Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Parabéns Atrasados e Gratidão em Dia.

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“Mails para a minha Irmã” fez anos na passada sexta feira. Oito!

Oito anos de fé e esperança nas palavras escritas com devoção, oito anos de rasuras e emendas, oito anos de riscos e aventuras.

Sempre, e só, por mim e por vós, aí, desse lado.

Tantos poemas depois, tantos contos e crónicas e até alguns romances depois, ainda o mesmo gosto pelas palavras e a certeza única de que, se não for por mais nada, será sempre por vós!

Obrigado!

jpv

 


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Verbo Trazer

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Trago um novelo no peito,
Uma esperança sem jeito,
Um desespero sem razão.
Trago um novelo no peito
À volta de meu coração.

Trago um suspiro fundo e cavo,
Uma emoção reprimida,
Um doce com travo amargo,
Uma limpidez fingida…
No rosto
E nas entranhas.

Trago zagaias na voz
E, no olhar,
O sangue das façanhas.
Trago os dias presos
Sob os dedos acesos
Da revolta.

Trago a liberdade na passada,
A vontade certa,
A marcha errada.

Trago um povo perdido
E entregue à sorte,
Trago notícias de violência
E de morte.

Trago, enfim, a paz.
A paz dos esmorecidos,
A paz dos corações vencidos.

Trago um novelo no peito,
Uma esperança sem jeito.

jpv


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Short Stories – Malas

Short StoriesShort Stories – Malas

Ele chegou à hora que tinham combinado. Estacionou o carro onde tinham combinado. Tocou à campainha como tinham combinado. Subiu de elevador como tinham combinado. Ela deixou a porta encostada como tinham combinado. Ele entrou de mansinho como tinham combinado. Ela beijou-o, ávida de boas vindas, como tinham combinado. Ele pousou a mala. Ela estranhou:
– Nunca ninguém trouxe malas antes.
Ele pegou-lhe ao colo e levou-a para a cama como tinham combinado.

Amaram-se desesperadamente, entregadamente, violentamente. Exploraram-se de novo os caminhos que já haviam desbravado antes e agora redesbravavam como se fosse a primeira vez. Adormeceram exaustos e saciados. No outro dia, ele levantou-se, tomou um duche, beijou-a nos lábios, pegou na mala que tinha pousado e saiu. Nunca mais voltou.

jpv


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Modo de Voo

voo

Longe.
Distante.
Dias e horas me separam
Desse abraço que anseio.
Queria já o momento
Saltando o que fica pelo meio.

Sem tecnologias,
Nem crédito, nem saldo,
Nem luz que anuncia
Ilusória presença.
Só tu e eu
E a deliciosa sentença
De um abraço,
Queimando o tempo
Suprimindo o espaço.

Falta ainda o asfalto
Cá em baixo,
E aquele outro lá no alto,
Impreciso e etéreo trilho,
Que começa no meu peito
E termina junto a ti, filho!

jpv


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A Paixão de Madalena – Capítulos 33, 34 e 35 (Excertos)

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Esta publicação apresenta excertos dos capítulos 33, 34 e 35 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve. Estes são os três últimos capítulos do livro. Até breve.

A PAIXÃO DE MADALENA
LIVRO V – FIAT LUX

33. Patrocínio Paixão fora sempre uma alma boa e na sua mente os factos, os problemas e as situações eram processados um de cada vez na sequência que entendesse ser a mais lógica. E assim se percebe que, quando fez amor com Maria de Jesus, estava só amando a mulher da sua vida, não estava traindo seu irmão porque não seria capaz dessa maldade. E por isso quis conversar com ele depois, e por isso sofreu a sua violência sem queixar-se e depois o seu desdém e a sua distância. Patrocínio Paixão acredita que todas as pessoas são boas, em particular, Manuel Paixão que lhe ensinou a ir aos ninhos, a armar costilos, a pescar à bóia e ao fundo, a andar de bicicleta e de mota e, indo mais longe no tempo, lembra-se, até, de ter sido ele quem lhe ensinou a dar um laço nos atacadores.

34. Mariana e Jacob não nasceram irmãos, mas foram criados como irmãos, foram amados como irmãos e cresceram como irmãos. Não se estranhou, por isso, que, quando veio a ser mãe, Mariana tivesse escolhido Jacob para padrinho de batismo da bebé a que chamara Dulce Felício. O apelido era do pai e o nome fora escolhido porque aprendera na escola que Dulce vinha do latim e queria dizer doce. Ora, Mariana queria a filha com a doçura de caráter do irmão, Jacob, agora seu padrinho.

