Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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O Solicitador e a Quase Prostituta

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Histórias a Preto e Branco
O Solicitador e a Quase Prostituta

Era um homem tranquilo e pausado. Nunca se apressava ou corria para coisa alguma porque jamais sacrificaria a compostura a uma pressa. Nunca levantava a voz a ninguém e nunca falava apressadamente. A mãe chamara-se Josefina e o pai Malaquias. Na indecisão do que lhe haveriam de chamar, menos pela urgência do batismo do que pela necessidade de o nomear, acabaram por dividir seus nomes em dois, aproveitaram uma metade de cada nome e registaram-no como Josenias há trinta e quatro anos atrás. Foi à escola com distinção, cresceu, casou e enviuvou. No mesmo dia, perdeu a mulher e o primeiro filho. Recolheu-se à sua solidão e às conversas que, dentro da cabeça, tinha consigo próprio. Josenias era solicitador, mas não sabia. Na sua maneira de ver as coisas, ajudava as pessoas naquilo que precisavam e não sabiam ou não podiam resolver.Com as suas próprias mãos, ergueu uma barraca em blocos e cimento que ele mesmo fez. Rebocou-a. Pintou-a. E escreveu-lhe por fora, em letras azuis de mar em cima do branco da parede, AJUDANTE JOSENIAS, por entender que deve chamar-se ajudante a quem ajuda e não por escassez de outro vocabulário. Abria contas a quem queria abrir contas, levantava dinheiro a quem precisasse, tratava dos pedidos de Bilhete de Identidade, escrevia cartas, preparava escrituras, redigia procurações, representava pessoas em tribunal e tinha já uma rede de contactos que fazia dele um dos homens mais requisitados de Vilankulos. Sempre pausadamente, sempre quase silencioso, parco nas palavras que, sabia, com facilidade atraiçoavam as intenções e as pessoas. vilankulosTrocava as necessárias ao entendimento com os outros e, o resto do tempo, conversava as conversas que tinha de ter consigo próprio e tinha-as, às palavras, pela rédea curta, reclusas em si. Gostava do mar. Normalmente, ao final da tarde, metia-se no carro, percorria a margem da praia imensa, parava a viatura e ia nadar ao lusco-fusco, àquela hora dos silêncios e recolhimentos que protegem as pessoas de perguntas e conversas com terceiros. Sofria a sua dor, alegrava-se suas pequenas alegrias, perguntava-se, respondia-se, cozinhava seu comer e pensava seus pensamentos, acomodava-se a si. E a vida corria previsível e sem sobressaltos. Até ao dia em que a conheceu.

À tardinha, quando acabou de ajudar os últimos necessitados do dia, entrou no carro e foi na praia. Como sempre, percorria essa estrada longa de terra e areia, bordejada de casuarinas seculares que dão sombra quando faz sol e recortam o luar para os turistas fazerem foto, essa estrada que começa junto ao Hotel Dona Ana e vai até lá no Baobab Beach Resort. Ia mais ou menos a meio do percurso quando viu-lhe na beira do caminho. Era uma moça esguia, muito magra, de peito inchado e curva sinuosa na anca. Trazia um vestido vermelho junto ao corpo e acima do joelho. Calçava chinelo e o olhar brilhava naquele sem luz de fim de tarde. Ele olhou-lhe, reparou na figura um tanto bizarra, mas não deu-lhe muita importância. Acontece que, naquele momento, ela olhou-lhe também e ele ficou meio incerto se ela queria-lhe falar. Abrandou a marcha e quando passava por ela parou, baixou o vidro da janela:

