Mails para a minha Irmã

"Era uma vez um jovem vigoroso, com a alma espantada todos os dias com cada dia."


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Revolta

Muda o tempo,
Muda a gente,
Muda a palavra
E a promessa,
Muda o encanto,
Muda o olhar
E o mudar não cessa.
Muda a luz,
Muda a paisagem,
Muda o piloto
E o destino da viagem.
Muda a intenção,
Muda o imutável,
Muda a geração
E o destino favorável.
Muda o amor,
Muda o corpo
E a sensação.
Muda o sexo,
Muda a cama
E o frio do chão.
Muda o desespero,
Muda a fome
E muda a solidão.
Muda o suor,
Muda o sol
E muda o vento.
Só não muda
Esta revolta cá dentro.

João Paulo Videira

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Pôr-do-Sol

pordosol

Tens a liberdade que foi minha,
Tens a canção e o gesto acertado,
Tens o tempo e a opção.
Vives cada passada
Como quem caminha
Em estrada de ilusão.

E sorris ao perigo
E ao desafio.
Tentas sem risco
Nem cálculo,
E corres desenfreado como o rio
Que sabe onde fica o mar.

E tens o amor
Em passadeira estendido.
Tens essa ousadia,
E esse fulgor
De quem não vive arrependido.

Não contas os dias,
Não precisas do tempo,
Não queres o exemplo,
Com que me desafias…

E vives.
E desvives-me os conceitos
E as emoções.
Despregas-me as mãos da Cruz
E lambes-me os rasgões
Na carne
Como se pudesses…
Como se nada mais fizesses…

É já o Sol a por-se.
É já o declínio do dia,
Uma luz amarga e fugidia
Pinta as tardes.
E esse fogo que ardes
E foi em tempos meu
Deixou-me e morreu.

jpv


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Na Rua da Minha Vida

calcada

Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Entram mulheres em corropio.
É estreita a saída
Para tanto mulherio.

Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Entra a dor, sem bater,
Sai devagar,
Entrou a correr.

Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Rígido e isento,
Sai, célere, o tempo.
E ri-se ao sair.
Chora minh’alma
Ao vê-lo partir.

Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Saem os desejos
De ter-te em meus braços.
E entram outros braços
Desejados de mim.
Saem, por fim…

Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Saem os afetos e as ilusões.
Saem sempre,
Sem contemplações.

Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Saem as forças e a energia,
Sai a luz
Que iluminou o dia.
E entra a noite escura.
Na rua da minha vida
Há prenúncios de tortura.

Na rua da minha vida
Há sete entradas
E uma saída.
Sai a própria vida
E deixa a porta aberta.
Minha vida é uma rua deserta.

jpv


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Chão de Vida

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Chão de Vida

Estes são os meus dias,
As minhas cores,
Os meus pássaros,
Os meus animais selvagens,
Os meus ritmos,
As minhas manhãs,
Os meus perigos,
O meu peito cheio de esperança,
A minha paisagem,
A minha música
E a minha dança.

É aqui que pertenço em vida.

Cada hora vivida,
Doce ou amarga,
De chegada
Ou de partida,
É aqui o seu tempo.

É aqui o Paraíso
E a falta dele.
A liberdade
E o medo.
A revelação
E o segredo.

São daqui os momentos
Que vale a pena viver.
A minha família é este chão.
Este sentir que há tempo
Para além do tempo.
Este ir e voltar,
Partir e regressar
Sob a pele marcado.
Minha vida é uma viagem
E este é o porto
Que vê chegar o nauta cansado.

jpv


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Limiar

Limiar

Não há mais palavras
Nem vontade,
Nem desejo.
Há só a calma aceitação
Do que sinto
E do que vejo.

Era tão bom
Quando ainda me importava.
Quando havia luxúria no meu corpo.
Quando a energia me arrepiava as carnes
E o cheiro do teu corpo
Bloqueava os outros sentidos.
E o sentido era único.

Já não quero a eternidade.
Não me diz nada o tempo todo.
Tinha uma só vida…
E adiei-a.

Tinha uma só voz
E poupei-a.

Tinha um só corpo
E preservei-o.

E nada me resta mais
Que a condição miserável
De morrer conservado
E saudável.

Bebam o álcool todo!
Fumem todo o tabaco!
A vida é um barco
E não há terra.
Deleitem-se com todos os corpos,
Possuam todos os sexos!
E caminhem nus pela praia da vida
Na aurora de cada dia.
Nada mais existe do que o momento.
Cada momento
É todo o tempo
Que temos.
Cada dia é a hora de ser vivido.
Amanhã é tempo perdido.

E quando olhardes para trás,
Contemplai
Um lastro de vida vivida,
Um rasto de experiência
E desperdício.
Os verdadeiros despojos
Do exercício
De sentir-se único e vivo.

E pagai para ver!
Correi todos os riscos!
Só no limiar do azar
Abunda a sorte.
A vida inteira e única
Só se conhece nas fronteiras da morte.

jpv


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Brisa

BrisaBrisa

As palavras sopradas à brisa
Têm mais sabor.
Sabem a histórias antigas
De mancebos heróicos
Amando raparigas.
E vem, com o restolhar da folhagem,
Bailando nas voltas da aragem
Fresca,
Uma promessa.
É uma vida nova e doirada,
Uma esperança renovada,
Uma imagem e uma ideia.
Tudo, preso na teia
De uma conversa que passa.
Passou.
E ficou só o canto da cigarra
E a brisa na minha pele.

jpv


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Espectro

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Queria viver outras vidas,
Mas só me resta…
Esta.
Queria viver outras aventuras,
Encontrar novos portos,
Desvendar outras ternuras.
E ser outro homem
Sendo o mesmo.

Queria viver outras vidas,
Mas só me resta…
Esta.
Morrer outros problemas,
Enfrentar fantasmas diferentes,
Chorar outras lágrimas,
Ter outros amores ausentes.
E ser outro homem,
Sendo o mesmo.

Queria viver outras vidas,
Mas só me resta…
Esta.
Lamber o sal de outros corpos,
Despedir-me de outros mortos,
Viajar outras viagens,
Estender o olhar noutras paragens.
E ser outro homem,
Sendo o mesmo.

Queria viver outras vidas,
Mas só me resta…
Esta.
Trabalhar outros trabalhos,
Beber na pele outros orvalhos
E rasgar a carne nos espinhos de outras roseiras.
Descansar outros descansos
E suar outras canseiras.
E ser outro homem,
Sendo o mesmo.

E há nisto tudo
Uma prisão
E uma finitude
Que me ofende
E oprime.
Não me chegam as promessas
De outras vidas,
De aléns oferecidos pelas divindades
E pelos livros sagrados.
Não me chegam os jardins
Nem os juízos, nem os encontros entre finados.
Não me chega a eternidade prometida
Se esta é a única e verdadeira vida
Que vejo e sinto em mim.
Nada me chega
Se paira sobre tudo isto
O lúgubre espectro do fim.

jpv