35. É isto um jardim. Ouve-se o zumbido das cigarras sob o calor de julho e a água correndo em carreiros por entre as árvores que dão a sombra onde ela se senta. Criara o hábito de contar-lhe histórias no jardim. Fadas, princesas, príncipes a cavalo, reis autoritários e o amor que tudo vence. Há pouco, a doce menina, Dulce chamada, chegou-se ao pé dela e pediu:

– Vovó, contas-me uma história?
– Claro, minha querida. Pequena ou grande?

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[O presente texto constitui um excerto dos Capítulos 33, 34 e 35 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]


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A Paixão de Madalena – Capítulo 32 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 32 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

 A PAIXÃO DE MADALENA

LIVRO V – FIAT LUX

32. Albertina foi mãe duas vezes. E duas vezes teve as alegrias de ser mãe e duas vezes as tristezas da maternidade. Tentou ser livre e educar na liberdade. Para a liberdade. Conseguiu, pode dizer-se, mas a liberdade tem o vicioso costume de fazer-se pagar. Caro. Educou no amor e para o amor e trouxe-lhe isso fartura de afetos, de alegrias e de desilusões e tristezas. Fez sempre aquilo em que acreditou e foi livre sempre que a vida a deixou.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 32 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]


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A Paixão de Madalena – Capítulo 31 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 31 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

A PAIXÃO DE MADALENA
LIVRO V – FIAT LUX

31. Maria de Jesus sofreu sempre. Até com o regresso da filha. A solidão e o desespero foram suas principais maleitas. Tivera um momento de felicidade com Patrocínio. Um momento de entrega livre e apaixonada e sacrificara toda a sua vida por esse momento. No início, logo após a partida de Albertina com as meninas, Manuel Paixão fora muito rigoroso. Fechou-a em casa, não permitia que saísse, exceto um domingo por mês para se ir confessar pela manhã e depois assistir à missa. Ele próprio se encarregava de a insultar e de a maldizer em público durante a semana e depois, ao fim de semana, quando ela saía vestida de negro, de luto por si mesma e pela vida que lhe coubera em sortes, com um imenso véu a cobrir-lhe o rosto, tinha de ouvir os comentários despudorados que o marido incentivara ao longo da semana.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 31 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]

 


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A Paixão de Madalena – Capítulo 30 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 30 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

A PAIXÃO DE MADALENA
LIVRO V – FIAT LUX

30. Marcelle e Mark tornaram-se presenças distantes, os seus contactos eram escritos, por e-mail. Não se escreviam com frequência, em pequenas mensagens, a contar episódios da sua vida, como correra isto ou aquilo. Escreviam-se pouco, três ou quatro vezes por ano, mas quando o faziam, eram longas missivas carregadas de ilusões, de desilusões, de aventuras amorosas, de desventuras, de projetos profissionais, de emoções e saudades. Continuaram a comunicar-se como se estivessem juntos de quando em vez e continuaram até a fazer planos para coisas que haveriam de fazer quando estivessem uns com os outros, mas a verdade é que não se viam desde Joanesburgo. Marcelle entusiasmou-se com a separação de Madalena e Pablo Sentido, disse que a visitaria na aldeia. Precisava vê-la, estar com ela, a viagem do Canadá a Portugal seria baixo preço a pagar por estarem juntas. E veio mesmo. E esteve uma semana com Madalena. O suficiente para a amar com volúpia e desejo redobrado e o suficiente para aperceber-se de que, naquela fase, não havia espaço para si na vida de Madalena.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 30 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]


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A Paixão de Madalena – Capítulo 27 (Excerto)

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O presente texto constitui um excerto do capítulo 27 do Romance “A Paixão de Madalena” que publicaremos em breve.

 A PAIXÃO DE MADALENA

LIVRO V – FIAT LUX

27. E Cristo ordenou aos empregados que não ficassem ali parados, que agarrassem nas ânforas e fossem à fonte na beira da estrada que pouco distava dali e as enchessem com água e as vazassem nos copos dos convivas. E os empregados olhavam incrédulos o viajante como que desconfiando da possibilidade de cumprir aquela ordem porquanto não percebiam como enchendo âs ânforas de água, delas jorraria o vinho a servir. Ide! Disse-lhes o viajante e eles foram com passo incerto e não se aperceberam como sucedeu o que os seus olhos presenciaram pois que enchiam as ânforas de água na fonte e as vazam de vinho à mesa.

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[O presente texto constitui um excerto do Capítulo 27 de “A Paixão de Madalena” a publicar em breve em livro. Boas leituras!]