Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


Deixe um comentário

Príncipe

tree

Ainda agora
Se não via,
Em teu rosto,
O mais insuspeito
Traço de alegria.
Ainda agora,
Há uns momentos atrás,
Diria que te faltava toda a paz.
Negro e dorido,
Teu coração,
Sem horizonte
Nem solução.
Ainda agora,
Há poucochinho,
Diria que choravas
Por dentro,
Vítima de violento
E incontrolado sentimento.

Mas ele chegou.
Talvez fosse um príncipe,
Mas não parecia um príncipe.
E teu rosto se iluminou.
Passo desacertado,
Chinelo no dedo,
Mal segurado.
A barba desalinhada,
A camisa branca aberta
E desengomada,
A alma deserta
De tudo,
Menos de ti,
Como querias.

Pensei que sabias,
Eu desejei, em tempos,
Ser ele.
E outra, que não conheces,
Eras tu.
Já não tenho
Esse desejo cru
E genuíno.
Hoje, contento-me
Com a tua luz,
Como o menino
Que vê brincar os outros
E fica feliz.

Não és ela.
Mas és a prova
De que havia,
Para o príncipe em mim,
Uma donzela.

E agora resta-me
Ver-te a face
Em leve rubor
De excitação.
Restam-me estes sentimentos
Confusos e dispersos,
Estas linhas sinuosas,
Estes atormentados versos.

jpv

Anúncios


Deixe um comentário

Poesia

 

20180321_234823

Primeiro,
Pressente-se, ao longe,
Esfumada,
E não se percebe bem
O que lá vem.

Depois,
Cresce um pouco,
Um incómodo incerto,
Uma inquietação imprecisa.
Avança tímida e indecisa
E faz-se mais perto.

Agora,
É já uma visível preocupação,
Ou uma alegria exuberante,
Em todo o caso,
É inconfundível a excitação
E a inconstância constante.

Por fim,
Irrompe sob os dedos, em bailado,
A criação.
Um jogo de fúrias e medos em tornado.
E atropelam-se,
Galgam-se desejos e voracidades,
Procuram a frente e as verdades,
Anunciam batalhas, vitórias e perdições.

São só palavras
Desenhando emoções.
São só estas linhas imperfeitas.
São só esta coisa absurda
Que tenho no peito,
Este reduto último
De quem vive dilacerado e desfeito.

Cada palavra rasga-me a carne
E cada verso é escrito a sangue,
Cada estrofe é uma coisa que arde
E exala de meu cadáver exangue.

Palavras…
Arrancadas
À noite e ao dia.
Em minha mente
Torturadas…
Poesia.

jpv


2 comentários

Morrer

africa-tree

A ausência da palavra.
A dor do silêncio.
O inequívoco rumo
Da flecha.
Uma alma vergada
Ao sofrimento
Num corpo só
E exilado de ti.
Um grito, primeiro.
Depois, um lamento,
Um debater-me com o inexplicável.
E por fim o choro.
Caminho cego
E prometo voltar a ver,
Mas nada já me resta
Na vida
Melhor que morrer.

jpv


Deixe um comentário

Partida

 

20171218_104551

Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo.
Ainda sinto em mim
O perfume da tua pele doce.
Ainda a tua voz
Me pergunta se vi os teus óculos.
Ainda não partiste
E já foi, há muito,
A hora da partida.
És a estrela
Na noite da minha vida.
A força
Do meu respirar.
Conjugação primeira
Do verbo amar.
A luz no breu,
O fogo de Prometeu
Sem castigo nem suplício.
Só o vício
De ter-te a mão
Na mão
E saber que isso
É o Universo que conheço e sei.
A única e verdadeira lei
De estar vivo e completo.
Ainda tenho o teu abraço
No meu corpo
E já me falta o chão…
E o teto.

jpv


Deixe um comentário

Saudades

saudades

Tenho saudades
Dos beijos que não me deste.
Tenho saudades
Das carícias que não me fizeste.
E tenho saudades, enfim,
Da tua pele suave sobre mim
Prometendo que não voltava.
E quando voltaste,
Trazendo suplícios de ternura,
Insanidade dos sentidos,
Desvario de mente quase pura
E quase perdida,
Trouxeste ainda mais vida,
Mais transgressão
E absoluta liberdade.
E deixaste no meu corpo
A semente dessa saudade.

jpv


Deixe um comentário

E havia tanto mar…

Não houve…
Não poderia ter havido.
Foi sempre um mar incerto,
Uma embarcação sem rumo
Nem sentido.