–  Desculpe?
– Ué! Está desculpado. Não tem de quê, mesmo.
– Desculpe?
– Ué! Só sabe essa palavra?
– Não, de todo, é que não percebi o que estava dizendo.
– Só disse que não tinha por que pedir desculpa.
– Ah! Percebo. Eu não estava bem pedindo desculpa, só não me apercebi se queria falar comigo pela forma como me olhou.
– Ora, eu só olhei porque você olhou. Pensei até que estivesse solicitando meus serviços.
– Seus serviços?
– Sim, meus serviços!
– E que serviços seriam esses?
– Ué! Não dá para notar?
– Suponho que não.
– Eu sou prostituta!
– Ai é?
– É.
– Não parece…
– Como assim?
– Não tem batom nos lábios…
– Hei de pôr.
– Não tem unha pintada…
– Hei de pintar.
– Não tem mala grande ao ombro…
– Hei de trazer.
– O vestido é demasiado velho…
– Ora, hei de comprar novo.
– Não tem sapato.
– Ish… você complica coisa fácil.
– Faz quanto tempo que você é prostituta?
– Ora, o suficiente.
– Oiça, você sabe o que é uma prostituta?
– Claro! Mulher que dá o corpo em troca de dinheiro.
– Pois… e quantos clientes você já teve?
– Um!
– Um?! E pode saber-se quem foi o bafejado pela sorte e pelos deuses do erotismo?
– Não fala complicado.
– Quem foi esse cliente?
– Você!
– Eu?! Mas eu nunca comprei sexo de você!
– Não comprou, mas vai comprar!
– Mas isso não faz de você uma prostituta.
– Faz pois! Estamos negociando, isso conta, certo?
– Não. Sem transação não há consumação do ato, logo, nem eu sou cliente nem você é prostituta. Quanto muito, quase prostituta.
– Transação?
– Nem você me deu o corpo que, de resto, eu não pedi, nem eu paguei por ele.
– Ora, são quinhentos.
– Quinhentos?
– Sim, quinhentos, é muito?
– Não sei se é muito. Não sei o que estou comprando. Digamos que você me parece uma profissional pouco certificada e experiente. Por exemplo, o que sabe de sexo?
– Tudo!
– Tudo? Como, tudo? Onde aprendeu?
– Ora, nas novelas, nas revistas de meu mano velho. Ele esconde, mas toda a gente sabe onde estão. O pai vai lá buscar páginas para fazer fogo, limpar vidro e outros préstimos. Começou por levar as meninas mais feias, mas essas acabaram e agora usa mesmo as páginas do meio.
– Ou seja, você não sabe nada.
– Da prática! Da teoria sei tudo.
– Olhe, vou-lhe sugerir, você caminha ao lado do carro até ao final da estrada. Entretanto, conversa comigo. No final, eu pago-lhe.
– Porquê fora do carro e não dentro?
– Em primeiro lugar, porque não quero ser visto com uma quase prostituta no carro, em segundo, porque só entrará no carro se merecer.
– Entendi.
– Comecemos pelo mais importante: porquê a prostituição?
– Ora, porque a família está precisando de dinheiro rápido e esse trabalho paga bem.
– Paga bem? Você ainda não ganhou nada!
– Mas vou ganhar.
– Como se chama?
– Fina.
– Apropriado!

Caminharam lado a lado, ele, o carro e ela, por umas duas horas de tempo. Conversaram e desconversaram de tudo o que foi surgindo no caminho das ideias e na estrada das palavras. Por fim, chegou a hora do pagamento.

– Aqui tem. Quinhentos pelo seu tempo.
– Então agora já sou prostituta, certo?
– Creio que não. Sem sexo, sem corpo, não houve prostituição.
– Mas falámos de sexo…
– Mas não fizemos.
– Podemos fazer…
– É prematuro.
– E o que ele tem a ver com isso?
– Ele, quem?
– Prematuro, o filho mais velho da vizinha Olímpia.
– Nada. Prematuro quer dizer que é muito cedo para o sexo…
– Então está a pagar-me de quê?
– Combatente de demónios interiores e matadora de solidões alheias.
– Prostituta!
– Não. Estou a gratificá-la pelo seu tempo.

