho calor. O senhor é suspeito de estar infetado com o ébola, a minha colega vai acompanhá-lo à enfermaria. Não me deram a escolher. Ou vais, ou vais. Uma vez lá chegado, apontaram-me uma pistola semelhante àquelas que as meninas dos supermercados usam para ver o preço dos produtos. Fizeram pontaria aos olhos. E a senhora redonda e simpática exclamou: Vejam só, ele só tem trinta e cinco! O senhor sente-se bem? Muito bem, estou suado é só isso, o calor pode fazer-nos suar. Quem diria, não tem febre! Respondeu ela, e simpaticamente despediu-me dali e a mesma alma que me havia levado à enfermaria, levou-me até às passadeiras onde as minhas malas já estavam tontas de tanta montanha russa!

Donde vens?
Raramente falo do meu ambiente de trabalho. É uma questão de separar águas. Por vezes, deixo um apontamento ou outro que possa ter algum interesse mas não revele nada do funcionamento da instituição. Assim continuará a ser. Este apontamento é sobre a multiculturalidade, as vivências tão diferentes que se experienciam por aqui, a enorme diferença nos referentes do quotidiano. Deslocava-me pelos corredores para ir a uma sala de aula quando me cruzei com ele. Não tinha mais de oito anitos, era do terceiro ano. Ora, estranhei vê-lo por ali sozinho e por isso fiz as perguntas que fiz, sabe-se lá o que pode andar a fazer um cachopo divagante pelos corredores de uma escola!
– Olá, onde vais?
– À casa de banho, setôr.
– E donde vens?
– De Portugal!
Toma e embrulha e para a próxima não faças perguntas desnecessárias.

Outros Parâmetros
Para nós, europeus, mestres da consciência cívica, reciclar consiste em dar nova vida a materiais que entretanto deixaram de ter préstimo. O conceito não tem nada de errado. Pelo contrário. É fundamental. Não posso deixar de notar, contudo, que, para os sul-africanos, o conceito é um tanto diferente porque não se aplica depois das coisas deixarem de ter préstimo, mas enquanto ainda o têm. Eles são mestres em prolongar a vida das coisas, sempre que algo tem ou possa ter arranjo, eles consertam não substituem. Isto aplica-se a eletrodomésticos, a automóveis e a todo e qualquer equipamento. Ainda me lembro, quando fiz a primeira manutenção ao meu carro, tinha os discos dos travões todos ferrugentos. Em Portugal colocavam-me uns novos, e pronto. Na RSA deram-me a escolher entre colocar uns novos ou reabilitar aqueles sendo que a reabilitação me custava um décimo do preço. Já lá vão quase três anos e os discos lá andam a travar. Mas não é só neste aspeto que os parâmetros são diferentes. Quando fui para Portugal, a caminho de Joanesburgo parei numa oficina para fazer uma manutenção. Correu tudo bem exceto o facto do empregado se ter esquecido de apertar as porcas das rodas. Ao cabo de dez quilómetros tinha danificado irremediavelmente o braço da direção do lado esquerdo. Telefonei ao dono da oficina a contar o sucedido. Ele disse-me para ir devagarinho até Joburg e passar pela oficina quando regressasse de Portugal. Assim fiz. No regresso, ele reparou o carro, colocou uma peça nova e, no fim, pediu-me desculpa pelo sucedido e assumiu toda a despesa da intervenção para ele. Sem discussões. Sem pressões… Só assim… pelos valores…

Assalto
Enquanto estive em Portugal, assaltaram-me a casa. A minha empregada identificou o ladrão. Fora o próprio guarda da casa. Contingências! O meu vizinho chamou a Polícia que fotografou o local. A Polícia solicitou que, quando eu chegasse, lá fosse levar um relatório completo do que faltava e apresentar queixa. Foi o que fiz. E quando lá cheguei, o Oficial de Dia chamou o detetive e perguntou:
– Sabes de algum assalto na rua tal?
– Sei, foi no dia dia tal, às tantas horas.
E ainda não tinha acabado de falar deitou a mão à camisa onde trazia uns óculos pendurados, estendeu-mos e disse:
– Tome, isto deve ser seu.
E era. Eram uns óculos graduados da minha mulher que o ladrão deixou cair na fuga. O detetive trouxe-os ao peito durante três semanas à espera que eu os fosse reclamar. E quando lhe agradeci, ele respondeu: Assim, pelo menos, já não perde tudo!
O guarda foi substituído por um guarda de uma empresa de segurança e quando cheguei à escola, os alunos quiseram saber porque tinha faltado o setôr que nunca falta. Contei a história sem referir quem tinha sido o assaltante. Quando terminei, três ou quatro disseram, com toda a naturalidade num coro de espanto por eu não ter percebido, à partida, o que iria passar-se: Foi o guarda!

