Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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África Minha

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Não és terra de partidas.
És terra de chegadas.
Não é fértil, teu chão,
Em despedidas.
És mais de gargalhadas
E brisas volantes.
Não te puxa, o humor,
Para a melancolia.
Cresce melhor, e mais rápida,
A alegria.
Não és terra de planos.
Preferes os esquemas e os improvisos.
E ouço os alertas e os avisos,
Mas encosto-me ao teu ritmo.
Abraço essa poesia sem rima,
Esse olhar atrevido,
Essa facilidade desarmante.
Nunca serás companheira.
Sempre amante!
Nada me prende a ti,
E, contudo,
Choro na partida.
Agarro-me ao nada que és
E hesito na passada.
Sinto pesados, os pés,
Presos a nada.
Tens essa força oculta,
Essa macumba enfeitiçada!
Teu vazio cresce e avulta
Em meu peito.
E fico só e triste,
Sem palavras e sem jeito,
Na hora de ir.

Não és terra de sentir,
És terra de ser sentido.
Não és terra de gritar,
És terra de ouvir o grito.
Não és terra de possuir,
És terra de ser possuído.

Caminhas poderosa,
Altiva e sozinha.
África vaidosa,
Profunda…
África minha!

jpv


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Reencontro

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Vieste como sempre, tranquilo. Chegaste como sempre, tranquilo.

A mala carregada de aventuras, de histórias ousadas, dos riscos que correste, das emoções, do que mais ninguém fez a não ser tu. Disseram-te que morrerias no deserto e foste. E voltaste de noite com a lua a rebrilhar no chão de sal. E subiste à favela assustadora como quem caminha por entre irmãos. E foi isso que aconteceu! E eu ouvia-te, ali mesmo ao pé de mim, e ainda sentia medo por ti! E a estrada com tiroteio dos dois lados e o veleiro que te deu boleia, a fala com os brasileiros, o vocabulário que adotaste para te entenderem e teimas em repetir pelo hábito. Os professores, os colegas , as notas. O Uruguai, a Argentina, a Bolívia, Porto Alegre e a cidade que te encantou como não esperavas, mais do que a Lisboa do teu coração: Rio de Janeiro. A melhor cidade do mundo disseste. As aulas teóricas e as práticas, a camiseta do Neymar, o futebol em Copacabana, à beira mar vivido.

Trazes um mundo inteiro nas palavras, no sorriso, nas ironias, no profundo entusiasmo com que superaste tudo. Até um assalto de pistola em punho. E eu temendo, ainda, por ti. Eu, que escrevera há dias que amar é libertar. E é. Mas ninguém disse que é fácil. Não poderia prender-te. Não se aprisiona um ser humano. Sempre que aprisionamos um ser humano, há algo nele que morre e não viverá de novo. Quero-te assim, a destilar entusiasmo e vida vivida em toda a sua plenitude. Trabalho, prazer, alegrias, tristezas, segurança e riscos. Quero-te livre, mesmo que isso me sofra. Doer, não é o termo.

E quero que conquistes o mundo e o vivas e o faças teu. E quero que regresses. Ver-te partir dói, sim. Mas é porque dói, que ver-te chegar é mais do que um reencontro, é um renascer do meu coração pequenino para a Vida e para a Fé!

Chegaste. E o mundo voltou a fazer sentido. Tudo está de novo no seu sítio. Até que partas outra vez e leves o nosso amor e o nosso orgulho contigo.

Se morresse agora, morria feliz. Junto a ti, depois de me reencontrar contigo, depois de ouvir-te as aventuras, depois de perceber que, sem ti, não há mundo, não há vida que valha a pena viver. Se morresse agora, não morria ninguém a não ser o pai do meu menino. E esse, ia feliz. E esperaria por ti até que nos reencontrássemos de novo. Não tem fronteiras, este amor que nos une. Nem mesmo essa.

Bem vindo, filho!

Pai

 


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Um País

Portugal Ilha de MoçambiqueUm País

Um marco na estrada,
Um gesto que se faz.
Uma palavra que se diz
E ergue-se o meu país.
É um barco no mar,
Uma varina a chorar.
É uma sopa e o conduto
E uma velhinha vestida de luto.
É um homem que parte.
É a vertigem da arte.
É um pão sobre a mesa,
É mais dúvida que certeza.
É uma capela e um sino,
Uma bandeira e um hino.

E é a saudade!

É uma guitarra a chorar um fado,
Um povo trabalhador e honrado.
E é a distância.
O passo certo da errância
E da solidão.

O meu país é uma canção.

Nascem na pena de um poeta
Versos de esperança e futuro.
Mas o horizonte e a meta
Estão para lá do muro.
A semente secou e morreu
Num ventre prenhe de vida.
O meu país pereceu
Às mãos de uma arma fingida.

Houve homens altos
Que ergueram uma capela no Índico
E uma fortaleza perdida.
Houve homens que foram lá longe
Onde começa o mundo,
No outro extremo desse poço sem fundo
De palavras e dizeres.
Houve homens que levantaram âncoras
De morte e suor.
E também houve feitos épicos
E vorazes epopeias.

O meu país é um deserto de ideias!

Passa uma criança com fome
E um doente abandonado,
Passa um velho triste
E um político num fato engomado.
Passa um avião
Rasando as casas da cidade,
Lá dentro vai a desilusão
Num corpo sem idade.
Passa um povo traído
E não há quem o console,
Vive entregue ao capricho sinuoso
De uma bola de futebol.
Vai desfilando angústia e desespero
Na passadeira da história.

Meu país é um povo sem memória!

E de manhã, ao acordar,
Sente-se um perfume no ar,
Um vento de insuspeita mudança,
Um grasnar na praia,
Um rumor de sentença,
Uma música na rádio,
Uma correria de rua,
Uma bandeira desfraldada,
Uma mulher semi-nua.
Um gritar entusiasmado,
Uma cidade em alvoroço,
Um refrão mal rimado
Em verbo curto e grosso.
Um punho no ar,
Um cartaz na mão.

Portugal é um país
Em constante revolução!

jpv