Durante seis dias consecutivos, Josenias, o solicitador, passou na estrada bordejada de casuarinas longas e seculares e, sem que tivesse combinado rigorosamente nada, encontrou sempre Fina na beira da estrada e conversaram caminhando lado a lado, ele, ela e o carro. Ao sétimo dia, Josenias disse-lhe para entrar na viatura e estranhou:

– Está diferente, você. Batom na boca, unha pintada, vestido lavado, só falta o sapato. Já teve outros clientes?
– Nem podia!
– Como, nem podia?
– Você ocupa todo o meu tempo de prostituição!
– Ai é?
– É. Eu perguntei ao pai o que fazia ma prostituta e ele disse que é uma mulher que atura os homens que as mulheres deles não querem aturar. Fiquei a pensar que sou prostituta. Se você está aqui, não está com ela, se não está com ela, é porque ela não te atura…
– Ela perdeu a vida.
– Perdeu a vida?
– Perdeu. Dando à luz.
– E o bebé?
– Perdeu a vida.
– Perdeu?
– É. Não chegou de ver a tal da luz.

Nesse dia não falaram mais. Quando chegaram no fim da estrada, ele estendeu-lhe a nota dos quinhentos, mas ela recusou:

– A dor não tem preço.

Por mais de um mês, passearam juntos, no carro, ao longo daquele mar de estrada. Josenias deixou de nadar. Saía do trabalho, apanhava Fina sob a mesma casuarina e mergulhava no olhar dela, navegava as emoções que ela fazia explodir no seu peito.

– Fina, desculpe a ousadia, seus seios minoraram.
– Não.
– Sim. Há um par de dias que estão visivelmente mais pequenos.
– Eles estão iguais, eu que deixei de pôr papel.
– Papel?
– Sim. Páginas das revistas do mano velho. Para encher!
– Para encher? E porquê?
– Homem gosta de seio grande.
– Fina! Você não tem homem. Seu único cliente é um solitário que lhe paga para conversar.
– Conversar?
– Sim.
– Me entristece.
– Ora, porquê?
– Preferia ser combatente de demónios e matadora de solidões.
– Você me surpreende, me enternece e, sobretudo, me desconserta.
– E tem conserto?
– Não sei. temo que não.
– Então estraguei-lhe.
– Acho que sim. No bom sentido.
– Tem bom sentido?
– É, acho que sim. Chama-se ternura.
– Você malucou de vez. Eu estrago-lhe e isso se chama ternura? Quando a mãe fica com cabeça grande porque o pai estragou-lhe, a gente vê tacho pelo ar, gritaria, porta a bater, mas não vê ternura.
– Então, talvez eu tenha me expressado mal. Talvez você tenha consertado meu coração e não estragado.

Dois meses mais tarde, Josenias levou Fina na sua casa.

– Ish… você fala bem, mas é só isso mesmo. Sua casa está como sua cabeça, tudo desarrumado. Não lava loiça, não faz cama… não tem dinheiro para empregada? Gasta tudo em prostituta?
– Prostitutas.
– Ai é? E quantas você já teve?
-Uma.
– Viu? Prostituta.

Apanhá-la sob a casuarina passou a ser um hábito, assim como levá-la até sua casa, vê-la fazer o jantar para os dois, comerem juntos, levá-la de volta à estrada e, com o tempo, entregá-la em sua própria casa. Um dia, ela disse-lhe:

– Josenias…
– Sim…
– Não quero mais seu dinheiro.
– E porquê?
– Ora, algo está errado. Sexo, você não quer, mas continua pagando. Eu trato da janta, de sua loiça e até de sua roupa, mas não tenho contrato de doméstica. E não quero.
– Porquê?
– Ora, eu não sou doméstica.
– Prostituta também não.
– Quase prostituta…
– Nem isso…
– Então, sou o quê, Josenias? Matadora de solidões? Isso é lá profissão que se apresente?
– O importante não é a sua profissão, mas o que você representa para mim.
– E o que eu represento para você?
– Uma mulher inteira.
– Inteira? Só pode, não falta nenhum pedaço!
– Uma mulher para ter ao meu lado, matar meus demónios, ouvir minhas conversas sem sentido, ter meus filhos, criá-los…
– Para ter filho é preciso sexo.
– Depois do casamento.
– Casamento?
– Claro!
– E porquê?
– Ora, você não acabou de dizer que não quer mais o meu dinheiro? Se o que você faz não é serviço, só pode ser entrega…

Teve festa de três dias, teve mesa farta, teve um sorriso nos lábios de Josenias no dia em que desposou Fina, a quase prostituta, e teve palavras que ele voltou a deixar entrar na sua vida pela porta da abundância. Continuaram a passear ao final da tarde pela estrada de mar e a conversar e a desconversar com a mesma fluidez de entendimento, desentendimento e emoções claras e límpidas como o Índico a seus pés em hora de maré baixa.