Pré-pago e Contratos
Aqui é tudo pré-pago. O crédito do telefone, a Internet, o serviço de televisão e até a luz. Aqui não se diz luz, diz-se energia. É possível comprar energia numa mercearia, numa loja da EDM ou no multibanco. Escolhe-se o valor, dão-nos um recibo com um código que se insere no contador da luz que converte o valor em watts de consumo. Por um lado, não há aquela preocupação das faturas, por outro lado, cada utente compra à medida do seu bolso e só consome o que paga. Os contratos dos serviços de Internet e televisão são muito mais maleáveis e confortáveis do que em Portugal. Já telefonei para empresas portuguesas a perguntar porque é que não funcionam desta forma e ninguém me sabe responder. Eu explico. Quando se contrata um serviço de TV, por exemplo, se, por alguma razão, se falhar o prazo de pagamento, não há cá cartas de aviso, nem multas, nem comissões de reativação. Pura e simplesmente o fornecimento é cortado e, no dia em que se fizer novo pagamento, o fornecimento é retomado. Simples, não? Mas há mais. O teor do contrato muda automaticamente de acordo com o valor depositado, não é preciso contactar uma menina que remete para outra menina que remete para uma senhora que remete para um técnico que manda outro técnico a casa. Nada disso. Se pagamos mil meticais, temos 44 canais. Se, no mês seguinte, pagamos dois mil meticais temos 88 canais, se pagamos quinhentos, temos 20 canais, e assim sucessivamente. Os pacotes estão pré-definidos e ligados a um valor, o simples pagamento desse valor ativa um determinado pacote. Genial, não?

Ainda falta falar do F. Mas acho que fica para a próxima.
Todos os dias nos cruzamos com diferenças culturais muito acentuadas que, com o tempo, vamos interiorizando no nosso quotidiano e na nossa mente. Deixámos de estranhar, mas, por vezes, paramos para pensar e percebemos que vivemos noutro universo. Completamente diferente. Deliciosamente diferente.

jpv


5 comentários

Variáveis Constantes

A constante destas variáveis é que fazemos anos juntos há 28 anos. O resto, temos reinventado.

Esta aventura africana tem sido uma reinvenção constante dentro da reinvenção genérica que ela constitui. E foi assim que vieste a ter frangipanis à janela como no livro do escritor e estrelícias  e hibiscos… flores de plantar, portanto. Como tu gostas. E foi assim que o teu bolo de anos foi um Bolo Rei num dia de 25ºC, muito sol, trovoada pelas 18h, Primavera em novembro e tu a dizeres, ‘Este ano vai um verão seco…’ e houve champanhe. Sul-africano, com o rótulo em português!

Os portugueses a levar Bolo Rei prenhe de histórias por esse mundo…

Tchim, tchim!
Parabéns!

jpv

???????????????????????????????

???????????????????????????????

???????????????????????????????

???????????????????????????????

???????????????????????????????


2 comentários

Crónicas de África – Coisas do Quotidiano (2)

crónicas de áfrica - african chroniclesCrónicas de África – Coisas do Quotidiano (2)

Há pormenores sobremaneira interessantes e curiosos nesta vida africana em Maputo. O encanto dos primeiros dias mantém-se, acontece que agora está filtrado pela experiência e algumas coisas que nos poderiam incomodar ou fazer gastar energias são encaradas à maneira africana: não queiras consertar o mundo, resolve o teu problema do momento. Este tipo de atitude tem de se aprender e interiorizar caso contrário andaremos quixotescamente a demandar moinhos metamorfoseados.

O que se passa é que esta Crónica de África tanto poderia chamar-se Coisas do Quotidiano (2), como Problemas de Bricolage, ou ainda A Casa Assombrada. Qualquer um deles assentaria que nem uma luva dependendo da perspetiva por que optarmos. Em nome do pragmatismo blogueiro, escolhi o primeiro. Mas admito que prefiram outros umas vez lidas as linhas que se seguem.

Nós gostamos da nossa casa. Tem muito boas condições. Cozinha nova, casa-de-banho nova, chão impecável, bons espaços, bom estado geral, excelente varanda, garagem, água e luz regulares, bairro seguro. Um tanto cara, mas há opções que é preciso fazer… Tenho mesmo para mim, porque andei visitando casas anunciadas e verificando o seu estado, o que tinham para oferecer e os preços, que esta casa é um oásis em certo deserto… Ainda assim, para quem possa pensar que viver no estrangeiro é pera doce, aqui ficam alguns pormenores que, num passado recente, nos têm assombrado o quotidiano… em casa!