Não tem mais
Cavalos selvagens nos teus cabelos.
Não tem mais
Borboletas coloridas nos teus lábios.
Sucumbiste
Aos conselhos sábios
Da razão e da prudência.
Presente…
Só a ausência.

E havia tanto mar.
Havia tanto marinheiro.
Havia um homem por inteiro
E um desejo a saciar.
E agora
Há só este chão queimado,
Este deserto desolado
De ter-te.

Nem me viste.
Nem chegaste a ignorar-me.
Poeta sem poesia.
Modelo sem charme.
Músico sem notas.
Coração vazio
De onde brotas
Sem nunca
Teres entrado.
Só este terreno inóspito,
Este chão queimado.

Não houve…

João Paulo Videira


2 comentários

Fogo

woman-black-and-white

Porque me namoras assim?
Porque me incendeias a alma
E a palavra
E ateias o lume do corpo?
Porque me dás sem pedir?
Porque me prendes
E me libertas?
Porque ofereces tuas formas
Às minhas mãos desertas?
Porque me acaricias a existência
E me abandonas a arder?
Porque me deixas ganhar-te
Se te não posso perder?

João Paulo Videira


4 comentários

Revolta

Muda o tempo,
Muda a gente,
Muda a palavra
E a promessa,
Muda o encanto,
Muda o olhar
E o mudar não cessa.
Muda a luz,
Muda a paisagem,
Muda o piloto
E o destino da viagem.
Muda a intenção,
Muda o imutável,
Muda a geração
E o destino favorável.
Muda o amor,
Muda o corpo
E a sensação.
Muda o sexo,
Muda a cama
E o frio do chão.
Muda o desespero,
Muda a fome
E muda a solidão.
Muda o suor,
Muda o sol
E muda o vento.
Só não muda
Esta revolta cá dentro.

João Paulo Videira


3 comentários

Leve Passada

Não se ouvem teus passos,
De leves que tens as passadas.
Não abres as portas
Que não estão fechadas.
Chegas e és tu,
Tua presença sente-se
Na ausência de ti.
És leve e de leveza
Se faz teu encanto,
Teu princípio
E teu fim.
Teu corpo anuncia desejos,
Teu olhar não esconde tentações.
Trazes nos lábios promessas de beijos
E nas palavras sementes de paixões.
E não invades.
Não me invades.
Danças ao ritmo
De meu peito.
Tens um certo e estranho jeito
De prender-me
E de me libertar.
Ainda agora começaste
E já estás a acabar…
Passas leve,
De leves tens as passadas.

João Paulo Videira


Deixe um comentário

Despedida

despedida-01

Partiste de meu silêncio
E gritaste cá dentro
Uma vontade cega!
Partiste de mim
E percebi, enfim,
Que um amor tão grande
Não se nega.
Partiste de minha ilusão
Sem teres pisado o chão
Que te oferecia.
Partiste,
Indiferente,
Como se não fosse
Sofrer de gente
Este sofrer
Que por ti sofria.
Partiste
E não soubeste
Como a esta alma vieste
Desarranjar o concerto.
Partiste
E não soubeste
Que, por me não ganhares,
Te perdeste.

As palavras que te disse
E as carícias que quis fazer-te
Morreram sozinhas.
Tuas mãos
Nunca foram minhas.
Teu êxtase
Não me aconteceu.
Não colhi
O teu Olimpo
E foste tu
Quem perdeu.

Não me vi nos teus gestos,
Não cresci no teu olhar
E não foram para mim
As palavras proibidas
Que andaste a sussurrar.

Não houve saudações,
Nem despedidas.
Nem se fechou a porta
Que nunca se abriu.
Teu peito gélido
Não me viu.

E hoje,
Neste pódio de emoções,
Com o mar a meus pés,
Sei que sou
Mais do que fui
E tu és
Só o que és.

Partiste…

jpv