– Fina…
– Josenias…
– Sua hora está chegando e essa criança vai precisar de um nome…
– É menina.
– Como sabe?
– Sei.
– Não sei como sabe, mas aceito. Se for menina…
– É menina!
– Então, o nome…
– Metade de seu nome junto com o meu faz Josefina.
– Josefina era o nome de minha mãe.
– Perfeito, então.
– Não lhe incomoda?
– Josenias… não me complica.

A tarde tinha ido embora. A lua estava pendurada lá no alto, redonda e prenhe, recortada pelos ramos das casuarinas, Fina colocou sua mão na nuca de Josenias que tombou para ela. Então, o solicitador beijou com paixão a quase prostituta e pediu à lua que nunca lha levasse de seu peito.

João Paulo Videira
Chongoene, abril de 2017.


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ErotiKa – Não Quero Saber Nada!

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AVISO

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Obrigado
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ErotiKa – Não Quero Saber Nada!

Vinham ambos de famílias conservadoras. Nados e criados em ambiente rural e controlado. E isso não impediu que lhes sucedesse a eles o que a seguir se vai contar. Não julgue, o leitor, com pensamento veloz e cortante, enquanto não souber tudo o que a vida tem reservado para si. Podia até ser uma história cândida e previsível não fosse dar-se o caso de se ter instalado o tédio lá em casa.

***

A mãe dela chamava-se Maria da Glória e costurava para fora no tempo em que isso foi profissão para mulheres de militares e outros funcionários públicos. Maria da Glória tinha a língua afiada para humedecer a linha e a vista aguçada para a enfiar na agulha. Não lhe serviam só para isso, nem a língua, nem a vista. Zurzia na vida alheia como quem ceifa em seara farta. Carla cresceu com as fantásticas histórias das vidas dos outros a preencherem-lhe as fantasias, os sonhos e os medos. E deixou-se embalar pela tentação da variedade, do incomum. Além da mãe e do pai, João de Aristides, não conhecia mais ninguém que tivesse uma vida normal. Não deu muito para a escola. Lá fez o que conseguiu fazer e cedo se mudou para a sala de costura da mãe a que chamou de ateliê, com salinha de espera, revistas de moda e um chazinho fumegante. Ao contrário de Maria da Glória, Carla não copiava muito dos figurinos. Ouvia os desejos das clientes, percebia-lhes as intenções e desenhava ela mesma os modelos que depois costurava. A inovação e a originalidade agradaram e o negócio floresceu.

***

Artur Baptista, o pai, foi toda a vida agricultor. Não se lembra de ter trabalhado outra coisa que não fosse a terra, não conhece outro sol que não seja o do campo e quando Artur Baptista, o filho, nasceu, o pai ensinou-lhe o que sabia. E o rapaz aprendeu com genuíno gosto e confessado prazer. Conhecia o cantar de todos os pássaros, o percurso de todos os sóis, o florir das flores, o frutificar dos frutos. Falava com as plantas e com as árvores. Não se deu com a escola. Tinha pouco para ensinar-lhe. O que ele sabia, já sabia e na escola ninguém parecia interessar-se muito por isso. O que ele não sabia, ninguém, na escola, parecia querer ensinar-lhe. Exceto Carla. A única flor que floriu, o único fruto que frutificou e a única verdadeira professora, não diplomada, entenda-se, que a escola lhe proporcionou. Andou lá pouco. O suficiente para conhecê-la e fugir com ela nas tardes quentes de maio para o celeiro e encostá-la aos fardos de palha e desabotoar-lhe a blusa como quem afasta a folhagem para encontrar o fruto fresco e rosado a cheirar a juventude e a incendiar desejo. Ela percorria-lhe o corpo musculado e retesado pelo labor árduo do campo e desenhava-lhe linhas de sedução com a língua em fogo e as pontas dos dedos suaves a desvendarem segmentos de reta. Foram dias de insaciável erotismo, fugidio e escondido, que é como atiça mais o desejo, e quando vieram a casar, como toda a aldeia esperava, já as mãos dele a conheciam melhor do que ao cabo da enxada, já a língua dela o conhecia melhor do que à linha humedecida e condenada a bailar com a agulha.