Tomadas
Na sala, há duas tomadas de energia elétrica. Estão em paredes diferentes, vêm em cabos diferentes do mesmo quadro. Uma está na parede da televisão atrás de um móvel e outra atrás de um sofá. Aqui há uns tempos, a televisão e tudo o que estava ligado a essa tomada, desligou-se. Verifiquei, limpei, desinstalei, voltei a instalar e nada. À boa maneira africana, deixei ficar. Que se lixe! pensei. Há de voltar. E voltou. Dois dias depois. Azar dos azares, mais dois dias volvidos e voltou a pifar. Acontece que, quando os fenómenos se repetem, nós tendemos a procurar aquilo que está igual e aquilo que está diferente. Ora, o que estava igual é que sempre que a tomada da televisão deixava de funcionar era porque tínhamos algo ligado à tomada que está atrás do sofá! Medo! Muito medo. Se for um telemóvel a carregar na tomada atrás do sofá, tudo normal. Se for o router da net, tudo normal. Mais do que isso, mesmo dois simples telemóveis a carregar e a televisão e toda a parafernália que está na tomada do outro lado da sala despedem-se e não voltam mais… Das duas uma, ou chamo um exorcista ou um eletricista! Sendo que em Maputo a diferença entre estes cavalheiros está muito esbatida! Não acreditam? Uma vez veio cá a casa uma pessoa que mandou fazer um furo na parede sabendo-se que estava um cabo nesse local. Ele olhou o homem do berbequim e disse, Tem fé! Fura! Por Alá! O outro furou e não aconteceu nada. Ele apressou-se a dar uma gargalhada, olhou o outro com ar incrédulo e disse-lhe, A Fé faz milagres!

A Lâmpada Que Geme
A lâmpada do meu escritório geme! Não, não são os vizinhos de cima que aquilo é tudo gente tranquila e educada em quem se pode confiar, é mesmo a lâmpada que geme. Primeiro, começou por ser um leve ruído. Depois um zumbido e agora é um inequívoco gemido como se alguém se estivesse a queixar das dores do reumático…

Quebra Parcial
Um dia destes faltou a luz. Um daqueles fenómenos em que as luzes todas se apagam e no instante seguinte retomam o seu normal funcionamento. Claro que obriga a acertar os relógios digitais e a ligar de novo a Tv e a net, mas não é nada do outro mundo. O que já não me parece tanto deste mundo é o que me aconteceu no sábado passado. Faltou a luz por momentos e logo, logo, voltou, mas… foi só nas lâmpadas! Os eletrodomésticos ficaram incólumes à quebra! Vantagem: não foi preciso acertar relógios digitais!

Só ao Pontapé!
Tenho um candeeiro no meu quarto que é teimoso. Uns dias acende. Outros não. A ficha tripla que está no chão deve ser a causadora. Já a limpei, abri, endireitei os condutores, e ela volta ao mesmo. Ora jorra luz, ora apaga-se. Mas descobri mais. Sempre que lá vou tratar dela com carinho, ela fica indecisa. Umas vezes funciona, outras não. Se lá chego e lhe espeto um pontapé, funciona sempre. Há coisas que não dá para entender. Mas se funciona assim, tomei uma decisão, ligo sempre o candeeiro antes de me descalçar. Leva o pontapezinho da ordem e fica a funcionar às mil maravilhas…

Fogo de Artifício
Já aconteceu cá em casa algo de muito curioso e até com certa aura transcendental. Na cozinha, por ser grande, há duas lâmpadas. Uma cá, ao pé da porta. Outra lá, ao pé do lava-loiças. Acendem num interruptor, cá, ao pé da porta, que tem dois botões, um para cada lâmpada. Aqui há uns meses, ao acender a lâmpada de lá, aquilo deu um estoiro, largou uma carrada de faíscas que iluminaram a cozinha e se precipitaram para o chão e ficou um leve cheiro a queimado. Como é o tipo de coisa que pede por um eletricista e os tetos aqui têm cerca de três metros de altura, pensei para comigo: Ou compras um escadote e arranjas tu, ou chamas um eletricista. Chamar o eletricista é capaz de não ser grande ideia porque a primeira coisa que ele vai dizer é Boss, por acaso não tens aí um escadote? É que eu preciso subir… Enquanto me decidia sobre que curso de ação seguir, deixei bem claro cá em casa que não se podia acender a lâmpada de lá! Mas, passados uns dias, fui eu mesmo que me esqueci e quando precisei de acender a lâmpada de lá, pressionei o botão do interruptor e a lâmpada… acendeu! Eu nem reparei. Mas a Paula reparou. Entrou na cozinha e perguntou, Então essa lâmpada já acende? Pelos vistos, já. Respondi e fiquei a olhar para ela. É que eu vi claramente visto com estes dois que a terra há de comer aquilo tudo a arder! Funciona? Esquece, ’tá resolvido!