***

Os anos foram passando. Nem Carla, nem Artur Baptista, o filho, pareciam cansar-se um do outro. Haveriam de entregar-se como ele viu na revista para homens e, quando chegou o VHS, descobriram as maravilhas da pornografia, compraram o “Kama Sutra” e tentaram as posições todas. De quando em vez, ela comprava uma lingerie provocante ou ele roubava-a à rotina e levava-a, no trator, ao fim da tarde, até à beira rio e faziam amor sob os choupos, à sombra fresca da imaginação. Vieram os filhos. Avolumaram-se as obrigações, instalaram-se as rotinas, chegaram as zangas e as discussões sérias e depois aquelas que surgem por tudo e por nada e chegou o dia fatídico em que a vida dos outros lhes pareceu melhor do que a sua. O tédio não bateu à porta, entrou sem anunciar-se, tomou conta dos aposentos, dos gestos e das palavras. Artur Baptista, o filho, passa agora mais tempo no café do que em casa. Carla lê romances como aquele que viveu um dia. Os seus modelos tornaram-se menos criativos. Aquela vida a dois deixou de fazer sentido, de ter qualquer interesse. Até que ela entrou nas suas vidas. Chamava-se Internet e tinha vindo para ficar.

***

Carla chegou ao quarto pouco depois das três da manhã. Vinha quase nua. Vestia apenas as cuecas. E trazia o sexo humedecido e quente das palavras deles e das carícias que ela se fizera a seu mando. Eles são Saul e Cristina. Marido e mulher. Um casal a viver uma relação aberta e sem preconceitos. Tinha sido a forma que encontraram de a preservar. À relação. As imagens íntimas que trocavam com Carla e as palavras que escolhiam para as acompanhar desenhavam desejos na sua alma, semeavam fantasias no seu corpo. Puxou a roupa da cama para trás num gesto brusco, saltou para cima de Artur Baptista, o filho, rodeou-lhe a cintura com as suas coxas e, arrepelando-lhe os cabelos do peito, ordenou:
– Anda! Vem foder-me!
Artur Baptista, o filho, lavrador de profissão, filho de Artur Baptista, o pai, de quem herdara o talento e o mester, não chegou a perceber se estava a sonhar ou mal acordado, de modo que não foi capaz de mais do que balbuciar um Hã!? interrogativo e admirado como atestam os sinais de pontuação que aí escrevemos. Mas Carla tinha instruções precisas sobre o que havia de fazer e estava determinada no propósito de, como lhe disseram, acordar aquela relação:
– Anda! Vem comer o cuzinho da tua mulherzinha! Hoje é todo teu.
Neste ponto, Artur Baptista, o filho, teve a certeza de que estava a sonhar. Não só aquele palavreado jamais passara entre os lábios de sua esposa, nem mesmo nos momentos mais despudorados, como a oferta que tivera a sensação de ouvir fora sempre terreno proibido naquela relação, terra do nunca, galáxia inexplorada e a inexplorar. E estranhou, por isso, que as mãos dela seguissem as palavras e segurassem as suas e lhas encaminhassem para as nádegas. Carla voltou a ordenar. Artur Baptista, o filho, agora mais acordado, cumpriu as ordens todas. A gosto!

***

Duas semanas volvidas, andava Artur Baptista, o filho, sorrindo de satisfação e inusitado prazer, acreditando que o sexo no casamento era como as colheitas, tinha anos melhores e anos piores, e quis saber que adubo estava na origem de tão fértil sementeira:
– Porque mudaste? Como te lembraste de mudar assim?
– Não me lembrei, lembraram-me.
E contou-lhe tudo. O que era a Internet, como as pessoas conversavam nela, como trocavam imagens, como criavam grupos de interesses, como conhecera Saul e Cristina e se excitara com eles e como eles a tinham aconselhado a provocá-lo. Que eram boas pessoas, pelo menos pareciam, e até já tinham falado em se encontrarem os quatro.
– Para quê?
– Ora, para o que der e vier! Jantar num restaurante chique, dançar um pouco, ir até casa deles e ver no que dá…
Artur Baptista, o filho, estava perplexo, boquiaberto, e quando mexeu a boca para articular uns sons, as palavras que lhe saíram podem ser risíveis, mas foram essas que lhe saíram pelo que não as trocaremos por outras:
– E isso é legal?
– Não sejas tonto! Olha que pergunta. O que acontece entre adultos dentro de quatro paredes não é da conta de ninguém.
– Eu e tu à frente deles?
– E eles à nossa frente, e tu com ela, e eu com ele…
– Mas assim não fico corno?
– Deixa-te de parvoíces! Como é que isso é possível se tu sabes?
– Pois, mas o marido da Albertina Bruxa também sabe e não é menos corno por isso!
– Ó Artur, deixa-te disso! São uns amigos com quem vamos jantar e depois vamos beber um copo a casa deles e a seguir só acontece o que nós quisermos e o que acontecer ficará entre nós.
– Pois, amor, mas eu nu no mesmo quarto que outro homem nu, só no balneário do Clube Desportivo e, mesmo assim, ninguém tira os olhos do chão.
Carla não soube porque Artur Baptista, o filho, não lhe disse, mas não foi a nudez junto de outro homem nu o que mais o assustou. Foi um aperto no peito, uma negação e uma contrariedade, quando pensou em entregar voluntariamente a sua mulher a outro homem. Rejeitou a proposta. Aguentou até o tédio se instalar de novo lá em casa e a cama de ambos perder o desejo, o fulgor e o cheiro a sexo.
– Telefona lá aos teus amigos.

***

Foi em Lisboa. Jantaram num local requintado e muitíssimo confortável, na marginal, e, por isso, com vista para o bailado da lua no espelho do mar. Carla sorvia cada segundo com curiosidade e entusiasmo. Tudo aquilo a surpreendia, a fazia sentir-se excitada e feliz. Artur Baptista, o filho, pensava em Artur Baptista, o pai, e em como fora possível nunca lhe ter falado do reflexo da lua no mar. Já no restaurante, não via grande interesse. Tudo aquilo eram luzes a mais para ele. Não conseguia deixar de reparar no contraste das suas mãos rudes com o aprumo de tudo o que o rodeava. Sentia-se só, perdido e oprimido. Saul e Cristina apresentaram-se elegantes, mas não muito formais e, fizeram questão, nada provocantes ou exibicionistas. Eram um casal cosmopolita, mas discreto e dirigiram a conversa entre os quatro por assuntos inócuos e com extrema educação. Toda a gente sabia o que havia para saber. Não era necessário que alguém referisse o óbvio. De resto, o jantar servia para um primeiro contacto, uma aproximação, e não para discutir o que se iria passar a seguir. Essa moderação surpreendeu Carla um pouco pela negativa uma vez que estava ansiosa por explorar e ser explorada. Já Artur Baptista, o filho, apreciou aquela discrição e aquele tato. Por ele, de resto, findo o jantar, despedir-se-ia das pessoas, agradeceria a companhia, meter-se-ia na pick-up e rumaria à tranquilidade e ao recato de sua casa. Não era isso, contudo, o que estava combinado, nem o que esperavam de si.