Enganam-se!
As pessoas que estão a ler esta crónica, sobretudo os homens, mais sobretudo se não viverem em África, já estão com a ideia arrogante de que eu preciso é de um eletricista. Enganam-se. O meu quadro foi todo revisto e estabilizado e a minha instalação foi parcialmente substituída por cabos novinhos em folha… isto são fenómenos próprios de um continente onde tudo tem mais força, até mesmo aquilo que não compreendemos. Não se luta contra, não se tenta consertar África. Mergulhamos em África, deixamos que África tome conta de nós e vivemos em África como se vive em África. Deliciosamente despreocupados com essas coisas menores! Quem é que pode deixar de ser feliz porque não percebe como é que uma lâmpada que ardeu funciona na perfeição, melhor do que uma ficha tripla acabada de comprar? Ninguém! A felicidade, em África, não passa por aí!

A Máquina Andante
A minha máquina de lavar roupa anda! Anda para a frente. Já foi calibrada, recalibrada, ajeitada, inclinada, presa com um cordel e calibrada outra vez, o chão já foi nivelado e até já a ameacei que lhe dava dois murros no tampo. Nada resultou. Anda sempre para a frente cerca de vinte centímetros e quando está mesmo para cair da plataforma de betão onde está empoleirada, pára! Simples. Se não chega a cair, não constitui problema. Empurra-se para trás e pronto.

O Milagre da Chuva no Duche
Quando aluguei a casa, fiquei feliz porque além do chuveiro de mão, tinha um chuveiro de parede, daqueles que a gente se põe lá de baixo e a água jorra avonde e toma-se uns duches muito retemperadores. Acontece que nunca consegui rodar as torneiras desse chuveiro. Tentei desmontá-las e nada. Tentei rodá-las vezes sem fim e nada. Usei chaves para as rodar e nada. Nem a água fria, nem a quente. Era um desconsolo. Um tipo ia para a banheira e tinha de agarrar no chuveiro de mão com o outro ali ao lado a fazer negaças. E fui tentando ao longo de vários meses até desistir por exaustão. Um ano e meio depois de estar na casa, num dia em que nem sequer ia tomar banho, fui só lavar os dentes e pensei, Já para aí há um ano que não marro contigo, deixa cá ver… e rodei devagarinho, com a força que até uma criança de cinco anos consegue fazer. E ela nem gemeu, nem ofereceu resistência. Abriu-se e choveu água fria. Tentei na da quente e o milagre repetiu-se. De lá para cá, tenho tomado banho mais assiduamente para aproveitar não vão um dia destes as torneiras fartarem-se e voltarem à primeira forma…

Televisão Seletiva
A televisão anda muito seletiva ultimamente. Só dá som nos canais que lhe apetece. Não, não é nada com os cabos. Já tirei os cabos, já revi os cabos, já reinstalei os cabos e acontece sempre o mesmo. Há dias em que o som é geral, ouve-se tudo cristalinamente em todos os canais. E tem dias em que o som é seletivo. Alguns canais são sonoros, outros são mudos. A imagem? Hehehe… a imagem é perfeita em todos! Não, nem pensem que vou gastar energias a arranjar. Um dia destes volta tudo pelo mesmo caminho que foi. Ou por outro. Isso importa pouco!

Net Intermitente
Se tiverem oportunidade de ler esta crónica, é porque correu tudo bem com a net que ultimamente anda meio… como é que é aquele nome técnico? Ah, já sei, manhosa! As páginas não carregam. E lá aparece aquela coisa do “Ups! A sua página não carregou!” e eu a pensar, É preciso ser estúpido para escrever esta mensagem, se a página carregasse, eu tinha notado! Pensei ter um problema no browser e experimentei outros, o FireFox e o Internet Explorer, mas o resultado foi igual. Descobri entretanto que, se refrescasse a página – tecla F5 – elas recarregavam na perfeição. E pronto, fui ser feliz até esta coisa ir abaixo de vez.

P’ra Acabar…
Se estes fenómenos me incomodam? Nem um bocadinho. Danço ao som da música. Vivo com o que Deus me dá e os homens me deixam ter. Contorno algumas situações e só dou importância ao que for verdadeiramente grave. África tem este efeito interessante, por nos tornarmos menos seletivos com as pequenas coisas, aquelas com que gastamos energias desnecessariamente, tornamo-nos mais seletivos em relação àquilo que realmente interessa na nossa vida. África ensina-nos a apartar a nuvem e ir diretos a Juno. Acho, perdoem-me o erro de raciocínio, se o houver, que África nos torna, em termos comportamentais e reflexivos, mais puros, mais objetivos, mais próximos de nós próprios. África despe-nos de muita coisa que não interessa e ao mostrar-nos as nossas fraquezas desnudas, fortalece-nos!

jpv