***

Era uma casa pequenina, de aspeto acolhedor, com um breve relvado na frente. Era uma rua estreita, de sentido único, muito arborizada. Era um bairro distinto e pacato. Por dentro, a casa mostrava-se maior do que parecia por fora. Estava decorada com requinte, num estilo moderno de linhas direitas e estéreis, de contraste entre pretos e brancos, inox escovado e profusos espelhos a ampliar o espaço e a sugerir indiscrições privadas. Quando entraram, Saul e Crinstina colocaram uma música suave, convidaram-nos a servirem-se de uma bebida e a estarem à vontade e desapareceram sob pretexto de trocarem de roupa para ficarem mais confortáveis. Quando regressaram, Saul vinha dentro de um roupão de quarto em seda escura estampada de ramagens orientais e Cristina trazia uma túnica transparente e um casaquinho do mesmo tecido sobre os ombros. Artur Baptista, o filho, via perfeitamente a lingerie sensual e ousada que ela trazia por baixo, e reparou nos laços, lacinhos e laçarotes e nas fitinhas e deu consigo a pensar se seria capaz de desatar aquilo tudo. Em sua modesta opinião, tratava-se de embarcação com demasiado cordame para os seus parcos conhecimentos daquele marear. E foi ela, Cristina, quem falou primeiro. Estendeu-lhe um roupão ainda dobrado, semelhante ao de Saul:
– Tome, a casa de banho é ali. Liberte-se das amarras da roupa e ponha-se à vontade. E beijou-o suavemente na face. Saul estendeu um conjunto de túnica e lingerie a Carla e foi mais parco nas palavras:
– Acho que sabe o que fazer com isto.
Ela sorriu. Ele fez-lhe uma festa na face, depois no cabelo, deixou a mão deslizar para as costas dela e depois escorregar por elas até às nádegas firmes de Carla que acariciou suavemente antes de pousar-lhe um breve beijo nos lábios. Artur Baptista, o filho, não suportou a situação. Ele sabia que sabia o que estava a passar-se, sabia, até, que todos ali sabiam o que estava a passar-se, mas havia algo em tudo o que sabia que não compreendia. Pousou o roupão que tinha na mão numa cadeira e saiu da sala, da casa, fechou-se no carro e esperou. Toda a noite.

***

Carla ficou. Foi viver todas as promessas eróticas que lhe tinham feito por escrito através da Internet, foi realizar em três dimensões as promessas que lhe tinham feito através de fotografias da intimidade revelada. Entregou-se com avidez, satisfez o corpo e aplacou o desejo. E descobriu. Artur Baptista, o filho, viveu uma noite de horrores. Indeciso entre voltar lá para dentro e ficar ali à espera. Deu murros de raiva no tabliê da pick-up, cabeçadas de desespero no vidro da janela, revoltou-se no banco, saiu à rua, voltou a entrar, mergulhou num choro convulsivo e adormeceu exausto no banco do condutor com cabeça em cima do volante. A madrugada despontava fresca quando Carla bateu com os nós dos dedos no vidro da carrinha. Ele destrancou as portas. Ela entrou. Ninguém disse nada. Ele ligou o carro. Iniciou a marcha e conduziu durante duzentos e cinquenta quilómetros sem pronunciar uma palavra. Abateu-se sobre eles um silêncio fundo de digerir efeitos e consequências. Ela tentou começar uma conversa várias vezes, mas nunca acertou nas palavras certas para tal começo. Talvez não as houvesse. Talvez o silêncio fosse a única conversa possível. Ele esperou uma palavra. Nem sabia como reagir a essa palavra, mas esperou-a. A palavra não veio. Debateu-se com a incompreensão daquilo tudo. Não sabia se tinha feito bem ou mal. Não sabia, sequer, porque tinha ido ao jantar e, tendo ido, não percebia porque tinha desistido. Não sabia o que se tinha passado naquela noite enquanto se revirava no carro, e não conseguiu expressar nada do que sentia. Nem uma palavra. Quando chegaram, parou a carrinha à frente da casa, desligou a ignição, Carla virou-se para ele como quem vai dizer algo, Artur Baptista, o filho, impediu-a. Levantou uma mão pedindo-lhe que não falasse, não olhou para ela, fixou o olhar no conta quilómetros e disse:
– Não quero saber nada!

——————– jpv —————-